24.10.21

o regresso dos sabores impossíveis

O olhar cintilante de um azul-céu claro

Lembra sabores de framboesa

e um tal de além que não sabemos o que é

apenas pressentimos que há

algo imaterializável, intangível, inegociável

uma linha vermelha espiritual

a cortar-nos ao meio no vazio

a dizer-nos que os sabores acabaram

e que os regressos são impossíveis


As palavras não ditas ressoam por vezes

neste céu azul profundo de fim de tarde

Lembrando melancolias distantes

Imagens de futuros improváveis

Imagens de tempos diferentes

Tempos de coisas proibidas, profanas, ultrajantes.


Regressamos enfim ao mesmo lugar de que partimos

E não sabemos onde estamos,

Apenas aguardamos o lento espreguiçar da manhã

Para regressar.




20.1.15

Ausência

A tua ausência pressentida está presente,
Tão presente que quase finjo não ser, não estar
para não a sentir, não me ausentar completamente.

O teu amor continua presente,
A tua ausência também.

Nos olhares, nas flores, nos frutos.
Nas sombras ondulantes das palmeiras.
Nas formas que sugerem as nuvens.

Ondulo nas sombras e no mar,
Voo no ar e no vento,
No meu pensamento procuro por ti
Sem te encontrar.

*


18.11.14

Tu em mim.


Quero ser tu em mim,
Quero assistir à aurora
Do nosso nascimento enfim,
Dentro de ti, agora.

Fazes renascer em mim
Toda a esperança do novo,
Quando irradias a tua dança,
Dentro de mim e em ti voo.

A luz que alumia esta noite,
É apenas de nós para o mundo,
E não há imundo que apregoe,
O escuro e a solidão tão só.

Apenas existimos nós,
Nós e o mundo inteiro,
Que dentro de nós ecoa
Todo o amor verdadeiro

***


9.11.14

As coisas.

As coisas que acabam sem terminar
Dão-me raiva de verdade.
Incendeiam tudo e não deixam nada intacto.

*

O golfo de tu


A baía espreitava lá fora luminárias de aurora,
Era tão cedo e tudo já tão radiante.
Ele e ela punham a cabeça de fora,
e riam por um instante,
embora fosse tudo tão aquático
e tu de fora rindo para os ecos distantes
Que ressoavam pela água salgada fora.

As escamas prateadas reluzentes
Mostravam o sabor da aurora,
E tu dizias entre as sombras,
ama-me aqui, já, agora.

Mas sombras não existiam mais,
Entre tanta luz e tanta cor.
E os botos lá longe, tão perto,
Continuavam alegres o seu lavor.

Dizias que o sabor do presente
Era meio amargo. Eu acho-o meio doce.
Podemos não ter tudo o que queremos,
mas temos o aqui, o agora.

E nesse breve instante,
Sentimos ambos a pequena morte,
 E entendemos um pouco mais, um pouco além,
O que é a vida, o presente, o agora.

2.11.14

a faca não corta o fogo (alias: Herberto Helder)

Aproximei-me de ti.
Teus olhos riam, a tua energia dançava
Naquele momento além, onde estou vivo.

O vento respirava em teu rosto e floriam anémonas aladas.
Os teus cílios viviam em mim e brotavam cores vivas.
A tua pele é tão bonita e eu apenas senti o teu ombro nu
na face nua da minha mão.
Empurrei-te e não reagiste.
Como queria que viesses até mim.
Lembro-me de ti tão hoje como naquele dia.
E como é difícil esperar eternidades para te rever.

O teu sorriso leve ecoa em mim frutos silvestres.
Sabores delicados, framboesas da minha infância.
O sabor da tua boca é apenas uma lembrança
de outros tempos, outras memórias, outros sabores
perdidos em mim.

O teu calor presente-se na água de fogo.
Quanto tudo arde, surges tu de entre as chamas.
Ardes mais que o próprio fogo, dentro de mim.

O teu eco não é mais que um pressentimento,
uma sombra, um rasto, uma presença subtil,
que me faz duvidar da minha própria existência.
Que sou eu afinal e quem é este ser que me ensina
o que é estar vivo e me faz refletir sobre o significado
da existência?

*




O caçador e a presa


Diana lançou sua lança sobre mim.
Sossobrei um pouco, e deixei-me cair
Ofegante, cheirei o chão e ele me disse
Inspira e relaxa, pois o caçador é a presa,
E a presa o caçador.
Fingi que me debatia com a morte,
e ela aproximou-se confiante.
Entre a vida e a morte há apenas uns instantes,
que se elevam nos momentos importantes.

Quando Diana sorridente, certa da sua conquista
Se aproxima para reclamar seu troféu,
Eis que a presa desatina e a agarra com vontade
Sua caçadora implacável.

E se debatem enfim os dois universos,
Céu e lua, vida e morte, caçador e presa.
O dualismo em si, separado, procurando
seu sentido na escuridão da noite.

E de repente entendem
Que para ser mais, não podem ser mais dois,
Mas sim um. E no anoitecer do dia,
caçador e presa se unem
e transformam o mundo para sempre.


7.8.14

Escrita aleatória I

Escrever é uma arte sem fim. Serafim voltou dos impropérios da noite. Enroscou-se no norte. O forte da primavera será sempre denso como pedra. O mar voltou como lhe deu à sorte. Abraça-me como se não houvesse amanhã. Estarás então presa ao teu interior? Como se denomina amor? Faz um sinal com teu polegar direito e saboreia o deserto que contempla o teu riso. Como voltar ao início da saudade? Os raios despontam na manhã e nada dizem, iluminam e aquecem e renovam a tua pele de mágua. Os rastos perdidos do antigamente despontam novamente na tua pele de cobra. Perdida e encontrada. Vazia mas recuperada. Valiosa e temerosa. Apenas é o que é, um caminho entre muitos, uma rosa no deserto, uma insgnificância decerto, na infinidade do fim.
Rastos de ouro inflamam este céu de prata.
Não há nada que nos diga o que há além.
Apenas a dúvida ultrapassa o preconceito
e estalam perto, uivando, ventos alados.

A luz do outro lado é mais incerta
Que a candeia perdida dos teus braços
Mas insisto em navegar os mares abertos
Do que esperar esperando os naufragados.

As tágides eternas que esperando
São imagem do que era navegado
Rumam incertas para lá da tapobrana,
Rumam no escuro para além do alcançado.

As runas que se enlaçam nos teus seios
Traduzem meus anseios em teus braços
Falam de antigas glórias, velhos impérios

E que resta agora dos anseios
Tão antigamente propalados

Pó e névoa e impropérios
Melancolia, febre e climatérios.
Velhos impérios naufragados.

8.6.14

A brisa suspira entre os dedos da memória.
Vai soprando lentamente, por vezes com mais ímpeto,
o que resta do resto da história.

A luz que tarda em vir. A ausência sempre sentida.
Está presente num outro porvir. Está presente e pressentida.

A luz que se apaga, e o presente se dilui.
Na escuridão perene a fábula fica presente.
Dentro do chão de repente surgem duas anémonas,
e o submerso surge finalmente, dentro do mar que se sente
fazerem parte delas.

E o mar que se esconde debaixo do planisfério,
Não surge no horizonte, não surge no teu mistério.
Apenas se mantém lá, onde ninguém alcança,
A tua essência infinda, no simples passo de uma dança.

*

14.12.13

One more time. Diz o som.
O som que se traduz em ti.
Estás nas margens desta aurora,
respiras a foz de um rio.
e sabes a melancia fresca.

A infância que percorre teus cabelos
Não dizem nada de ti
É apenas a ânsia de mar
Que chega à foz e se desfaz
Em broa e em solstício
De inverno.

Esta neve sem neve
que traz apenas cinzento
e se transforma num jumento
multicolor, multiforma, multimédia.
Meios sobre meios sobre melancias,
tragam o fundo da alma e
as lágrimas cristalizam a glória
de um buraco sem fundo,
que teimamos alcançar.



24.11.13

Um espaço vazio. Um pedaço de nada.
Quando me pedem um verso
Fico mudo. E ledo. E atraso tudo.
Não é por mal. Simplesmente não dá.
E agora? Que faço com este espaço?

Talvez um compaso. Um compasso sem tino.
Semsetid. Sem abraço.
Um enlace sem fisg. Um abraço sem braço
Uma eterniddade vazia.
Un laço sen enlace.

23.11.13

Larvas incandescentes calcorreiam o meu cabelo de cetim. (isto começa bem)
Que querem elas de mim? (não faço a mínima)
Aproximam-se baixinho e dizem para o universo das ideias:
Está na hora
de partir!
E de voar
pelo Universo fora.
Vais estar sozinho,
mas não tenhas medo,
que chegará a hora
em que encontrarás
o amor
dentro de ti.

*
Recebe-me agora neste momento de vazio.
Talvez não haja mais nada para dizer,
Apenas resta desaparecer de mansinho,
Até ser nada.

O nosso amor é quase nada,
quase transparente, deixa passar a luz lentamente.
e desfaz-se no ar.

Não resta mais nada. Apenas vazio e uma angústia
que custa a passar.
Todo o tempo é chumbo,
tudo se arrasta sem se mexer.
momento de paragem sem o saber.
O tempo deixa de existir e ficamos estáticos.
Para sempre presos no momento da partida.
As linhas do horizonte em suspenso,
O sol que brilha para sempre
E nunca mais se põe.

Aparecem crisálidas de mãos em minha face
Quadrúpedes místérios de leite condensado,
falam-me de tempos imaginários,
templos multicolores,
selvas perdidas na imensidão de um olhar
realidades quadrupedes de um chicote a estalar.

*


2.11.13

Dançámos. A tua saia rodada roda,
Preta no branco da tua pele.
Rodas e rodo também, por dentro.
Primeiro aqui, depois a ti,
Depois em mim, agora por fora.
Rodamos um no outro.

Sorris. Fazes-me sorrir por dentro,
agora que a tristeza vem,
e leva o teu sorriso para longe.

Olho-te.
És mistério e pranto nos meus olhos.
A tua essência inacessível,
O teu sorriso aconchegante,
e o silêncio que vem depois.

Danço contigo e sinto um êxtase.
Uma brincadeira de crianças no cio.
Uma alegria indizível, uma alegria.
Tão fugaz e tão autêntica,
que se torna triste, irrepetível, acabada.
Como as estátuas do antes,
um parthenon em pedaços,
fragmentos e traços,
de um outro existir.

Depois o silêncio vem,
e tudo termina. Um último sorriso.
Um adeus a dizer, a ficar,
no centro da sala,
onde tudo acontece,
e o barqueiro amanhece
e faz crepitar
os primeiros rebentos
da Primavera.

*










15.6.13

as coisas descendentes são um pouco viscosas

Rebolas na areia sem sorrir
Estás séria de morte
O teu porvir é hoje
Deixado à sua sorte.

Vais e vens, és incessante
No teu atarefar constante
Pétalas de rosas sorriem
E a vida desabrocha

És ar, vapor, movimento
Que me tragas num momento
De pura inspiração

Não tardas és lamento
Naquele breve movimento
De sair de mim em ti.

*

15.5.13

És quase parisiense. Desterrada aqui.
Metade da tua vida, cá e lá. Partida em dois, ao meio.
O teu sotaque faz-me lembrar rosas comestíveis, das vermelhas.
Contagias-me com essa alegria, essa energia, essa inocência
de viver tudo pela primeira vez, como se fosse a primeira vez.

Apertas-me contra ti, olhas para mim como se nada fosse,
como se tudo fosse uma brincadeira e fossemos crianças,
a brincar na areia.

Apertas-me contra ti e eu a ti. Estás tão perto, sinto os teus
peitos afagarem-me a alma, os teus cabelos loiros, o teu rosto
a pousar no meu ombro e eu respiro contigo dentro de mim.
Estamos tão perto. E tu riste, mas não entras em mim
como eu entro em ti. Deixas-te estar mais longe.
Onde estás. Noite embora a noite me afaga
Afaga ambos, vais embora, também vou,
mas só depois.

10.5.13

Estavas de preto. Esperavas por mim.
Um encanto, um espanto que me levou,
me tragou, devorou inteiro. Ali,
naquele momento invisível que quase parou
o tempo.

Arrastaste-me com o teu olhar para outro instante,
Cedeste as frestas e o luar caiu.
Nos teus olhos as trevas caem e o chão sorri,
e os minotauros escaldam com o amanhecer.

Não esperava por ti. Apareceste apenas
num recanto do meu olhar e disseste,
estou aqui. Aproximei-me e não te vi,
desapareceste da terra e do universo,
e fiquei eu assim. aqui. espantado,
pois pensei que não existirias mais,
foste apenas ar e movimento e febre.

Uma paixão que nunca existiu.
Que passou sem nunca permanecer, apenas
existiu sem nunca estar. apenas era
e eu nunca a vi.

Sei agora que existes, estás aqui.
Embora estejas longe e eu sei que aí permaneces.
Inalcancável, inatingível, és apenas de ar e de estrutura
de estátua que percorre os séculos.
Dei-te um beijo e nada mais, nos teus imensos cabelos.
E fiquei estátua.

*

31.3.13

Stufjan por onde andas? 

Porque me entrego a ti? Porque não falas dela? 

O meu mundo esfarela-se em cada acorde que dás. A tua voz leva-me para longe. Estou perdido. Uma vez mais, aqui. 

Para onde ir? O que levar? O que guardar? 

Acho que vou levar apenas o meu amor. Vou nu. Ninguém vê.

13.4.12

desassossego

Continuo sem saber o que escrever.
Exercício fútil. Desassossego gasoso.
O sendeiro luminoso fundiu-se,
apagou-se no sangue das armas
e das ideias. Não transpira mais
vermelho.

Os tempos idos dos amanhãs que cantam
fazem-me lembrar outras velhas esperanças,
quando tudo sabia a novo e tudo era possível.

Lembro-me do entusiasmo e do sorriso,
que entretanto se apagou.
Sobram apenas nostalgias de um tempo
que nunca aconteceu.
Sobram apenas lembranças que não existem.

O momento de ouro é agora.
Agora ou nunca dizem. Mas se o agora
é igual ao nunca, nunca será agora
que os amanhãs cantarão.
O amanhã é amanhã é amanhã.
Uma fuga dourada, uma projecção.
Um outro lugar, outra nação.
Uma vontade que se afasta da minha,
uma vontade.

Escravidão é escravidão.
Chegará a hora de embarcar.
De fugir deste lugar, de sair, desencontrar,
correr, sobressaltar. Parar um pouco e respirar.

Parar um pouco. De me encontrar.


inquietação

Estou inquieto. E não sei o que escrever.
Não sei o que dizer, o que falar.
Bla bla para ti também.
Cortaram-me a língua e agora gemo.
Sou um bezerro de ouro e não me mexo.
Apenas zurro. Afinal sou um burro,
nem me dei conta da transformação.
Em ouro, em pó, nada sobre nada.
A transpiração apenas trai o lugar onde nasci.
A primeira pedra, ao alcance do braço,
um abraço no vazio. Um abraço,
que tarda em chegar.

------

Espero em vão, num vão de escada.
Vão e vêm os pescadores,
e a sereia que desta vez foi pescada.
Sobram escamas, sobram lágrimas,
salgadas do teu mar.
Não sabem a nada, sabem a vazio.
São toupeiras que procuram
um significado no significado,
no muro de cimento, sangue fresco,
um dia verás o outro lado
mesmo sendo cego.

----------------------

O estreito de ormuz
parece cada vez mais estreito,
fecha-se, relega-se para terceiro plano
e não deixa ninguém passar.



12.1.12

o outro lado

É em ti que penso nestes dias de fogo e fúria
A alma translada-se como um furacão.
Tudo se remexe e se revolve
Nada fica como estava.

O precipício está tão próximo
Que quase me sinto a cair
Apesar de lhe ter virado as costas
E te ter visto a sorrir.

Os dias que virão são de ouro,
E nada mais os abomina
É apenas de ar e de espuma
a espessa neblina.

Dentro de um outro porvir
Através de um outro passar
Atravessamos o medo e o mar
Atravessamos o mar e o mundo
Atravessamo-nos um ao outro
Para finalmente chegar
Ao outro lado.

*


11.12.11

o rio

Estamos à beira de um rio. Está escuro. Vemos as estrelas que brilham no alto do céu.
Não nos reflectimos nas águas, pois são outros os reflexos, os tempos, as vontades.
Um pouco mais abaixo o rio muda, fica incerto, inconstante, tempestuoso.
Depois separa-se, e transforma-se em dois quando antes era apenas um.
No entanto ele, o rio, continua a fluir e continua a ser ele próprio só que não sabe que o é.
Pensa que é dois. Pensa que está separado. Pensa que se afastou do que era.
Pressente então que algo está errado e procura o erro.
Procura por todo o lado, em riachos, infiltrações na terra, evaporações para o céu.
Expande-se e procura por todo o mundo, todo o céu, todo o universo.
E um dia finalmente entende e olha para dentro.
E encontra o que procurava.
Mais abaixo o rio volta a ser um só. Como sempre foi.

*

21.8.11

para ti

Queria escrever algo para ti, mas tenho medo de não estar à altura.

Chegaste de repente, sem te esperar. Vieste e afirmaste a tua luz.
Tudo o resto escureceu à tua volta, e desapareceu por uns instantes.
A luz, a lua, a bonança dourada de todos os momentos,
percorreram por um instante a tua pele.
Estava frio. O lago prateado ondulante,
cantava baixinho para nós.

Tudo o que resta é o caminho d'ouro,
e os liames apressados entre vós.
Apenas a escolha é ingrata e algo insana,
mas necessária.
Tudo o resto são insignificâncias, pequenas coisas, pormenores.

----

As ruínas em fogo de outros tempos
Abrandavam a sua vinda entre nós
Estavam apenas ausentes uns momentos
Para depois ressurgirem transformadas
Do outro lado em flor, adormecidas,
quase acordadas,
lembrando o renascer de outro porvir,
que ecoa nas águas sublimadas,
e entretanto esquecidas, maltratadas.

Quando o ácer vem e a glória cresce
por entre as ruínas já passadas,
nasce o homem e um outro acontecer
espera pelas noites assombradas.

---

Quando te apressas pela amurada fora
E tudo o que cresce em ti são sementes de ouro,
Trazes o teu coração em fogo,
e as crisálidas em ti ondulam esperança.
Tudo o que resta são auroras de bonança.
E todo o amor que tens para dar.

*


20.7.11

tu e eu, A. e V.

Dançamos. (Isto já chateia, é sempre a mesma coisa! :) )

Dançamos e dançamos e dançamos. Sobretudo mazurkas, algumas scotishes.

Abraçaste-te a mim e continuaste a dançar. Tão perto, tão dentro de mim. Voltaste a abraçar-me. Disseste que esta dança te fez tão bem. Olhamos um para o outro mesmo quando estamos a dançar com outros pares.

Cheguei perto de ti. Levantaste-te e olhaste para dentro e eu para dentro de ti, falámos sobre muitas coisas. Dançamos mais uma vez.

Quase no fim, falei contigo e foi tudo tão fácil e tão fluido e tão natural.

Convidei-te para sair e disseste-me que não o podia fazer sem saber o meu nome. Apressado, atrapalhado, perguntei como te chamavas. Tu perguntaste o meu nome. Eu disse o meu nome e tu disseste o teu.

E disseste: agora podes convidar-me para sair. E eu disse, queres sair comigo? E tu disseste, sim e sorriste, como fazes sempre quando olho para ti.

Estou tão feliz! Tão feliz que nem consigo descrever o meu estado de felicidade :)

E eu a pensar que nunca iria escrever aqui coisas tão boas como esta.

Claro, foi muito mais bonito que o que escrevo aqui mas enfim, fica esta impressão do momento. Talvez mais tarde escreva melhor.

Do baile mais fantástico de sempre...do sempre deste momento...

Se tudo correr bem, talvez não volte a escrever aqui. Deixo para sempre as coisas bonitas e tristes. Mas não se preocupem, porque é sinal que estou muito feliz :)

Ou talvez...talvez...passe a escrever coisas bonitas e alegres em vez de coisas bonitas e tristes...

Vamos ver. Tenho que ir agora.

P.S. - Ela mandou-me uma mensagem já! E eu a pensar que só ia mandar na sexta... :D Ai...o meu coração vai explodir! :D

Até breve!

*

17.7.11

miss Bowie

Ainda não escrevi nada para ti. Talvez ainda não tivesse tido o tempo para assentar tudo o que me deste.

Estás longe, tão longe. Estás aqui, dentro, tão dentro. Estás longe. Só aqui estás em memória, sonho, pedaços de nuvem. Onde estás mesmo?

Eu sei porque não escrevo. Porque não há nada para escrever, é tudo demasiado real, demasiado intenso, demasiado tudo. Lembro-me apenas do cais, das coincidências, das mãos nos teus ombros, de te inclinares para trás e de te abraçar. De todos os pequenos momentos, insignificantes, guardados no tempo, imutáveis, momentos de luz e de glória, de eternidade e de infinito, de pura felicidade.

Por momentos deixei de saber quem sou, não me sentia mais. Sentia-me algo mais, sentia-me nós. Assim. A nossa energia, o nosso caminho, a nossa vida. Tudo fazia sentido.

Foi pena que tudo fizesse sentido apenas para mim. Para ti, um beijo foi só simplesmente um beijo, um abraço, um abraço. As linhas que fluiam terminavam todas ali. No cais, nas águas, no relento. Não havia abrigo ali. Estávamos molhados, mas tu tinhas uma toalha para te secar. Faltavam raios de sol.

Nunca me vou esquecer de ti Selah. Abriste-me os olhos. Nunca mais os vou fechar. Apesar de querer tudo, agradeço o que me deste, e o que me deste é tão raro, precioso, único. Nunca o vou esquecer. Estarás sempre aqui. Por dentro estás do outro lado, deste lado, em mim.

Talvez um dia vá ao outro lado. O teu lado, em ti.

*

tu

Dançámos. Um momento inesperado. Não esperava encontrar-te assim. Não sabia de nada, esperava apenas nada.

Sorriste ao longe, sorri também e ficamos no olhar um do outro.

Estavas acompanhada. Num último momento estavas perto de mim quando tudo começou e não foi preciso dizer nada. Caiste nos meus braços e dançámos.

Porque és tão perto de mim? Apertas-me forte e sinto-te dentro de mim. Estás aqui, do outro lado. Mudas de posição, quase que te beijo a testa, mas esperei por um outro momento. Fechas os olhos e estás aqui novamente. Olhei para baixo, para ti, mas estavas em transe. Estavas do outro lado, dentro de mim. Continuas tão perto e a música continua, rodamos um pouco mais, enroscas-te em mim e dizes, sem eu ouvir, que me queres amar.

A música chegou ao fim e foste embora. Ficou tudo suspenso no ar. Ficou tudo em potência.

Até breve menina. Serão eternidades? Esperemos que não.

*

16.6.11

selah

É isso. Tempo de partir uma vez mais. Tempo de dizer adeus sem querer dizer adeus. Tempo de despedidas indesejadas.

Nunca te irei esquecer.

Adeus.

12.5.11

o regresso

O regresso está aí. Ao virar da esquina. Mais uns dias e vou-me, regresso ao ponto de partida, parto para regressar.

Não sei o que dizer. Não há retrospectiva a fazer. É cedo demais para sínteses. Ou para deglutições apressadas.

Correu bem, mas estou insatisfeito. Não sei se cada vez mais, se mais do mesmo. Foi uma experiência importante de qualquer forma.

Fazes-me falta e esse é o problema. A tua possibilidade viaja longe, a mais de 10.000 km de distância. Demoras mais de 10 horas a cá chegar. A lá chegar. Estás longe. Ainda mais longe te encontrei, numa fronteira esquecida nos confins do mundo, a mais de 5000 m de altitude.

Tenho saudades tuas. És uma desconhecida que eu conheço tão bem e que quero rever ontem.

Que impaciência. Não sirvo para esperar. Dói-me o coração quando penso em ti. É difícil ligar-me com este mar entre nós. Nem sei se há mar. Não sei se há nós. Há apenas brumas e possibilidades e esperança.

Este sem sentido mata-me. Detesto que sejas tão importante. Tornas tudo demasiado intenso, demasiado perto, demasiado...doloroso. A tua batina cai e eu estremeço. Não sirvo para padre. As cerejas são demasiado apetitosas para o inverno. A neve vem e cobre tudo de branco. As cerejas são boas geladas, no meio da neve.

Quando vens? Quando voltas ao lugar que nunca estiveste? Quando te verei? Qual é o prazo de validade para tudo isto?

Dança-se muito, demasiado. Não há retorno. A dança cansa-me, torna-se aborrecido. Por vezes quero desistir. Deixar tudo para trás e começar de novo. Regressar ao início. Voltar.

Voltar.

*

21.1.11

o outro lado espera-te

Enviei a carta. Espero pela resposta. Espero que saiba a mirtilos. Selvagens.

Terei de os colher, no alto das montanhas. Onde tu habitas.

Tenho saudades tuas.

*

20.1.11

o contacto perdido

Dançámos. Já tinhamos dançado antes assim. Tão juntos. Ela diz-me em francês, algo como: gosto mesmo muito de dançar contigo. Foi bonito. Fechei os olhos durante muito tempo. Ela ainda lá estava agarrada a mim. Continua a ser bonito. Muito. A música contínua, nós também, sempre tão juntos. A música acaba. Alguém se intromete e ela parte. Nesse momento guardei-te no meu coração.

Algum tempo passa. Aproximo-me. Abraço-a. Ela abraça-me também. Quase que a beijo. Quase que ela me beija. Ela olha-me atentamente. Eu olho para dentro dela. Sorrimos. Esperamos pela próxima dança e não é o que esperávamos. Dançamos na mesma, improvisamos. Pego-lhe com força e dançamos agarrados um ao outro. Aperto-a. Ela aperta-me. Continuamos mesmo que não seja a melhor posição para dançar. Não conseguimos dançar de outra maneira. Parece um momento eterno e ao mesmo tempo extremamente fugaz. O momento termina e ela foge. Diz: vou dizer olá, e parte.

Volto a vê-la na hora de partida. Vou ter com ela e falo-lhe da casa. Da casa dela. Ela vai partir, fazer woofing. Falo-lhe do woofing, e de tudo isso. Ela vai viver para longe. Diz que vai construir casas, falamos das casas a construir. Falo do Brasil, da bioconstrução. Temos coisas em comum, conversa. Tivemos que partir.

No derradeiro momento, lá fora. Ela aproxima-se outra vez de mim. Sorrimos. Abraçamo-nos com força e damos dois beijos quando queriamos dar um só. Dizemos adeus, até um próximo baile quando queriamos dizer: vamo-nos encontrar e fazer amor.

Não sei porque não lhe pedi o contacto. Ela também não mo pediu. Eu funciono ao retardador, só entendo quando é tarde. Agora estou chateado.

Mas foi bonito. Foi tão bonito! E quem sabe se não nos encontramos outra vez. E aí acho q não vou deixar que seja assim novamente. Sempre podia ir lá ter com ela, onde quer que ela vá, um fim de semana, o que seja!

E assim ficou o meu contacto perdido. Darn. Era demasiado bom. Tão bom. Fica em segredo nos sonhos e aqui.

O mais engraçado é que foi na mesma casa que conheci a amiga dela que também partiu. E com ela também aconteceu algo semelhante. Curioso. As mulheres partem, eu fico. Um dia uma delas também há-de ficar e partir comigo. Que isto de partir e chegar não tem fim, permanecer é uma miragem bem ao longe, no horizonte.

*

16.1.11

...mas o pior de tudo é esperar por alguém que nunca vai aparecer.

até podemos dar o que não temos, mas nunca poderemos dar o que não temos a quem não precisa.

apetece-me tarte de mirtilo. estou farto de iogurte. tanto faz q seja de morango ou framboesa.

O amor é dar aquilo que não se tem a alguém que não precisa dele

Hoje vi o filme que guardei para ti. Era mais que tempo de completar a saga Wong-Kar Wai. Nunca comi tarte de mirtilo, apenas iogurte. Será bom?

Tem piada como o amor pode ser assim. Partem-nos o coração e não conseguimos pensar noutra coisa. Encontramos a pessoa certa e partimos à procura dela.

A diferença é que no filme encontramo-la quando chegamos, na vida já ela partiu há muito tempo. Ninguém espera por ninguém, porque razão haveria de esperar por ti?

"How can you say goodbye to someone you can't imagine living without?"
"I didn't say goodbye"
"I didn't say anything"
"I just walked away"
"At the end of that night I decided to take the longest way across the street"

Na minha versão: How can you say goodbye to someone that you never knew but you're madly in love with?". Claro que não é assim, mas faz de conta, é mais bonito...e mais doentio.

"It took me nearly a year to get here"
"It wasn't so hard to cross that street after all"
"It all depends in who is waiting for you on the other side"

Sim, é tudo muito bonito. What if there's no one waiting for you on the other side? Pois é, fica tudo estragado, de que adianta fazer tartes de mirtilo para quem nunca chega? E no entanto, no entanto, continuamos a fazê-las............"It's just how it goes.......the story all have been told before..." ou melhor dito: O outro lado é mais bonito? Afinal sabe a framboesa ou a mirtilo? Se descobriste diz-me.

Adeus menina. Felicidades e bom ano.

6.1.11

o regresso.

Voltei.

Não sei o que escrever. Custa-me voltar. A sensação de nunca te encontrar queima-me a pele. A escrita já não é o que era, apodreceu, tornou-se pálida, encarquilhou com o tempo, despega-se de mim, gasta, seca, fragmentada.

O que me custa mais é não estares aqui. Mas isso já tu sabes. Sempre soubeste. Eu tento sempre convencer-me do contrário. De que não existes. De que não és nada para mim. Fazes-me falta, não te encontro em ninguém, percorro ilusões, umas atrás das outras, e farto-me.

Hoje estou cansado de te procurar. Quero descansar de ti. Estamos tão longe um do outro. Estaremos? Eu sei que amanhã continuarei a minha procura, mas hoje não. Sinto-me demasiado só para procurar, preciso de me distrair, de dispersar, recomeçar de novo, e amanhã é dia para voltar. Hoje não. Hoje estamos no limbo, na dúvida, na introspecção de todos os momentos não vividos. Restam apenas lágrimas de crocodilo de barriga cheia. O ventre está cheio de coisinhas inúteis, pré-fabricadas, que nos fazem consumir pelo natal. Não sei mais o que digo. Nunca estou satisfeito. Por vezes até fico insatisfeito antes de o estar. Antes de te conhecer, já sei que me vou separar de ti. Porquê? Talvez esteja apenas confuso, não sei o que digo. Tenho sempre uma razão para dizer não, mas nunca digo que não antes do sim, e isso confunde-me, apesar de me libertar. Só entendo quando estou dentro de ti. E depois vou-me embora. Vou-me embora de ti, de mim, e continuo a procura. Já não sei bem de quê. Talvez de nuvens no ar que sugerem formas e nomes e lugares e que se desvanecem num momento.

Tenho saudades disto. Um dia hei-de continuar por aqui. Quem sabe se amanhã?

*

31.10.10

o reencontro

reencontro por fim este local,
com o qual deixei há muito de falar,
ainda aqui estás apesar do abandono
Não mudaste nada, continuas na mesma.

Eu, por meu lado, continuo longe de ti.
Sorris para mim, eu nada. Escrevo apenas quando não estás.
Será bom sinal não escrever? Talvez.
Aqui a vida passa diferente. É bom fazer tudo sozinho. É bom viver sozinho.
Conhecer tanta gente diferente, falar uma língua que não se conhece.
Pelo menos tentar.

Tenho saudades tuas. Para mim serás sempre aquela que está somehere, out there.
Am I going to find you? No fim do ano, quem sabe? ;)

Até lá...

*

29.5.10

o último momento

Eu. Hoje não é bom dia para escrever coisas direitas, apenas tortas.

Vim do curvo. Bebi demais. Estou contigo. Aqui.

Estou de partida, todos os carris partem para algum lado menos para onde quero. Onde te procuro.

Pergunto onde estás e dizem-me que não sabem. Procuro. Onde?

Hoje foi warpaint, amanhã será...

Oh wonderful one, why are you like that? dizem elas as quatro.

Não apareceste. Estavas de esguelha. É giro escrever assim.

Anémonas. Disse a alguém que tive grande paixão amorosa há uns 13 anos. Foi libertador. Até acordar pelo menos. Até me lembrar do que disse. Talvez não seja até são mau. É menos um vazio para lidar. Menos um escolho.

Vamos viajar. Que bom. Não volto para trás, nunca mais.

Adeus.

*

26.5.10

a tua casa

gostei. eu sei que vens aqui. fico inibido, corado.

estou triste, sabes. uma pequena lágrima escorre-me pela face. nada de mais. não é tragédia nenhuma.

apenas uma tristeza imensa de não te ter nos meus braços.

do incrível aperto no coração de não poder exprimir o que sinto por ti.

da distância que nos separa agora que vou embora, embora torne tudo mais fácil, mais simples.

eu não estou preso a ti. mas hoje, agora, és o vazio que mora aqui dentro. fazes-me falta.

foi tão bom hoje estar contigo. todos os momentos. todas as pequenas coisas. os pormenores mais insignificantes. os rasgos negros nas paredes brancas, as migalhas de pão espalhadas na toalha (os teus dedos a apanharem as migalhas), as texturas subtis de cada grão de arroz. o sabor forte a aipo na sopa. o excesso de sal que não existia, os padrões dos azulejos antigos na casa de banho.

tu gigante através dos teus óculos de anão cegueta. :)

tu normal a existir em cada momento para mim eterno, inesquecível, marcante.

tu a sorrir e eu também. a fazer palhaçadas em ponto pequeno. a desesperar nos exames. a beleza singular de cada momento, de cada expressão, de cada sorriso.

Um dia gostava de me apaixonar assim por alguém. É tudo tão forte, tudo faz sentido, tudo vale a pena. Tudo é demasiado excessivo. Canso-me. Não tenho fôlego.


----


Não consigo escrever nada de jeito porque sei que vais ler. não o consigo fazer por palavras, apesar de estar tudo aqui dentro, esta inquietação, este ardor no peito, esta angústia indefinida.

bem...life goes on. é tarde. já estás a dormir. eu também deveria estar na cama. mas falta algo. o quê?

Agora vou embora, embora o sono não vá embora e tu permaneças aqui neste cantinho. Um pouco mais. Apenas um pouco mais.

Quero-te ver feliz. Quero-te ver tão feliz que não me importo de ser triste. Ser triste é uma parvoice mas faz parte. Por agora, por enquanto, no momento. Paciência, não falta assim tanto.

Até um dia.

*

14.5.10

dançámos tu e eu

Dançámos. Uma dança inagualável, inesquecível, arrebatadora. Apenas nós e a coisa em forma de assim. Assim. Foi assim, sem ser assim assim, foi tudo e a entrega foi total. Um momento extraordinaŕio que recordo e sempre recordarei no meu coração.

Obrigado por aquele momento. Se morresse ali mesmo, seria feliz. Os nossos corpos juntos, o momento de partilha total, a intimidade inteira, o roçar das cabeças e dos suores. Foi tão inesquecível que nem consegui escrever nada até agora.

Dançámos outra vez. E outra. Não conseguia deixar de te convidar. As mazurcas sucediam-se e nós também.

Aqui está tempestade, chove abaixo de zero e tudo o que me lembro és tu. O vento assobia e tudo treme. Eu tremo quando penso em ti. Naquele momento fomos tudo um para o outro, um só, sem medo do fim, numa eternidade indefinida. Numa felicidade difusa, sem foco nem sentido, apenas aquele momento em que tudo se dissolve e transpira vida.

Na terça disseste, não apareceste. Não. Estava de partida para longe. E aqui estou eu no retiro, pensando em ti, naquele momento. Talvez não se repita, mas não importa. Naquele instante fui feliz.

*

1.5.10

continuo sem aprender nada.

Por aqui ninguém aprende. Nada.
Apenas pesamos como chumbo, em nós mesmos.
Somos vários, muitos. Não sabemos onde estamos nem quem somos.
Apenas existimos e sofremos.

Não há razão dizem-nos, mas nem sabemos o que isso é, o sofrimento.
Um mau estar, um tumulto inexplicável em nós, um nó na garganta, um vazio.
Talvez lembrar o porquê seja demasiado doloroso, sabemos demasiadamente bem
porque sofremos. Mas não nos lembramos. Apenas sentimos na pele, o eriçar dos pelos,
a insignificância dos dias que virão, a insustentável tristeza do ser.

Apenas existimos por existir. Por preguiça, relutância de morrer, apatia.
Não se transforma o nada em alguma coisa. Apenas se respira, a custo.
Fala-nos de amor pediu a turba ao velho. E ele disse, não tenho nada a dizer, e foi-se embora.
Deixando marcado no chão, na memória do povo, o que restava da sua compaixão.

Há dias em que a tua falta é insuportável, os espelhos quebram, o coração pára. Há dias em que nunca te irei encontrar, não existes, és apenas o vento a pregar-me partidas de mau gosto.

Estou de partida e tudo parece perdido. Tudo o q está para trás foi uma perda de tempo, perda de ânimo, perda de alegria e de esperança. Pela frente há um vazio, roubado a cada passo de tempo que passa. As transições dão nisto. Dão diabetes, dores de barriga, vontade de foder. Uma incrível e opressora vontade de foder.

Ontem dançei contigo. Mas não tive coragem. Nunca tenho coragem. Estou fodido.

Isto hoje está bonito. Não sei se consigo ir hoje. Não tenho vontade. Estou mesmo muito triste. A tristeza derrama-se, um banho nela, mais chuveiro que imersão. Deixo apenas o tempo passar, escoar, um tempo que não tem sentido nenhum. Como é que me podes fazer perder todo o sentido. Como podes fazer reduzir a nada tudo o resto. Porque me fazes tanta falta e crias um vazio tão grande. Porque não consigo mudar as coisas ou mudar a mim próprio para as coisas mudarem. Porque já não sei o q fazer mais. Porque já não sei como não fazer mais.

As tuas pálpebras sabem a anémonas fora do prazo. Estás rígida e és feita de pedra. Não te movimentas muito, nem transpareces ardor, nem alegria. Apenas estás imóvel e intemporal. Não te estragam as sedas fúnebres, apenas permaneces. Os teus lençóis são como pedras afiadas do tempo das cavernas. Não tens flores na tua mesinha de cabeçeira, apenas restos de comida em putrefacção. A tua cisterna está vazia, dantes tinha petróleo, agora nem isso. Estás apenas pálida e dizes que estás morta. Mas eu não sei porque não respiras. O teu hálito acre dá-me vómitos. Não tentes seduzir-me porque não vais conseguir. Desiste, torna-te pedra de uma vez por todas. Quem quiser que escolha chafurdar na tua cama e afogar-se no teu sangue. Trazes-me memórias de metal, prateadas. Sinto-me doente e a minha cabeça dá-me enjoos. Estás aqui tão perto e nem te posso tocar. És apenas vísceras. Os teus filhos são abutres que se alimentam delas. Estás consciente e no entanto és pedra. E até as pedras choram, por vezes. Trazem-te memórias de outros tempos, em que vivias debaixo da terra. A tua memória é terra. Antes que a terra te traga até mim diz, o amor não existe.

*

29.4.10

Everybody's gotta learn sometimes

But not me.

Vou para o sítio mais romântico do mundo, mas vou sozinho. Não é encontro a dois, é mosteiro. O que não é de todo mau, mas talvez, talvez preferisse algo outro.

Não tenho tempo para isto. Não interessa. Aproveito todos os momentos ínfimos dos minutos que me restam antes da hibernação forçada. Sou urso sem ser boi. Acaba tudo por dar ao mesmo.

Ouvi-te na rádio e ficaste para sempre a ressoar-me nos tímpanos da memória. Aqui vais, aqui vens, não paras nem para respirar, o teu umbigo não se perde no meu. Apenas rondas, tens olhos azuis e não perdes tempo.

Uma amiga disse: rolhão mucoso e senti-me envolto em muco viscoso. Não passa ninguém, nem mesmo os espermatozóides. Antes que se viabilize algo de uma forma inviável, improvável, inconstante. Não perdes tempo. Mas não tens pressa porém. Os teus vales um dia hão-de ser neve. Daquela fofa, que não se transforma em gelo, por mais que seja pisada. Os teus ímpetos não são melosos, muito menos mucosos. Um dia vens a ti e ao mundo e já não falta assim tanto. E dirás:

Everybody's gotta learn sometimes.


*

13.3.10

Me and The Sheriff

- Oh, you want my job?

No, we don't want yourjob.
We just want a little protection.

- Protection?
- Yeah.

Protection? Certainly.

Assurance, security.

Well...

yeah, that too, i guess.

You want confidence.

A pledge... safety.

Guarantee... promises...
expectation... consideration...

sincerity... selflessness...
intimacy...

attraction... gentleness...
understanding...

and understanding without words.

Dependence without resentment.

Affection... to belong...

possession... loss.

Hey, sheriff, is everything
okay at home?

Why do women exist?



Simple Men - Hal Hartley

27.1.10

o regresso

He has cleaned the house...but mine is still dirty.
Não tanto assim, um pouco apenas.
Retorno à escrita, sinto-me logo mais aliviado.
Porque será? E ainda nem escrevi nada. Basta começar.
Espero por um recomeço. Sentado.
É tarde, tenho sono. Porque dormimos tanto?
Hoje faltei ao encontro. Mas não foi o teu encontro.
Era uma coisa chata. Ou melhor confusa, complicada.
Não sei como seria. Talvez quisesse outra coisa, não aquilo.

Não te consigo convidar, porque não me apetece.
Os exames fodem tudo. É uma merda.
E não adianta querer encostar a cabeça, pois acabamos por cair, não há nada ao nosso lado.
Foda-se, só espero que seja a última vez!

E o mais idiota é que fico à espera que a princesa me caia no colo nestas alturas! Felizmente isto passa... ;)

Oh, I hate hopeless romanticism....*sigh*, suspiros da tanga :(

*

25.12.09

o horizonte dos mármores incandescentes

O portal das palavras incandescentes renega o seu sentido áureo, quando se translada lentamente para o zénite, para o chão. As tuas marcas permanecem no mármore, a sangue, nada as lava senão as lágrimas que cairam da tua face cor de mel naquele dia, no último dia do nosso reencontro. Estávamos os dois na falésia a ver o mar, em silêncio. As ondas murmuravam entre si e encontravam-se de cada vez com mais vigor. Tudo marulhava. As gaivotas tinha ido para longe e tu para perto de mim. A maresia transformava o mar em névoa e arco-iris tamanho micro. Andámos para longe, voltávamos do mar, e o mármore caiu em ti como uma tumba egípcia. O atoleiro dos últimos faróis. A grinalda no ar do vento e as tuas marcas no chão de mármore. Desapareceste enfim entre os últimos murmúrios do mar revolto. Ele veio e retornou contigo, e nunca mais te trouxe. Regresso muitas vezes ao mármore e lembro-me de ti nas tuas marcas e no teu sangue. Nasce em mim um rubor incandescente, aqueco-me por dentro, solto uma lágrima de esperança. Que o mar te traga em boas mãos.

Dizem que as sereias não regressam nunca. Eu acredito que um dia voltarás.

*

21.12.09

a passagem

não sei o que escrever. sinto apenas inquietação, desassossego, gavetas dessarumadas. O som da chuva ecoa pela casa e desmonta os parafusos um a um, ainda não chorou novamente, não tarda muito. a agua escorre pelas veias das paredes e acumula-se num canto perto da janela. lentamente inunda tudo sem escorrer.

vejo as tuas fotos e lembro-me de tempos felizes. tu, o sol, e eu ali, apenas ali, apenas existindo nos teus braços.

as saudades matam-me. aos poucos. devagar. não nos entregam de uma vez à morte. só tu sabes fazer isso, é um previlégio só teu. não tardas muito voltarás e dir-me-ás o segredo da vida e da morte, da existência.

os nenúfares são violeta no inverno. não há paragem de autocarro dentro do autoclismo. tudo se revira entre dois êmbolos de esferovite. tudo se desobora e se desfaz. jazes no chão, és plástico em borbulhas. não te trairás pela vida. tornas-te apenas alado, abençoado, ascenderás aos céus e dirás: eu sei o segredo da vida.

As ruas estendem-se pelo chão. Não há sinais de embolos, apenas estrada intermitente, alcatrão suado, nuvens reflectidas nele como ambrósias. daquelas que tu gostavas, azuis e amarelas. não trazes nada no teu ventre senão cobre. és feita de duas ligas de metal e estanho fundido. não te tornarás lava incandescente. tudo o que resta é o caminho da estrada da rua do local que vai dar a outro local um pouco mais além há sempre outro mais caminho.

não tardam as libélulas de luz. vêem-nos buscar antes do solestício de inverno. a rapina é apenas água e o borbulhar das ondas não existe. vem-nos buscar antes da solidão. O rio é tão translúcido e os peixes voam. Não tarda o anoitecer. Fica frio. Vem para perto de mim. Não há ruas que não acabem em vielas, ou até em becos sem saída. E depois? depois és parede. de betão. feita de argamassa sintética e de resíduos tóxicos industriais. não tardas na tua epopeia industrial. fazes de conta que és um cavalo de cordel e avanças, sabendo que não te espera senão o impacto inevitável de dois corpos em colisão. atravessas a rua e ficas esperto. entendes o que está do outro lado. não te tornas salmão, nem mesmo salmonela, apenas ficas diferente.

Os raios ecoam memórias de um outro passado. O que existe apenas do outro lado. A viagem continua por entre as lavas e as etiquetas de supermercado. Não há nada que nos espere do outro lado. Haverá? Gritas e ouves o teu eco. Ruminas baixinho para ti, esta vida não existe. Há algo de estranho nas formas, nos ecos, nos amores. Tudo parece demasiado ilusório, demasiado real. Não há descontinuidades no relevo aparente das coisas. Apenas sentes a prisão e gritas para dentro. E dizes: a prisão é gelatinosa. És uma fábrica de fermento. Não cuidas das auroras que passam em cada momento e dizem: o sofrimento é uma flor inventada.

As rabecas ecoam pelo chão da estrada. Ouvem-se como se fosse motores de carros de alta cilindrada. Não ouvem, não temem, não cheiram, não formam pesadelos de algodão doce. Existem apenas ali, planas, desconjuntadas, numa harmonia desafinada. A tua flor de liz já não se vê, do teu ombro surgem agora auroras perfumadas. E elas dizem: o que era deixou de ser. não mais o é, transformou-se em algo outro. Não há transformação sem a passagem. Ao outro lado.

*

16.12.09

l'amour



:)

aquilo ontem foi complicado....! :P fugiste...mau. que faço eu com tal intensidade??? *sigh*

Vem aí a passagem de ano...dans coimbra, bien sur... ;) Até lá ...

*

13.12.09

aquele momento

Escreveste,


"The waiting drove me mad... You're finally here and I'm a mess. (...)

Everything has chains, absolutely nothing's changed"


Eu não percebo nada de Pearl Jam, mas não vejo correntes nenhumas.

Por outro lado, tenho o hábito de ver coisas onde elas não existem...para minha infelicidade.

Mas hoje não me sinto infeliz. Gosto de dar. De me dar. Não me arrependo de nada. :)

Há momentos tão bonitos que não podem ser falsos. E é tão bom sentirmos que fizemos o que devíamos.

Apesar das sombras, e dos medos, e das ilusões.

Obrigado por aquele momento tão especial. Não o esquecerei.

*

12.12.09

o lado menos bonito

não esperava sentir dor quando te vi.
estava cansado, frágil. queria estar só.
acabei por sair, por alguém que já amei
intensamente.
batatas. trocar batatas por laranjas.
nada de mais. coisas bonitas,
framboesas. das vermelhas. e figos. maduros.
quando te vi, soube a razão
de nunca mais termos falado.
e é uma boa razão.
por isso não esperava esta dor.
ainda não entendi sequer o que estava
escondido aqui dentro.
ela chegou atrasada. muito. eu frágil, cansado.
tu chegaste logo depois. ela deixa-me sozinho,
já não é a primeira vez. muito cansado. triste.

não mo apresentaste. coisa estranha.
e é tão bonito, não podia vir na melhor altura.
e isso faz-me sofrer.
talvez seja uma mistura das duas coisas.
nem sabia que tinha isto aqui guardado
dentro de mim. e não entendo, não há razão,
nenhuma razão. talvez me faças lembrar
como as coisas mudam à minha volta.
um ponto de referência, um momento
de retrospectiva. não será em vão.
prometo-te que não será em vão.
nada será em vão.
e é tudo tão rápido. e é tudo tão distante.
e é tudo tão grande, o absoluto.
porque quero tanto o absoluto?

As condeixas planam no largo horizonte
Nos matízes ébrios do romper da noite
Ébonas sombrias correm pela praia
Dentro da amurada sombras fortes espiam
O doce lagunar das ondas, o murmúrio frio das pedras.
O farol irrompe dos destinos prévios
E ronda, rumina, rasga os previlégios
A lua lá no alto augura um recomeço
Entre passos fortes, entre névoas frias,
Tudo será desterrado, tudo será revelado.
Tudo será livre.
O que é um tudo?
É um tubo obrigado a viver ao contrário.
A viver o lado menos bonito.

*

5.12.09

no que e q eu me vou meter...

help!!! :)

na segunda vou a uma aula de lindy-hop! pray for me!!! :D




o teu segundo filme

E ela disse: 'I miss you.'
E tudo ficou negro.

Vi hoje o teu segundo filme. E lembrei-me de ti outra vez. E senti a tua falta.
Pensei em tantos filmes tão parecidos que já vi a este.
E os sonhos.
Sonhei muitas vezes contigo antes. Antes de sermos dois outra vez, eramos um só.
Mas tu não te lembras. Eu não me lembro mas sinto.
Faltam sinapses. Associações furtuitas. Lembranças perdidas.
Ao menos desta vez,
nenhum de nós está do lado de fora.
Ao menos desta vez,
ninguém abandona ninguém.
Ficamos todos do mesmo lado.
'Eu quero que voce me faça o amor'
diz a tradução literal, automática, de uma linguagem mesclada.
Make me make love to you
continua, agora no original, ainda mesclado, quase todo inglês.
Impossível de traduzir. Qualquer tentativa seria alvo de processo judicial criminal sumário.
Tudo seria transcrito em palavras simples e a areia que nos separa deixaria de existir.

Faz-me mal estar a viver tudo o que não vivi contigo. Desta maneira a pele solta-se demasiado, antes do tempo, antes da própria vida. São escamas em demasia.

Por vezes imagino que me queiras dizer algo, ali, assim. Que me digas 'amo-te', mesmo que não tenhas coragem de o dizer. Talvez tenham inventado um vírus, que impeça a invenção do amor. e eu não te quero amarrar a uma cama, para depois nos denunciares depois do amor. Não fazes por mal, apenas estás infectada. E teríamos de fugir. Antes que a doença se espalhasse e alguém mais dissesse, 'eu inventei o amor'. Doença contagiosa irreversível a ser contida a todo o custo!
Antes que olhos se ergam, antes que desertos desabrochem, antes que esfinges se derrubem.

tudo está escrito dentro de ti. só tens de te lembrar do sonho. passar por todas as estações e parar na última paragem.

Depois diz-me como foi.

Um dia hei-de amar assim alguém. Gostava que fosses tu.

**

4.12.09

as mensagens aleatórias

não sei para que me mandas mensagens.
as minhas respostas nunca devem chegar ao seu destino.
sim, perdem-se no caminho. só pode.

chego ao fim de três semanas de clausura,
de trabalho ininterrupto sem sentido, nem explicação.
estou diferente. não sei se melhor.
talvez não.

em vez de sentir vazio, senti a tua falta.
os amanhãs que não existem
ainda latejam no meu peito.
e descrevem lentamente indiferenças
que se transformam em tristeza refinada
à medida que o tempo passa e tu não vens.

não sei o que queres de mim.
se me queres ver porque não me procuras?
envias-me mensagens que sabes que à partida
irão ficar sem resposta, pois mesmo que
as recebas, se é que as recebeste,
nunca terás coragem para as ler.

que queres de mim?
dizes. quando nos vemos?
e eu digo-te quanto tu quiseres.
num mergulho na praia de uma noite de inverno,
com chuva ou trovoada, tanto faz.
ou talvez na varanda do sexto andar.
aí em qualquer lado, num jardim
a chapinhar, fazemos de salta-poçinhas,
rei das libelinhas.
perdemo-nos no areal.
tu dizes. afinal quando nos vemos?
e eu digo-te,
aqui. agora. em toda a parte.

*

25.11.09

I believe in nothing

What I believe - J. G. Ballard

I believe in the power of the imagination to remake the world, to release the truth within us, to hold back the night, to transcend death, to charm motorways, to ingratiate ourselves with birds, to enlist the confidences of madmen.

I believe in my own obsessions, in the beauty of the car crash, in the peace of the submerged forest, in the excitements of the deserted holiday beach, in the elegance of automobile graveyards, in the mystery of multi-storey car parks, in the poetry of abandoned hotels.

I believe in the forgotten runways of Wake Island, pointing towards the Pacifics of our imaginations.

I believe in the mysterious beauty of Margaret Thatcher, in the arch of her nostrils and the sheen on her lower lip; in the melancholy of wounded Argentine conscripts; in the haunted smiles of filling station personnel; in my dream of Margaret Thatcher caressed by that young Argentine soldier in a forgotten motel watched by a tubercular filling station attendant.

I believe in the beauty of all women, in the treachery of their imaginations, so close to my heart; in the junction of their disenchanted bodies with the enchanted chromium rails of supermarket counters; in their warm tolerance of my perversions.

I believe in the death of tomorrow, in the exhaustion of time, in our search for a new time within the smiles of auto-route waitresses and the tired eyes of air-traffic controllers at out-of-season airports.

I believe in the genital organs of great men and women, in the body postures of Ronald Reagan, Margaret Thatcher and Princess Di, in the sweet odours emanating from their lips as they regard the cameras of the entire world.

I believe in madness, in the truth of the inexplicable, in the common sense of stones, in the lunacy of flowers, in the disease stored up for the human race by the Apollo astronauts.

I believe in nothing.

I believe in Max Ernst, Delvaux, Dali, Titian, Goya, Leonardo, Vermeer, Chirico, Magritte, Redon, Duerer, Tanguy, the Facteur Cheval, the Watts Towers, Boecklin, Francis Bacon, and all the invisible artists within the psychiatric institutions of the planet.

I believe in the impossibility of existence, in the humour of mountains, in the absurdity of electromagnetism, in the farce of geometry, in the cruelty of arithmetic, in the murderous intent of logic.

I believe in adolescent women, in their corruption by their own leg stances, in the purity of their dishevelled bodies, in the traces of their pudenda left in the bathrooms of shabby motels.

I believe in flight, in the beauty of the wing, and in the beauty of everything that has ever flown, in the stone thrown by a small child that carries with it the wisdom of statesmen and midwives.

I believe in the gentleness of the surgeon's knife, in the limitless geometry of the cinema screen, in the hidden universe within supermarkets, in the loneliness of the sun, in the garrulousness of planets, in the repetitiveness or ourselves, in the inexistence of the universe and the boredom of the atom.

I believe in the light cast by video-recorders in department store windows, in the messianic insights of the radiator grilles of showroom automobiles, in the elegance of the oil stains on the engine nacelles of 747s parked on airport tarmacs.

I believe in the non-existence of the past, in the death of the future, and the infinite possibilities of the present.

I believe in the derangement of the senses: in Rimbaud, William Burroughs, Huysmans, Genet, Celine, Swift, Defoe, Carroll, Coleridge, Kafka.

I believe in the designers of the Pyramids, the Empire State Building, the Berlin Fuehrerbunker, the Wake Island runways.

I believe in the body odours of Princess Di.

I believe in the next five minutes.

I believe in the history of my feet.

I believe in migraines, the boredom of afternoons, the fear of calendars, the treachery of clocks.

I believe in anxiety, psychosis and despair.

I believe in the perversions, in the infatuations with trees, princesses, prime ministers, derelict filling stations (more beautiful than the Taj Mahal), clouds and birds.

I believe in the death of the emotions and the triumph of the imagination.

I believe in Tokyo, Benidorm, La Grande Motte, Wake Island, Eniwetok, Dealey Plaza.

I believe in alcoholism, venereal disease, fever and exhaustion.

I believe in pain.

I believe in despair.

I believe in all children.

I believe in maps, diagrams, codes, chess-games, puzzles, airline timetables, airport indicator signs.

I believe all excuses.

I believe all reasons.

I believe all hallucinations.

I believe all anger.

I believe all mythologies, memories, lies, fantasies, evasions.

I believe in the mystery and melancholy of a hand, in the kindness of trees, in the wisdom of light.

23.11.09

o outro lado



Michael Nyman - 'The other side' - Gattaca OST

22.11.09

o teu filme

Vi o teu filme e chorei.
E em todos os momentos pensei em ti.
A dor demora a passar.
Há que recomeçar, voltar de novo, emergir da dor.
Há que amar intensamente, ser correspondido intensamente.
Totalmente, completamente, com tudo o que temos.
É assim que eu te amo, assim.
Sim, amo-te. E tenho tantas saudades tuas. E choro.
Percebi finalmente que estou apaixonado.
Não queria estar apaixonado. É uma dor demasiado grande,
ver as estrelas cadentes no escuro, deixar a noite passar,
e acordar na erva alta, e não te poder acordar, para onde foste?
Tenho medo de nunca mais te ver, mesmo que te veja ou fale contigo
Todos os dias.
Diz-me. Quanto tempo mais terei de esperar?
Eu espero eternidades. Mas diz-me.
Quantas eternidades?
Diz-me se vale a pena esperar. Mesmo que o tempo não exista.
Valendo a pena, o tempo é apenas ar.
Diz-me. Acreditas mais,
na primeira hipótese ou na segunda?
Eu acredito na segunda. E tu?
Eu sei a resposta. Mas quero que tu me digas.
Olhos nos olhos.
Abraça-me e diz-me.
Assim.
Eu espero por ti. Eternidades.
(Não muito longas, sim?)

---

A tua presença faz-me tão feliz. Nunca senti nada assim.
E sobretudo, nunca quis esperar.
Porquê esperar agora?
Porque sim. Porque é. Agora. Porque eu sei
que esperaria toda a minha vida por ti.

*

14.11.09

A cor do teu umbigo

A cor do teu umbigo é rosa ou roxo
Não há quaisquer imagens de outro ser
Assemelhados à paisagem doce
Da tua cor.

A cor do teu umbigo em mim
São pétalas a cair suavemente
Em cima do meu peito nu

Os ombros da tua lua
São êxtases adiados em mim
Apenas restam as lembranças
do que não foi.

Restam apenas fragmentos de ilusões
E uma outra fogueira rasga a minha pretensão
De saber porque existe o mundo.

A maré vem e o mar parte
Ao longe está a capitania
Flocos de neve florescem ao sol por entre as flores
e as ervas daninhas.

Tudo transparece, tudo se compõe de clorofila
Não há nenhuma névoa aqui no porto de onde
tudo chega, tudo parte, não há parte alguma assim.

Tudo é passageiro e impermanente,
tudo é passagem.

Até a rua em que vivemos passa
e nos deixa imóveis para todo o sempre.

O êxtase não é mais que uma semente inventada
Que nos transporta para a amurada
E nos faz cair. E nos sonhos dentro dos sonhos
somos apenas transportados
pela vertigem da queda
pelo zumbir dos corpos
pela antecipação do impacto
e ao acordar percebemos enfim
que não estamos assim tão vivos
como pensamos.

*

8.11.09

deambulações aleatórias

A cortina corre no seu rasto de ouro,
torna-se cinza em couro ou palha
quando se acendem os anéis da aurora
tudo o que resta são árias árabes
sentidos ondulantes, danças do ventre
sabores de cous cous exóticos.

O terraço de marraquexe enche-se de sombras
e o terreiro de vendedores de banha.
Tudo o que era árvore se apaga dentro do sol escaldante,
E as tamaras sabem a víboras encantadas.

Somos escaravelhos verdes e saboreamos a areia em fogo
Apertamos as patas entre os dentes e dizemos olá
uns aos outros.
Quando chega o inverno enterramo-nos na areia,
desaparecemos do mundo, transformamo-nos em
tranças de uma mulher índia, cavalgamos com ela
nas estepes infinitas do colorado durante a noite
dentro de um céu estrelado fazemos crepes
não queremos mais adormecer.

Andas triste. Eu não ando assim tão triste.
O que tenho para dar ainda aqui está,
guardado dentro de um saco de pão endurecido.
Esboroa-se com o tempo. Endurece.
Desfaz-se por ser tão rijo, rígido, duro.
Gostava de te dar tudo. Assim.
Talvez quando estiveres preparada para o aceitar, um dia.
Quando não for tarde demais e escaravelhos verdes voarem pelo céu estrelado.
Nos encontraremos enfim e seremos apenas um. Como anseio por esse dia.
Por vezes perco a esperança e caio. E logo a seguir me levanto. E caio novamente.
E é tudo tão rápido, ao mesmo tempo deixo de sentir na maior parte do tempo.
Por vezes não quero que apareça mais ninguém. E aí os continentes estalam e tudo estremece.
E a pele estala, e os pelos eriçam, e os chocolates são comidos. Os de limão. És limão?
Não, não és. Estás do outro lado mas ainda n te vejo lá, só aqui. Ainda estás aqui.
A rua contorce-se e eu com ela. Estamos enlameados nesta noite chuvosa. Não há planisférios em ferida neste lado do umbigo do mundo. A noite espera-te. O sono vem, e a lua é uma invenção dos amantes de queijo. Estamos a um passo um do outro e não avançamos por lado nenhum. Estamos cristalizados em âmbar, à espera que nos venham deslacrar. O acre é outro, sem dúvida e não sabe a limão, nem a doce de framboesa. Eu cá prefiro gelado. De morango. E tu?

Não sei se prefiro morango. Por vezes amarga e é demasiado grande, ou enjoativo. Café parece bem. Ou chocolate, ou menta. Queria estar na erva alta contigo. E os percevejos dizes? Eles não voam como nós. Estão presos à terra e às ervas de baixo. Ficam sem ar cá em cima, onde só nós chegamos.

As violas confundem-se com o por do sol. Reflectem os últimos raios de luz que ecoam no dia que se descai pelas últimas ondas do dia. O que resta enfim do último homem na terra é uma respiração em suspiro pressentindo o fim e o início de um tempo. E um retorno eterno. E um renascer amorfo e abstracto como escaravelho verde.

O sono vem novamente e não existem estores para conter o nascer do dia. Tudo o que existe dentro de um quarto de mofo é uma ilusão dourada. Cisnes verdes e azuis num lago de óleo de motor. Não há mais motores de lava. Tudo arde e não existe. A lava é apenas uma expressão de terra que voa e acumula e solidifica a sua existência. Vive a sua dinâmica e tudo o resto muda. Não há libélulas deste lado do mundo sem ti. Nem ópalas, nem estrugidos de morango, nem violetas azuis. O cansaço não demora, irei embora antes do nascimento da aurora. Mas antes, terei de regurgitar tudo o que sair de uma vez só. Da forma que for ou que sair. Em fluxo, jorro, jacto, turbilhão. Tudo turbilha em turbulência e eu sou um vórtice. Em claras de castelo me fundo em forma de núvem. As amarguras espalham-se pelo plano infinito e eu sou um cálice em forma de quadrado. A geometria é uma fonte inventade e jorra apenas sangue velho. Não sabe a nada, nem cheira a ferro, tudo oxida demasiado depressa.

Os raios de luz do novo dia ainda não despontam, o teu olhar triste e cansado denuncia um desgaste desumano. Não te consigo tocar. És demasiado doce. Fico suspenso num tempo distante e entro em parálise, tudo se move demasiado depressa e o estendal da roupa esvoaça pela tua janela. Sorris no meio dos panos e dizes, sabes, ainda é cedo. Mas não falta muito, paciência. Já aqui estás eu sei, preciso respirar. Viajar, andar pelos montes e montanhas e lençois. Não preciso de grilhetas e couros velhos. Prefiro andar nu pelas ruas e pelo deserto. Vem até mim e transforma-me em bola de fogo. Ou em coluna de água incandescente.

*

4.11.09

o regresso

Ainda resta no chão o sinal de um dia diferente
Como se uma outra pessoa aqui estivesse de passagem.
O teu perfume espera ainda pela extinção definitiva
ou pela aproximação de um vendaval, que tarda em surgir.

Surgem milhões de frases no infinito, inexprimíveis
num momento posterior silenciam. Apenas resta o silêncio
e pouco mais.

Hoje o cansaço não existe. Nas paredes escorrem melancolias
a custo e logo se desvanecem. Nos teus olhos vejo que nada
existe entre nós.

Não sinto nada. Existe apenas um vazio feito de nada.
Aqui, agora. Nada.

*

3.11.09

hope

Dás-me esperança e não é pouco,
hoje jantámos juntos e vimos juntos
mas um filme que não era para vermos.
Mas vimos. Num edredom dourado
em forma de tapete voador.
Voámos para longe mas não me deste a mão,
desta vez talvez tenha voado sozinho,
assim tivesse voado, se voei não sei.
E no entanto permaneces, persistes, prendes
a minha atenção no antes e no depois, continuo
a sonhar contigo, falas comigo mas não sei
o que queres.
Eu sei o que quero mas não quero forçar.
Estás demasiado perto. Tão perto que não
consigo respirar direito. Nem erguer a mão
para te tocar e quando o faço por uns momentos
esperava talvez que também o fizesses.
Mas continuas imóvel. Cansada, demasiado
passiva.
Eu espero, desta vez tenho paciência. Espero,
mesmo que me estatele no vazio, espero.
Não sei porque razão isto acontece.
Porque está a acontecer agora. Porque tenho
estes sonhos recorrentes que nunca tenho.
Porque estás aqui agora. Porque te amo assim tanto,
sem no entando ainda te amar. Porque, na verdade,
não te amo. Mas quero. É uma potência que se quer
transoformar em acção. Daí o não-amor que é amor
total, completo, tudo.

Desta vez não me importo de me estatelar no chão.
Não existe chão. Não existe cima nem baixo.
Provavelmente já me estatelei e nem
soube de nada. Afinal nem dói assim tanto.
Não dói? Não sei. Apenas tenho esperança.

*

26.10.09

desistir é feio

Eu não acredito no amor.
Todas as vezes que ele cai do céu
fura-me o chão. E dá muito trabalho
arranjar tudo de novo.

E chão é coisa que gosto de ter.
E cada vez que o chão acaba,
torna-se mais baixo.
E quanto mais baixo ele está,
mas estragos faz o amor quando cai.

Eu não acredito no amor.
Nem mesmo na ilusão do amor.
Provavelmente nunca acreditei.
Nem nunca vou acreditar.

O amor acontece, não se acredita nele.
Ou existe ou não existe, não é fantasia.
Estou farto de fantasias. Das pequenas ou
das grandes, tanto faz. Não sou esquisito
com os tamanhos.

Não sou esquisito e estou cansado.
E quanto mais cansado estou
mais rápido vem o amor
a estatelar-se
pelo chão.

*

21.10.09

it's yours

Gosto de conversar contigo,
e tudo é ainda tão virtual,
gostava que fosse aqui.

Na realidade ficamos nervosos,
apenas nos desprendemos quando estamos soltos,
imateriais. Somos projecções fugazes
das nossas próprias fantasias incomunicantes.

Por vezes temos esperança
que algum dia
aconteça, prefiro pensar,
que assim o pensamos. ambos.

A rua lá em baixo espreita
um outro final, um outro desfecho,
um outro despertar
das longas noites de inverno
sem dizer coisas más no teu nome,
como dizias, vais dizer coisas más em mim
pois não te deixo dormir.
Mas não. Não será assim.

Só tenho coisas boas a dizer de ti quando acordo,
especialmente quando sonho contigo, no abstracto.
Aí há rosas e não são de plástico, resta saber se
os espinhos serão comestíveis.

Pelo menos não há flores de plástico. Muito menos rosas
resistentes à passagem do tempo, para sempre no seu auge
artificial.

Dizes. Gostava de ser cozinheira. Nunca provei a tua massa
sem bechamel. Talvez estivesse longe quando a fizeste. Não
senti o seu cheiro.

Devemos continuar então pelos atalhos e pelos caminhos
e pelos trilhos e becos e ruas. em ti todos os lugares
são avenidas de ouro. E fazem as açucenas florescer.
No inverno.

*

15.10.09

the flying cup club

Este é para ti.



*

peach plum pear

Gosto deste vídeo. Assim.




*

le chanson d'amour

A noite vem e o perigo espanta
O amanhecer deitado, as raízes soltas,
Espalhas-te imensa pelo campo inteiro
E soletras as cantigas loucas

Por entre os plátanos e o vinho novo,
vens para mim e significas dor
Não há nada dentro deste canto
Que nos dê alento e alguma cor.

As folhas da melancolia
São apenas promessa
Do que não aconteceu.

Apenas nos resta correr
ou cantar. Ou renascer.
Ou cobrir o véu. Do amanhecer.

*

11.10.09

concerto tardio


O sono vem e com ele a esgrima.
As letras debatem-se com elas próprias,
gladiam-se. não se suportam mais porque os dedos
berram com elas e elas com elas.

A dri diz que não se podem comprar namoradas
nas lojas dos trezentos.
Porque teriam de estar embaladas. E ninguém pode
amar alguém embalado. Ou com data de validade.
Ou com orelhas de plástico.

gostava de sonhar contigo hoje. sonhei muitas vezes, antes.

tenho sono. gostei tanto do concerto. gostava de te dar os parabéns
como deve ser. mas não me deixas. andas estranha comigo. gostava
que fosse tudo como dantes.

*

a laranja caiu ao poço

E tu não a foste buscar.

As luzes emudecem, entras no palco, fazes do teu instrumento
uma história de amor.

De repente só estás tu. E sinto algo indescritível.
Um amor mais que amor. Um amor abstracto, inexistente, incorpóreo.
Algo extraordinário. Que se propaga por mim e me aquece.
E no entanto, ao mesmo tempo, nada significa, não tem substância.
Faltas tu.

És apenas parte de um passado que podia ter sido um presente bonito.

És de um futuro que nunca aconteceu no meu presente.

E fazes parte do inverno no meu coração.

E naquele momento mágico, amo-te de uma forma,
que não consigo sequer pensar pois
vêm-me logo lágrimas aos olhos
e não quero chorar.

Agora não. É demasiado cedo. Faz arder os olhos e perder água.

Gostava que fosses como dantes, mas é tarde
Os caminhos divergem e eu estou incandescente.

É apenas água luminosa. Abstracta matéria de pensamento.
Transparente. Reflecta a tua imagem em mim,
e faz-me um pardal de ilhéus voadores.

Não penses que te quero absorver. Não sou amiba. Não tenho jeito
para canibal.

Só que estás diferente, e eu sinto essa diferença em forma de
uma indiferença disfarçada.

Queria apenas que fosse tudo como dantes, espontânea, o que gosto mais em ti,
são as flores em teu regaço. Sempre tão alegres.

Cansa-me esperar. As surpresas sucedem-se e em nenhuma delas,
vens tu embrulhada. Nem mesmo quando o carteiro se esquece,
e entrega alguma encomenda na morada errada.

Nunca nos habituamos às coisas erradas. Habituar seria perecer,
apagarmo-nos do nosso próprio mapa mental, deixariamos de ter
identidade.

Mas identidade é algo que não queremos ter. Queremos união.
Reunião, religação.
ruminação sobre a ordem natural das coisas. sobre quem somos
e para onde viemos, para onde fomos. Onde estamos nós agora.

Comemos e bebemos e alguém canta canções brejeiras. Espero
por ti e vais embora. Vão ambas.

Adianta? Adiante. Andor!

*






4.10.09

sombras

Sinto sombras em mim.
Não estás cá para as mandar embora.
A tua ausência é uma sombra
cada vez maior.

Nasces em cada momento,
com bastante dor
mas sem lamento. Estás aqui.
Mas não existes, és apenas
uma leve brisa, uma luz que irrompe
num pequeno buraco de esferovite.
Um murmúrio no silêncio.

A angústia cresce e tu com ela renasces.
Paro por uns momentos e suspiro,
não me resta mais nada para fazer.
Esperar. E desesperar. E sonhar contigo.

Fazes-me tanta falta. E sinto que
sou capaz de tudo na vida,
menos disto. E sem isto,
não sou capaz de nada,
porque nada mais faz sentido.

E não te encontro, não sinto nada
por quem me rodeia. Onde estás afinal?
Não há brilho no teu olhar. Apenas lágrimas
de sangue.

Não compreendo como as coisas funcionam, e isso mexe comigo,
não acredito que a vida seja sofrimento pois, na verdade,
isto provoca-me um sofrimento dilacerante. E parece que,
quanto mais sofrimento provoca, mais tu te afastas.

O que fazer? Não sei. Sinceramente não sei. Estou tão cansado.

Resta-me o trabalho e a solidão. A solidão preenche se estivermos
realmente sós. E a solidão é horrível quando não estamos realmente sós.
Talvez seja um paradoxo. Talvez não faça sentido. Já não sei o que faz sentido.
Tu fazes sentido. Porque não apareces?

*

nomes

Tens um nome de uma flor, mas não sei quem és.
E disse: tens o nome de uma flor.
Olhaste, sorriste, e continuaste no teu caminho.
E eu fiquei ali para sempre.

*

desfasamentos

Tornas-te ilusiva novamente.
Dissolves-te nas paredes de mármore
e no chão inteiro.
As lágrimas que caem são apenas pétalas
arrancadas ao entardecer.
E nem sequer são lágrimas. São apenas,
a cristalização de uma memória inexistente.

Tornaste-te ar, neblina, nevoeiro, novamente.
A cada passo que dás dou eu dez numa outra direcção.
Apenas estamos destinados ao desencontro,
num desfasamento constante, crescente, incompreensível.

E no entanto caminhamos lado a lado,
ou na direcção um do outro, apesar da
entropia e da melancolia, e da apatia,
que se abate sobre o nosso não encontro.

Por vezes parece que
nunca nos iremos encontrar.
Há dias em que
parece não valer a pena continuar.
Por momentos talvez sinta
que não vale a pena procurar.

Deixo-me estar, à espera
até a espera deixar de esperar por mim.
Embora não espere nada apenas sinto-me
feito de marfim e mármore e
estou bem sem me mexer.

Habituamo-nos demasiado ao silêncio das colunas
e às tágides. Dizem sempre o que queremos ouvir,
ou então não dizem nada.
São estátuas imoveis em mim. E tudo acontece
à minha volta, mas não em mim. Porque estou imóvel
e deixo-me estar assim, pois a alternativa é insuportável.

Um dia disseram-me que a ia encontrar.
Mas eu não acreditei.

***

21.9.09

fuga com linhas a mais

Venho para a cama e esqueço-me de escrever.
Ou da vontade de o fazer. Mas depois lembro-me.
Acendo a luz. A outra luz. E esta máquina de escrever.
Paro para ler, para ver o peach, plum pear.
Lembro-me de ti, aqui. Há tão pouco tempo que parecem anos.
Hoje respondeste, embora a resposta que esperasse não fosse a tua.
A tua resposta esperava eu, dissemos adeus, até nunca mais.
Ficamos inertes por fim. Cinzas apagadas, frias.
Tenho saudades, mas de quê?
Até o respirar se cansa. Talvez não consiga suspirar.

(por vezes há esta angústia que não é angústia,
talvez seja...medo?)

E se não sair nada? Afogo-me no ar que não respiro?
Porque não inspirar tudo de uma vez?
E o que resta?
Ainda não é desta? Mas o quê?
Que confusão, desilusão, abstracção!
É isso, o amor é uma abstracção.
Uma contradição sem sentido nem forma.
Abstrai-se a ele próprio e explode e implode
Ao mesmo tempo da mesma maneira,
de maneiras totalmente diferentes e opostas.
E renasce e morre e é e não é, nem deixa de o ser.
E agora, repete, reinicia, recomeça.
Tudo aponta nessa direcção.
Qual direcção? Todas.
Mas não. Que confusão!
Tens sono? Sim muio, demais.
Já não sei o que escrevo, é tudo demasiado sedoso,
sabe a vale de lençois.
Resta apenas uma lembrança que nunca existiu.
Daquilo que nunca foi. Ou será.
Ou será? Talvez. O que é é que não é de certeza.
Por vezes gostava que a casa inundasse.
Para poder dizer 'quando choramos podemos aliviar a nossa dor num lenço,
mas quando uma casa chora dá muito trabalho!'

*



20.9.09

bolhas

Quando as bolhas rebentam, o coração rebenta.
Não há grande história nem grande segredo.
Faz 'plop' e já está. Nada mais.
Mesmo quando não temos consciência delas.
Ardem no peito, não fazem cócegas, tiram o ar que resta.

E o que resta afinal?

Resta uma história por contar que não sai.

Ou talvez saia após uma pequena introdução, um imbróglio de palavras obscenas.
Eu gosto de coisas obscenas desde q sejam bonitas. bonitas bonitas. Batraqueais.

Embora me esteja a batraquear para o bonito, mas não para o bonito bonito.
É a insenstez da impaciência ou o insustentável peso das coisas que não existem?

Por vezes custa a desencravar, não sai nada durante um fim de tarde de domingo.

Estou impaciente porque ela não escreve. Resta saber quem. qual. onde. por onde andas?

Não há valsas nem mazurcas contigo. Não sei o que há.

Só vejo o mar e um fundo dourado em ti. E uma dor forte no peito.

Não sei que diga a respeito, apenas vejo lilases onde não devo.

Quem quer que tu sejas, sabe que me fazes falta e que tenho saudades tuas.

Os suspiros ajudam, no entanto, a afastar o pó, a fazer cair o pano. A esquecer,
aquecer os pés dos pulmões em dia de primavera.

Ou de outono, tanto faz.

Os dias arrastam-se e não vens. E as bolhas crescem e rebentam. E eu com elas.

São muitas, são nenhumas. São elas e eu. Sou eu.

Não é ninguém, afinal.

E agora?

*

10.9.09

o indefinível corroer da tristeza refinada

A tristeza escorre. As palavras fundem. Tudo se corrói.
Ao vento o ar. Desalento precoce. Turbilhões de um dia.
Melancolias verticais no vento. O soluçar de um momento,
que esperaria que fosse em ti. Que o perdesse. E o voltasse a encontrar.

Perco-me então numa almofada vazia e não te reencontro lá.
Talvez seja da posição ou da perspectiva ou simplemente da tua inexistência.
As tuas palavras são enigmas e eu não sou esfinge dourada.
Apenas alguns caminhos o são. E nunca sabemos onde vão dar.

Avanças lentamente por entre as pedras em lodo, mas não cais.
Está demasiado frio para cair e o gelo abunda, mesmo quando está calor.
E a angústia vem e fica apenas o plano infinito e o vazio. E o teu olhar.
E tudo se dissolve algum dia, quando as açucenas sopram e o ar é uma flor inventada.

Trocas as voltas ao meu coração. E é algo inesperado, que não contava. Porque não.
Aprendo a construir o amor, a não o deixar dominar-me. E no entanto, ele domina, por vezes.
As lágrimas ecoam memórias passadas e repetições inúteis. E a tristeza,
é um peso morto. E corrosivo. E inútil. E repulsivo. As entranhas gritam dentro de mim.

E a lua cheia, e os odores, e as voltas de danças. Tudo são formas em forma de véu.
Que nos transpira a vida e cobre o que está por vir e o que é. São apenas açucenas. Bravias.
E memórias que nos trazem algo mais que pão. A vida é pão?
Se assim é, prefiro pão de ló. E tu?

*

1.9.09

esquecimento

esqueceste-te de mim
e eu esqueci-me na sala escura
do presente que tinha para ti.
ainda assim invades-me.

sinto algo indefenido,
coisas sem forma.
alguma amargura,
o resto talvez tristeza,
mas não assim tanto quanto isso,
nada de mais pois estás aqui
permaneces, estás presente.

O teu gosto é ainda incompreensível,
não entendo como gostas.
Eu não sei se gosto.
Talvez não saiba gostar.

Ou então é a incerteza
e o esquecimento
que me fazem vacilar.

Há esquecimentos difíceis
em especial naqueles momentos
que esperas que tudo aconteça.

Mas ainda há dia
ainda há dança
ainda há lua
não se apagaram ainda os fogos
nos teus ombros,
nos teus olhos,
nos teus seios.
ainda está tudo em aberto.

E vem aí a viagem. A grande.
E os dias passados
a ver o rio a passar
e nós a passar o rio
que se atravessa em nós
e as danças e os foles e a comunhão
e tudo o que nós quisermos juntos,
que não fique nada do lado de fora
que venhas então para aqui,
onde te espero
do outro lado.

*