18.11.14

Tu em mim.


Quero ser tu em mim,
Quero assistir à aurora
Do nosso nascimento enfim,
Dentro de ti, agora.

Fazes renascer em mim
Toda a esperança do novo,
Quando irradias a tua dança,
Dentro de mim e em ti voo.

A luz que alumia esta noite,
É apenas de nós para o mundo,
E não há imundo que apregoe,
O escuro e a solidão tão só.

Apenas existimos nós,
Nós e o mundo inteiro,
Que dentro de nós ecoa
Todo o amor verdadeiro

***


9.11.14

As coisas.

As coisas que acabam sem terminar
Dão-me raiva de verdade.
Incendeiam tudo e não deixam nada intacto.

*

O golfo de tu


A baía espreitava lá fora luminárias de aurora,
Era tão cedo e tudo já tão radiante.
Ele e ela punham a cabeça de fora,
e riam por um instante,
embora fosse tudo tão aquático
e tu de fora rindo para os ecos distantes
Que ressoavam pela água salgada fora.

As escamas prateadas reluzentes
Mostravam o sabor da aurora,
E tu dizias entre as sombras,
ama-me aqui, já, agora.

Mas sombras não existiam mais,
Entre tanta luz e tanta cor.
E os botos lá longe, tão perto,
Continuavam alegres o seu lavor.

Dizias que o sabor do presente
Era meio amargo. Eu acho-o meio doce.
Podemos não ter tudo o que queremos,
mas temos o aqui, o agora.

E nesse breve instante,
Sentimos ambos a pequena morte,
 E entendemos um pouco mais, um pouco além,
O que é a vida, o presente, o agora.

2.11.14

a faca não corta o fogo (alias: Herberto Helder)

Aproximei-me de ti.
Teus olhos riam, a tua energia dançava
Naquele momento além, onde estou vivo.

O vento respirava em teu rosto e floriam anémonas aladas.
Os teus cílios viviam em mim e brotavam cores vivas.
A tua pele é tão bonita e eu apenas senti o teu ombro nu
na face nua da minha mão.
Empurrei-te e não reagiste.
Como queria que viesses até mim.
Lembro-me de ti tão hoje como naquele dia.
E como é difícil esperar eternidades para te rever.

O teu sorriso leve ecoa em mim frutos silvestres.
Sabores delicados, framboesas da minha infância.
O sabor da tua boca é apenas uma lembrança
de outros tempos, outras memórias, outros sabores
perdidos em mim.

O teu calor presente-se na água de fogo.
Quanto tudo arde, surges tu de entre as chamas.
Ardes mais que o próprio fogo, dentro de mim.

O teu eco não é mais que um pressentimento,
uma sombra, um rasto, uma presença subtil,
que me faz duvidar da minha própria existência.
Que sou eu afinal e quem é este ser que me ensina
o que é estar vivo e me faz refletir sobre o significado
da existência?

*




O caçador e a presa


Diana lançou sua lança sobre mim.
Sossobrei um pouco, e deixei-me cair
Ofegante, cheirei o chão e ele me disse
Inspira e relaxa, pois o caçador é a presa,
E a presa o caçador.
Fingi que me debatia com a morte,
e ela aproximou-se confiante.
Entre a vida e a morte há apenas uns instantes,
que se elevam nos momentos importantes.

Quando Diana sorridente, certa da sua conquista
Se aproxima para reclamar seu troféu,
Eis que a presa desatina e a agarra com vontade
Sua caçadora implacável.

E se debatem enfim os dois universos,
Céu e lua, vida e morte, caçador e presa.
O dualismo em si, separado, procurando
seu sentido na escuridão da noite.

E de repente entendem
Que para ser mais, não podem ser mais dois,
Mas sim um. E no anoitecer do dia,
caçador e presa se unem
e transformam o mundo para sempre.


7.8.14

Escrita aleatória I

Escrever é uma arte sem fim. Serafim voltou dos impropérios da noite. Enroscou-se no norte. O forte da primavera será sempre denso como pedra. O mar voltou como lhe deu à sorte. Abraça-me como se não houvesse amanhã. Estarás então presa ao teu interior? Como se denomina amor? Faz um sinal com teu polegar direito e saboreia o deserto que contempla o teu riso. Como voltar ao início da saudade? Os raios despontam na manhã e nada dizem, iluminam e aquecem e renovam a tua pele de mágua. Os rastos perdidos do antigamente despontam novamente na tua pele de cobra. Perdida e encontrada. Vazia mas recuperada. Valiosa e temerosa. Apenas é o que é, um caminho entre muitos, uma rosa no deserto, uma insgnificância decerto, na infinidade do fim.
Rastos de ouro inflamam este céu de prata.
Não há nada que nos diga o que há além.
Apenas a dúvida ultrapassa o preconceito
e estalam perto, uivando, ventos alados.

A luz do outro lado é mais incerta
Que a candeia perdida dos teus braços
Mas insisto em navegar os mares abertos
Do que esperar esperando os naufragados.

As tágides eternas que esperando
São imagem do que era navegado
Rumam incertas para lá da tapobrana,
Rumam no escuro para além do alcançado.

As runas que se enlaçam nos teus seios
Traduzem meus anseios em teus braços
Falam de antigas glórias, velhos impérios

E que resta agora dos anseios
Tão antigamente propalados

Pó e névoa e impropérios
Melancolia, febre e climatérios.
Velhos impérios naufragados.

8.6.14

A brisa suspira entre os dedos da memória.
Vai soprando lentamente, por vezes com mais ímpeto,
o que resta do resto da história.

A luz que tarda em vir. A ausência sempre sentida.
Está presente num outro porvir. Está presente e pressentida.

A luz que se apaga, e o presente se dilui.
Na escuridão perene a fábula fica presente.
Dentro do chão de repente surgem duas anémonas,
e o submerso surge finalmente, dentro do mar que se sente
fazerem parte delas.

E o mar que se esconde debaixo do planisfério,
Não surge no horizonte, não surge no teu mistério.
Apenas se mantém lá, onde ninguém alcança,
A tua essência infinda, no simples passo de uma dança.

*