13.4.12

desassossego

Continuo sem saber o que escrever.
Exercício fútil. Desassossego gasoso.
O sendeiro luminoso fundiu-se,
apagou-se no sangue das armas
e das ideias. Não transpira mais
vermelho.

Os tempos idos dos amanhãs que cantam
fazem-me lembrar outras velhas esperanças,
quando tudo sabia a novo e tudo era possível.

Lembro-me do entusiasmo e do sorriso,
que entretanto se apagou.
Sobram apenas nostalgias de um tempo
que nunca aconteceu.
Sobram apenas lembranças que não existem.

O momento de ouro é agora.
Agora ou nunca dizem. Mas se o agora
é igual ao nunca, nunca será agora
que os amanhãs cantarão.
O amanhã é amanhã é amanhã.
Uma fuga dourada, uma projecção.
Um outro lugar, outra nação.
Uma vontade que se afasta da minha,
uma vontade.

Escravidão é escravidão.
Chegará a hora de embarcar.
De fugir deste lugar, de sair, desencontrar,
correr, sobressaltar. Parar um pouco e respirar.

Parar um pouco. De me encontrar.


inquietação

Estou inquieto. E não sei o que escrever.
Não sei o que dizer, o que falar.
Bla bla para ti também.
Cortaram-me a língua e agora gemo.
Sou um bezerro de ouro e não me mexo.
Apenas zurro. Afinal sou um burro,
nem me dei conta da transformação.
Em ouro, em pó, nada sobre nada.
A transpiração apenas trai o lugar onde nasci.
A primeira pedra, ao alcance do braço,
um abraço no vazio. Um abraço,
que tarda em chegar.

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Espero em vão, num vão de escada.
Vão e vêm os pescadores,
e a sereia que desta vez foi pescada.
Sobram escamas, sobram lágrimas,
salgadas do teu mar.
Não sabem a nada, sabem a vazio.
São toupeiras que procuram
um significado no significado,
no muro de cimento, sangue fresco,
um dia verás o outro lado
mesmo sendo cego.

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O estreito de ormuz
parece cada vez mais estreito,
fecha-se, relega-se para terceiro plano
e não deixa ninguém passar.



12.1.12

o outro lado

É em ti que penso nestes dias de fogo e fúria
A alma translada-se como um furacão.
Tudo se remexe e se revolve
Nada fica como estava.

O precipício está tão próximo
Que quase me sinto a cair
Apesar de lhe ter virado as costas
E te ter visto a sorrir.

Os dias que virão são de ouro,
E nada mais os abomina
É apenas de ar e de espuma
a espessa neblina.

Dentro de um outro porvir
Através de um outro passar
Atravessamos o medo e o mar
Atravessamos o mar e o mundo
Atravessamo-nos um ao outro
Para finalmente chegar
Ao outro lado.

*