8.11.09

deambulações aleatórias

A cortina corre no seu rasto de ouro,
torna-se cinza em couro ou palha
quando se acendem os anéis da aurora
tudo o que resta são árias árabes
sentidos ondulantes, danças do ventre
sabores de cous cous exóticos.

O terraço de marraquexe enche-se de sombras
e o terreiro de vendedores de banha.
Tudo o que era árvore se apaga dentro do sol escaldante,
E as tamaras sabem a víboras encantadas.

Somos escaravelhos verdes e saboreamos a areia em fogo
Apertamos as patas entre os dentes e dizemos olá
uns aos outros.
Quando chega o inverno enterramo-nos na areia,
desaparecemos do mundo, transformamo-nos em
tranças de uma mulher índia, cavalgamos com ela
nas estepes infinitas do colorado durante a noite
dentro de um céu estrelado fazemos crepes
não queremos mais adormecer.

Andas triste. Eu não ando assim tão triste.
O que tenho para dar ainda aqui está,
guardado dentro de um saco de pão endurecido.
Esboroa-se com o tempo. Endurece.
Desfaz-se por ser tão rijo, rígido, duro.
Gostava de te dar tudo. Assim.
Talvez quando estiveres preparada para o aceitar, um dia.
Quando não for tarde demais e escaravelhos verdes voarem pelo céu estrelado.
Nos encontraremos enfim e seremos apenas um. Como anseio por esse dia.
Por vezes perco a esperança e caio. E logo a seguir me levanto. E caio novamente.
E é tudo tão rápido, ao mesmo tempo deixo de sentir na maior parte do tempo.
Por vezes não quero que apareça mais ninguém. E aí os continentes estalam e tudo estremece.
E a pele estala, e os pelos eriçam, e os chocolates são comidos. Os de limão. És limão?
Não, não és. Estás do outro lado mas ainda n te vejo lá, só aqui. Ainda estás aqui.
A rua contorce-se e eu com ela. Estamos enlameados nesta noite chuvosa. Não há planisférios em ferida neste lado do umbigo do mundo. A noite espera-te. O sono vem, e a lua é uma invenção dos amantes de queijo. Estamos a um passo um do outro e não avançamos por lado nenhum. Estamos cristalizados em âmbar, à espera que nos venham deslacrar. O acre é outro, sem dúvida e não sabe a limão, nem a doce de framboesa. Eu cá prefiro gelado. De morango. E tu?

Não sei se prefiro morango. Por vezes amarga e é demasiado grande, ou enjoativo. Café parece bem. Ou chocolate, ou menta. Queria estar na erva alta contigo. E os percevejos dizes? Eles não voam como nós. Estão presos à terra e às ervas de baixo. Ficam sem ar cá em cima, onde só nós chegamos.

As violas confundem-se com o por do sol. Reflectem os últimos raios de luz que ecoam no dia que se descai pelas últimas ondas do dia. O que resta enfim do último homem na terra é uma respiração em suspiro pressentindo o fim e o início de um tempo. E um retorno eterno. E um renascer amorfo e abstracto como escaravelho verde.

O sono vem novamente e não existem estores para conter o nascer do dia. Tudo o que existe dentro de um quarto de mofo é uma ilusão dourada. Cisnes verdes e azuis num lago de óleo de motor. Não há mais motores de lava. Tudo arde e não existe. A lava é apenas uma expressão de terra que voa e acumula e solidifica a sua existência. Vive a sua dinâmica e tudo o resto muda. Não há libélulas deste lado do mundo sem ti. Nem ópalas, nem estrugidos de morango, nem violetas azuis. O cansaço não demora, irei embora antes do nascimento da aurora. Mas antes, terei de regurgitar tudo o que sair de uma vez só. Da forma que for ou que sair. Em fluxo, jorro, jacto, turbilhão. Tudo turbilha em turbulência e eu sou um vórtice. Em claras de castelo me fundo em forma de núvem. As amarguras espalham-se pelo plano infinito e eu sou um cálice em forma de quadrado. A geometria é uma fonte inventade e jorra apenas sangue velho. Não sabe a nada, nem cheira a ferro, tudo oxida demasiado depressa.

Os raios de luz do novo dia ainda não despontam, o teu olhar triste e cansado denuncia um desgaste desumano. Não te consigo tocar. És demasiado doce. Fico suspenso num tempo distante e entro em parálise, tudo se move demasiado depressa e o estendal da roupa esvoaça pela tua janela. Sorris no meio dos panos e dizes, sabes, ainda é cedo. Mas não falta muito, paciência. Já aqui estás eu sei, preciso respirar. Viajar, andar pelos montes e montanhas e lençois. Não preciso de grilhetas e couros velhos. Prefiro andar nu pelas ruas e pelo deserto. Vem até mim e transforma-me em bola de fogo. Ou em coluna de água incandescente.

*

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