25.11.09

I believe in nothing

What I believe - J. G. Ballard

I believe in the power of the imagination to remake the world, to release the truth within us, to hold back the night, to transcend death, to charm motorways, to ingratiate ourselves with birds, to enlist the confidences of madmen.

I believe in my own obsessions, in the beauty of the car crash, in the peace of the submerged forest, in the excitements of the deserted holiday beach, in the elegance of automobile graveyards, in the mystery of multi-storey car parks, in the poetry of abandoned hotels.

I believe in the forgotten runways of Wake Island, pointing towards the Pacifics of our imaginations.

I believe in the mysterious beauty of Margaret Thatcher, in the arch of her nostrils and the sheen on her lower lip; in the melancholy of wounded Argentine conscripts; in the haunted smiles of filling station personnel; in my dream of Margaret Thatcher caressed by that young Argentine soldier in a forgotten motel watched by a tubercular filling station attendant.

I believe in the beauty of all women, in the treachery of their imaginations, so close to my heart; in the junction of their disenchanted bodies with the enchanted chromium rails of supermarket counters; in their warm tolerance of my perversions.

I believe in the death of tomorrow, in the exhaustion of time, in our search for a new time within the smiles of auto-route waitresses and the tired eyes of air-traffic controllers at out-of-season airports.

I believe in the genital organs of great men and women, in the body postures of Ronald Reagan, Margaret Thatcher and Princess Di, in the sweet odours emanating from their lips as they regard the cameras of the entire world.

I believe in madness, in the truth of the inexplicable, in the common sense of stones, in the lunacy of flowers, in the disease stored up for the human race by the Apollo astronauts.

I believe in nothing.

I believe in Max Ernst, Delvaux, Dali, Titian, Goya, Leonardo, Vermeer, Chirico, Magritte, Redon, Duerer, Tanguy, the Facteur Cheval, the Watts Towers, Boecklin, Francis Bacon, and all the invisible artists within the psychiatric institutions of the planet.

I believe in the impossibility of existence, in the humour of mountains, in the absurdity of electromagnetism, in the farce of geometry, in the cruelty of arithmetic, in the murderous intent of logic.

I believe in adolescent women, in their corruption by their own leg stances, in the purity of their dishevelled bodies, in the traces of their pudenda left in the bathrooms of shabby motels.

I believe in flight, in the beauty of the wing, and in the beauty of everything that has ever flown, in the stone thrown by a small child that carries with it the wisdom of statesmen and midwives.

I believe in the gentleness of the surgeon's knife, in the limitless geometry of the cinema screen, in the hidden universe within supermarkets, in the loneliness of the sun, in the garrulousness of planets, in the repetitiveness or ourselves, in the inexistence of the universe and the boredom of the atom.

I believe in the light cast by video-recorders in department store windows, in the messianic insights of the radiator grilles of showroom automobiles, in the elegance of the oil stains on the engine nacelles of 747s parked on airport tarmacs.

I believe in the non-existence of the past, in the death of the future, and the infinite possibilities of the present.

I believe in the derangement of the senses: in Rimbaud, William Burroughs, Huysmans, Genet, Celine, Swift, Defoe, Carroll, Coleridge, Kafka.

I believe in the designers of the Pyramids, the Empire State Building, the Berlin Fuehrerbunker, the Wake Island runways.

I believe in the body odours of Princess Di.

I believe in the next five minutes.

I believe in the history of my feet.

I believe in migraines, the boredom of afternoons, the fear of calendars, the treachery of clocks.

I believe in anxiety, psychosis and despair.

I believe in the perversions, in the infatuations with trees, princesses, prime ministers, derelict filling stations (more beautiful than the Taj Mahal), clouds and birds.

I believe in the death of the emotions and the triumph of the imagination.

I believe in Tokyo, Benidorm, La Grande Motte, Wake Island, Eniwetok, Dealey Plaza.

I believe in alcoholism, venereal disease, fever and exhaustion.

I believe in pain.

I believe in despair.

I believe in all children.

I believe in maps, diagrams, codes, chess-games, puzzles, airline timetables, airport indicator signs.

I believe all excuses.

I believe all reasons.

I believe all hallucinations.

I believe all anger.

I believe all mythologies, memories, lies, fantasies, evasions.

I believe in the mystery and melancholy of a hand, in the kindness of trees, in the wisdom of light.

23.11.09

o outro lado



Michael Nyman - 'The other side' - Gattaca OST

22.11.09

o teu filme

Vi o teu filme e chorei.
E em todos os momentos pensei em ti.
A dor demora a passar.
Há que recomeçar, voltar de novo, emergir da dor.
Há que amar intensamente, ser correspondido intensamente.
Totalmente, completamente, com tudo o que temos.
É assim que eu te amo, assim.
Sim, amo-te. E tenho tantas saudades tuas. E choro.
Percebi finalmente que estou apaixonado.
Não queria estar apaixonado. É uma dor demasiado grande,
ver as estrelas cadentes no escuro, deixar a noite passar,
e acordar na erva alta, e não te poder acordar, para onde foste?
Tenho medo de nunca mais te ver, mesmo que te veja ou fale contigo
Todos os dias.
Diz-me. Quanto tempo mais terei de esperar?
Eu espero eternidades. Mas diz-me.
Quantas eternidades?
Diz-me se vale a pena esperar. Mesmo que o tempo não exista.
Valendo a pena, o tempo é apenas ar.
Diz-me. Acreditas mais,
na primeira hipótese ou na segunda?
Eu acredito na segunda. E tu?
Eu sei a resposta. Mas quero que tu me digas.
Olhos nos olhos.
Abraça-me e diz-me.
Assim.
Eu espero por ti. Eternidades.
(Não muito longas, sim?)

---

A tua presença faz-me tão feliz. Nunca senti nada assim.
E sobretudo, nunca quis esperar.
Porquê esperar agora?
Porque sim. Porque é. Agora. Porque eu sei
que esperaria toda a minha vida por ti.

*

14.11.09

A cor do teu umbigo

A cor do teu umbigo é rosa ou roxo
Não há quaisquer imagens de outro ser
Assemelhados à paisagem doce
Da tua cor.

A cor do teu umbigo em mim
São pétalas a cair suavemente
Em cima do meu peito nu

Os ombros da tua lua
São êxtases adiados em mim
Apenas restam as lembranças
do que não foi.

Restam apenas fragmentos de ilusões
E uma outra fogueira rasga a minha pretensão
De saber porque existe o mundo.

A maré vem e o mar parte
Ao longe está a capitania
Flocos de neve florescem ao sol por entre as flores
e as ervas daninhas.

Tudo transparece, tudo se compõe de clorofila
Não há nenhuma névoa aqui no porto de onde
tudo chega, tudo parte, não há parte alguma assim.

Tudo é passageiro e impermanente,
tudo é passagem.

Até a rua em que vivemos passa
e nos deixa imóveis para todo o sempre.

O êxtase não é mais que uma semente inventada
Que nos transporta para a amurada
E nos faz cair. E nos sonhos dentro dos sonhos
somos apenas transportados
pela vertigem da queda
pelo zumbir dos corpos
pela antecipação do impacto
e ao acordar percebemos enfim
que não estamos assim tão vivos
como pensamos.

*

8.11.09

deambulações aleatórias

A cortina corre no seu rasto de ouro,
torna-se cinza em couro ou palha
quando se acendem os anéis da aurora
tudo o que resta são árias árabes
sentidos ondulantes, danças do ventre
sabores de cous cous exóticos.

O terraço de marraquexe enche-se de sombras
e o terreiro de vendedores de banha.
Tudo o que era árvore se apaga dentro do sol escaldante,
E as tamaras sabem a víboras encantadas.

Somos escaravelhos verdes e saboreamos a areia em fogo
Apertamos as patas entre os dentes e dizemos olá
uns aos outros.
Quando chega o inverno enterramo-nos na areia,
desaparecemos do mundo, transformamo-nos em
tranças de uma mulher índia, cavalgamos com ela
nas estepes infinitas do colorado durante a noite
dentro de um céu estrelado fazemos crepes
não queremos mais adormecer.

Andas triste. Eu não ando assim tão triste.
O que tenho para dar ainda aqui está,
guardado dentro de um saco de pão endurecido.
Esboroa-se com o tempo. Endurece.
Desfaz-se por ser tão rijo, rígido, duro.
Gostava de te dar tudo. Assim.
Talvez quando estiveres preparada para o aceitar, um dia.
Quando não for tarde demais e escaravelhos verdes voarem pelo céu estrelado.
Nos encontraremos enfim e seremos apenas um. Como anseio por esse dia.
Por vezes perco a esperança e caio. E logo a seguir me levanto. E caio novamente.
E é tudo tão rápido, ao mesmo tempo deixo de sentir na maior parte do tempo.
Por vezes não quero que apareça mais ninguém. E aí os continentes estalam e tudo estremece.
E a pele estala, e os pelos eriçam, e os chocolates são comidos. Os de limão. És limão?
Não, não és. Estás do outro lado mas ainda n te vejo lá, só aqui. Ainda estás aqui.
A rua contorce-se e eu com ela. Estamos enlameados nesta noite chuvosa. Não há planisférios em ferida neste lado do umbigo do mundo. A noite espera-te. O sono vem, e a lua é uma invenção dos amantes de queijo. Estamos a um passo um do outro e não avançamos por lado nenhum. Estamos cristalizados em âmbar, à espera que nos venham deslacrar. O acre é outro, sem dúvida e não sabe a limão, nem a doce de framboesa. Eu cá prefiro gelado. De morango. E tu?

Não sei se prefiro morango. Por vezes amarga e é demasiado grande, ou enjoativo. Café parece bem. Ou chocolate, ou menta. Queria estar na erva alta contigo. E os percevejos dizes? Eles não voam como nós. Estão presos à terra e às ervas de baixo. Ficam sem ar cá em cima, onde só nós chegamos.

As violas confundem-se com o por do sol. Reflectem os últimos raios de luz que ecoam no dia que se descai pelas últimas ondas do dia. O que resta enfim do último homem na terra é uma respiração em suspiro pressentindo o fim e o início de um tempo. E um retorno eterno. E um renascer amorfo e abstracto como escaravelho verde.

O sono vem novamente e não existem estores para conter o nascer do dia. Tudo o que existe dentro de um quarto de mofo é uma ilusão dourada. Cisnes verdes e azuis num lago de óleo de motor. Não há mais motores de lava. Tudo arde e não existe. A lava é apenas uma expressão de terra que voa e acumula e solidifica a sua existência. Vive a sua dinâmica e tudo o resto muda. Não há libélulas deste lado do mundo sem ti. Nem ópalas, nem estrugidos de morango, nem violetas azuis. O cansaço não demora, irei embora antes do nascimento da aurora. Mas antes, terei de regurgitar tudo o que sair de uma vez só. Da forma que for ou que sair. Em fluxo, jorro, jacto, turbilhão. Tudo turbilha em turbulência e eu sou um vórtice. Em claras de castelo me fundo em forma de núvem. As amarguras espalham-se pelo plano infinito e eu sou um cálice em forma de quadrado. A geometria é uma fonte inventade e jorra apenas sangue velho. Não sabe a nada, nem cheira a ferro, tudo oxida demasiado depressa.

Os raios de luz do novo dia ainda não despontam, o teu olhar triste e cansado denuncia um desgaste desumano. Não te consigo tocar. És demasiado doce. Fico suspenso num tempo distante e entro em parálise, tudo se move demasiado depressa e o estendal da roupa esvoaça pela tua janela. Sorris no meio dos panos e dizes, sabes, ainda é cedo. Mas não falta muito, paciência. Já aqui estás eu sei, preciso respirar. Viajar, andar pelos montes e montanhas e lençois. Não preciso de grilhetas e couros velhos. Prefiro andar nu pelas ruas e pelo deserto. Vem até mim e transforma-me em bola de fogo. Ou em coluna de água incandescente.

*

4.11.09

o regresso

Ainda resta no chão o sinal de um dia diferente
Como se uma outra pessoa aqui estivesse de passagem.
O teu perfume espera ainda pela extinção definitiva
ou pela aproximação de um vendaval, que tarda em surgir.

Surgem milhões de frases no infinito, inexprimíveis
num momento posterior silenciam. Apenas resta o silêncio
e pouco mais.

Hoje o cansaço não existe. Nas paredes escorrem melancolias
a custo e logo se desvanecem. Nos teus olhos vejo que nada
existe entre nós.

Não sinto nada. Existe apenas um vazio feito de nada.
Aqui, agora. Nada.

*

3.11.09

hope

Dás-me esperança e não é pouco,
hoje jantámos juntos e vimos juntos
mas um filme que não era para vermos.
Mas vimos. Num edredom dourado
em forma de tapete voador.
Voámos para longe mas não me deste a mão,
desta vez talvez tenha voado sozinho,
assim tivesse voado, se voei não sei.
E no entanto permaneces, persistes, prendes
a minha atenção no antes e no depois, continuo
a sonhar contigo, falas comigo mas não sei
o que queres.
Eu sei o que quero mas não quero forçar.
Estás demasiado perto. Tão perto que não
consigo respirar direito. Nem erguer a mão
para te tocar e quando o faço por uns momentos
esperava talvez que também o fizesses.
Mas continuas imóvel. Cansada, demasiado
passiva.
Eu espero, desta vez tenho paciência. Espero,
mesmo que me estatele no vazio, espero.
Não sei porque razão isto acontece.
Porque está a acontecer agora. Porque tenho
estes sonhos recorrentes que nunca tenho.
Porque estás aqui agora. Porque te amo assim tanto,
sem no entando ainda te amar. Porque, na verdade,
não te amo. Mas quero. É uma potência que se quer
transoformar em acção. Daí o não-amor que é amor
total, completo, tudo.

Desta vez não me importo de me estatelar no chão.
Não existe chão. Não existe cima nem baixo.
Provavelmente já me estatelei e nem
soube de nada. Afinal nem dói assim tanto.
Não dói? Não sei. Apenas tenho esperança.

*