21.1.11

o outro lado espera-te

Enviei a carta. Espero pela resposta. Espero que saiba a mirtilos. Selvagens.

Terei de os colher, no alto das montanhas. Onde tu habitas.

Tenho saudades tuas.

*

20.1.11

o contacto perdido

Dançámos. Já tinhamos dançado antes assim. Tão juntos. Ela diz-me em francês, algo como: gosto mesmo muito de dançar contigo. Foi bonito. Fechei os olhos durante muito tempo. Ela ainda lá estava agarrada a mim. Continua a ser bonito. Muito. A música contínua, nós também, sempre tão juntos. A música acaba. Alguém se intromete e ela parte. Nesse momento guardei-te no meu coração.

Algum tempo passa. Aproximo-me. Abraço-a. Ela abraça-me também. Quase que a beijo. Quase que ela me beija. Ela olha-me atentamente. Eu olho para dentro dela. Sorrimos. Esperamos pela próxima dança e não é o que esperávamos. Dançamos na mesma, improvisamos. Pego-lhe com força e dançamos agarrados um ao outro. Aperto-a. Ela aperta-me. Continuamos mesmo que não seja a melhor posição para dançar. Não conseguimos dançar de outra maneira. Parece um momento eterno e ao mesmo tempo extremamente fugaz. O momento termina e ela foge. Diz: vou dizer olá, e parte.

Volto a vê-la na hora de partida. Vou ter com ela e falo-lhe da casa. Da casa dela. Ela vai partir, fazer woofing. Falo-lhe do woofing, e de tudo isso. Ela vai viver para longe. Diz que vai construir casas, falamos das casas a construir. Falo do Brasil, da bioconstrução. Temos coisas em comum, conversa. Tivemos que partir.

No derradeiro momento, lá fora. Ela aproxima-se outra vez de mim. Sorrimos. Abraçamo-nos com força e damos dois beijos quando queriamos dar um só. Dizemos adeus, até um próximo baile quando queriamos dizer: vamo-nos encontrar e fazer amor.

Não sei porque não lhe pedi o contacto. Ela também não mo pediu. Eu funciono ao retardador, só entendo quando é tarde. Agora estou chateado.

Mas foi bonito. Foi tão bonito! E quem sabe se não nos encontramos outra vez. E aí acho q não vou deixar que seja assim novamente. Sempre podia ir lá ter com ela, onde quer que ela vá, um fim de semana, o que seja!

E assim ficou o meu contacto perdido. Darn. Era demasiado bom. Tão bom. Fica em segredo nos sonhos e aqui.

O mais engraçado é que foi na mesma casa que conheci a amiga dela que também partiu. E com ela também aconteceu algo semelhante. Curioso. As mulheres partem, eu fico. Um dia uma delas também há-de ficar e partir comigo. Que isto de partir e chegar não tem fim, permanecer é uma miragem bem ao longe, no horizonte.

*

16.1.11

...mas o pior de tudo é esperar por alguém que nunca vai aparecer.

até podemos dar o que não temos, mas nunca poderemos dar o que não temos a quem não precisa.

apetece-me tarte de mirtilo. estou farto de iogurte. tanto faz q seja de morango ou framboesa.

O amor é dar aquilo que não se tem a alguém que não precisa dele

Hoje vi o filme que guardei para ti. Era mais que tempo de completar a saga Wong-Kar Wai. Nunca comi tarte de mirtilo, apenas iogurte. Será bom?

Tem piada como o amor pode ser assim. Partem-nos o coração e não conseguimos pensar noutra coisa. Encontramos a pessoa certa e partimos à procura dela.

A diferença é que no filme encontramo-la quando chegamos, na vida já ela partiu há muito tempo. Ninguém espera por ninguém, porque razão haveria de esperar por ti?

"How can you say goodbye to someone you can't imagine living without?"
"I didn't say goodbye"
"I didn't say anything"
"I just walked away"
"At the end of that night I decided to take the longest way across the street"

Na minha versão: How can you say goodbye to someone that you never knew but you're madly in love with?". Claro que não é assim, mas faz de conta, é mais bonito...e mais doentio.

"It took me nearly a year to get here"
"It wasn't so hard to cross that street after all"
"It all depends in who is waiting for you on the other side"

Sim, é tudo muito bonito. What if there's no one waiting for you on the other side? Pois é, fica tudo estragado, de que adianta fazer tartes de mirtilo para quem nunca chega? E no entanto, no entanto, continuamos a fazê-las............"It's just how it goes.......the story all have been told before..." ou melhor dito: O outro lado é mais bonito? Afinal sabe a framboesa ou a mirtilo? Se descobriste diz-me.

Adeus menina. Felicidades e bom ano.

6.1.11

o regresso.

Voltei.

Não sei o que escrever. Custa-me voltar. A sensação de nunca te encontrar queima-me a pele. A escrita já não é o que era, apodreceu, tornou-se pálida, encarquilhou com o tempo, despega-se de mim, gasta, seca, fragmentada.

O que me custa mais é não estares aqui. Mas isso já tu sabes. Sempre soubeste. Eu tento sempre convencer-me do contrário. De que não existes. De que não és nada para mim. Fazes-me falta, não te encontro em ninguém, percorro ilusões, umas atrás das outras, e farto-me.

Hoje estou cansado de te procurar. Quero descansar de ti. Estamos tão longe um do outro. Estaremos? Eu sei que amanhã continuarei a minha procura, mas hoje não. Sinto-me demasiado só para procurar, preciso de me distrair, de dispersar, recomeçar de novo, e amanhã é dia para voltar. Hoje não. Hoje estamos no limbo, na dúvida, na introspecção de todos os momentos não vividos. Restam apenas lágrimas de crocodilo de barriga cheia. O ventre está cheio de coisinhas inúteis, pré-fabricadas, que nos fazem consumir pelo natal. Não sei mais o que digo. Nunca estou satisfeito. Por vezes até fico insatisfeito antes de o estar. Antes de te conhecer, já sei que me vou separar de ti. Porquê? Talvez esteja apenas confuso, não sei o que digo. Tenho sempre uma razão para dizer não, mas nunca digo que não antes do sim, e isso confunde-me, apesar de me libertar. Só entendo quando estou dentro de ti. E depois vou-me embora. Vou-me embora de ti, de mim, e continuo a procura. Já não sei bem de quê. Talvez de nuvens no ar que sugerem formas e nomes e lugares e que se desvanecem num momento.

Tenho saudades disto. Um dia hei-de continuar por aqui. Quem sabe se amanhã?

*