25.12.09

o horizonte dos mármores incandescentes

O portal das palavras incandescentes renega o seu sentido áureo, quando se translada lentamente para o zénite, para o chão. As tuas marcas permanecem no mármore, a sangue, nada as lava senão as lágrimas que cairam da tua face cor de mel naquele dia, no último dia do nosso reencontro. Estávamos os dois na falésia a ver o mar, em silêncio. As ondas murmuravam entre si e encontravam-se de cada vez com mais vigor. Tudo marulhava. As gaivotas tinha ido para longe e tu para perto de mim. A maresia transformava o mar em névoa e arco-iris tamanho micro. Andámos para longe, voltávamos do mar, e o mármore caiu em ti como uma tumba egípcia. O atoleiro dos últimos faróis. A grinalda no ar do vento e as tuas marcas no chão de mármore. Desapareceste enfim entre os últimos murmúrios do mar revolto. Ele veio e retornou contigo, e nunca mais te trouxe. Regresso muitas vezes ao mármore e lembro-me de ti nas tuas marcas e no teu sangue. Nasce em mim um rubor incandescente, aqueco-me por dentro, solto uma lágrima de esperança. Que o mar te traga em boas mãos.

Dizem que as sereias não regressam nunca. Eu acredito que um dia voltarás.

*

21.12.09

a passagem

não sei o que escrever. sinto apenas inquietação, desassossego, gavetas dessarumadas. O som da chuva ecoa pela casa e desmonta os parafusos um a um, ainda não chorou novamente, não tarda muito. a agua escorre pelas veias das paredes e acumula-se num canto perto da janela. lentamente inunda tudo sem escorrer.

vejo as tuas fotos e lembro-me de tempos felizes. tu, o sol, e eu ali, apenas ali, apenas existindo nos teus braços.

as saudades matam-me. aos poucos. devagar. não nos entregam de uma vez à morte. só tu sabes fazer isso, é um previlégio só teu. não tardas muito voltarás e dir-me-ás o segredo da vida e da morte, da existência.

os nenúfares são violeta no inverno. não há paragem de autocarro dentro do autoclismo. tudo se revira entre dois êmbolos de esferovite. tudo se desobora e se desfaz. jazes no chão, és plástico em borbulhas. não te trairás pela vida. tornas-te apenas alado, abençoado, ascenderás aos céus e dirás: eu sei o segredo da vida.

As ruas estendem-se pelo chão. Não há sinais de embolos, apenas estrada intermitente, alcatrão suado, nuvens reflectidas nele como ambrósias. daquelas que tu gostavas, azuis e amarelas. não trazes nada no teu ventre senão cobre. és feita de duas ligas de metal e estanho fundido. não te tornarás lava incandescente. tudo o que resta é o caminho da estrada da rua do local que vai dar a outro local um pouco mais além há sempre outro mais caminho.

não tardam as libélulas de luz. vêem-nos buscar antes do solestício de inverno. a rapina é apenas água e o borbulhar das ondas não existe. vem-nos buscar antes da solidão. O rio é tão translúcido e os peixes voam. Não tarda o anoitecer. Fica frio. Vem para perto de mim. Não há ruas que não acabem em vielas, ou até em becos sem saída. E depois? depois és parede. de betão. feita de argamassa sintética e de resíduos tóxicos industriais. não tardas na tua epopeia industrial. fazes de conta que és um cavalo de cordel e avanças, sabendo que não te espera senão o impacto inevitável de dois corpos em colisão. atravessas a rua e ficas esperto. entendes o que está do outro lado. não te tornas salmão, nem mesmo salmonela, apenas ficas diferente.

Os raios ecoam memórias de um outro passado. O que existe apenas do outro lado. A viagem continua por entre as lavas e as etiquetas de supermercado. Não há nada que nos espere do outro lado. Haverá? Gritas e ouves o teu eco. Ruminas baixinho para ti, esta vida não existe. Há algo de estranho nas formas, nos ecos, nos amores. Tudo parece demasiado ilusório, demasiado real. Não há descontinuidades no relevo aparente das coisas. Apenas sentes a prisão e gritas para dentro. E dizes: a prisão é gelatinosa. És uma fábrica de fermento. Não cuidas das auroras que passam em cada momento e dizem: o sofrimento é uma flor inventada.

As rabecas ecoam pelo chão da estrada. Ouvem-se como se fosse motores de carros de alta cilindrada. Não ouvem, não temem, não cheiram, não formam pesadelos de algodão doce. Existem apenas ali, planas, desconjuntadas, numa harmonia desafinada. A tua flor de liz já não se vê, do teu ombro surgem agora auroras perfumadas. E elas dizem: o que era deixou de ser. não mais o é, transformou-se em algo outro. Não há transformação sem a passagem. Ao outro lado.

*

16.12.09

l'amour



:)

aquilo ontem foi complicado....! :P fugiste...mau. que faço eu com tal intensidade??? *sigh*

Vem aí a passagem de ano...dans coimbra, bien sur... ;) Até lá ...

*

13.12.09

aquele momento

Escreveste,


"The waiting drove me mad... You're finally here and I'm a mess. (...)

Everything has chains, absolutely nothing's changed"


Eu não percebo nada de Pearl Jam, mas não vejo correntes nenhumas.

Por outro lado, tenho o hábito de ver coisas onde elas não existem...para minha infelicidade.

Mas hoje não me sinto infeliz. Gosto de dar. De me dar. Não me arrependo de nada. :)

Há momentos tão bonitos que não podem ser falsos. E é tão bom sentirmos que fizemos o que devíamos.

Apesar das sombras, e dos medos, e das ilusões.

Obrigado por aquele momento tão especial. Não o esquecerei.

*

12.12.09

o lado menos bonito

não esperava sentir dor quando te vi.
estava cansado, frágil. queria estar só.
acabei por sair, por alguém que já amei
intensamente.
batatas. trocar batatas por laranjas.
nada de mais. coisas bonitas,
framboesas. das vermelhas. e figos. maduros.
quando te vi, soube a razão
de nunca mais termos falado.
e é uma boa razão.
por isso não esperava esta dor.
ainda não entendi sequer o que estava
escondido aqui dentro.
ela chegou atrasada. muito. eu frágil, cansado.
tu chegaste logo depois. ela deixa-me sozinho,
já não é a primeira vez. muito cansado. triste.

não mo apresentaste. coisa estranha.
e é tão bonito, não podia vir na melhor altura.
e isso faz-me sofrer.
talvez seja uma mistura das duas coisas.
nem sabia que tinha isto aqui guardado
dentro de mim. e não entendo, não há razão,
nenhuma razão. talvez me faças lembrar
como as coisas mudam à minha volta.
um ponto de referência, um momento
de retrospectiva. não será em vão.
prometo-te que não será em vão.
nada será em vão.
e é tudo tão rápido. e é tudo tão distante.
e é tudo tão grande, o absoluto.
porque quero tanto o absoluto?

As condeixas planam no largo horizonte
Nos matízes ébrios do romper da noite
Ébonas sombrias correm pela praia
Dentro da amurada sombras fortes espiam
O doce lagunar das ondas, o murmúrio frio das pedras.
O farol irrompe dos destinos prévios
E ronda, rumina, rasga os previlégios
A lua lá no alto augura um recomeço
Entre passos fortes, entre névoas frias,
Tudo será desterrado, tudo será revelado.
Tudo será livre.
O que é um tudo?
É um tubo obrigado a viver ao contrário.
A viver o lado menos bonito.

*

5.12.09

no que e q eu me vou meter...

help!!! :)

na segunda vou a uma aula de lindy-hop! pray for me!!! :D




o teu segundo filme

E ela disse: 'I miss you.'
E tudo ficou negro.

Vi hoje o teu segundo filme. E lembrei-me de ti outra vez. E senti a tua falta.
Pensei em tantos filmes tão parecidos que já vi a este.
E os sonhos.
Sonhei muitas vezes contigo antes. Antes de sermos dois outra vez, eramos um só.
Mas tu não te lembras. Eu não me lembro mas sinto.
Faltam sinapses. Associações furtuitas. Lembranças perdidas.
Ao menos desta vez,
nenhum de nós está do lado de fora.
Ao menos desta vez,
ninguém abandona ninguém.
Ficamos todos do mesmo lado.
'Eu quero que voce me faça o amor'
diz a tradução literal, automática, de uma linguagem mesclada.
Make me make love to you
continua, agora no original, ainda mesclado, quase todo inglês.
Impossível de traduzir. Qualquer tentativa seria alvo de processo judicial criminal sumário.
Tudo seria transcrito em palavras simples e a areia que nos separa deixaria de existir.

Faz-me mal estar a viver tudo o que não vivi contigo. Desta maneira a pele solta-se demasiado, antes do tempo, antes da própria vida. São escamas em demasia.

Por vezes imagino que me queiras dizer algo, ali, assim. Que me digas 'amo-te', mesmo que não tenhas coragem de o dizer. Talvez tenham inventado um vírus, que impeça a invenção do amor. e eu não te quero amarrar a uma cama, para depois nos denunciares depois do amor. Não fazes por mal, apenas estás infectada. E teríamos de fugir. Antes que a doença se espalhasse e alguém mais dissesse, 'eu inventei o amor'. Doença contagiosa irreversível a ser contida a todo o custo!
Antes que olhos se ergam, antes que desertos desabrochem, antes que esfinges se derrubem.

tudo está escrito dentro de ti. só tens de te lembrar do sonho. passar por todas as estações e parar na última paragem.

Depois diz-me como foi.

Um dia hei-de amar assim alguém. Gostava que fosses tu.

**

4.12.09

as mensagens aleatórias

não sei para que me mandas mensagens.
as minhas respostas nunca devem chegar ao seu destino.
sim, perdem-se no caminho. só pode.

chego ao fim de três semanas de clausura,
de trabalho ininterrupto sem sentido, nem explicação.
estou diferente. não sei se melhor.
talvez não.

em vez de sentir vazio, senti a tua falta.
os amanhãs que não existem
ainda latejam no meu peito.
e descrevem lentamente indiferenças
que se transformam em tristeza refinada
à medida que o tempo passa e tu não vens.

não sei o que queres de mim.
se me queres ver porque não me procuras?
envias-me mensagens que sabes que à partida
irão ficar sem resposta, pois mesmo que
as recebas, se é que as recebeste,
nunca terás coragem para as ler.

que queres de mim?
dizes. quando nos vemos?
e eu digo-te quanto tu quiseres.
num mergulho na praia de uma noite de inverno,
com chuva ou trovoada, tanto faz.
ou talvez na varanda do sexto andar.
aí em qualquer lado, num jardim
a chapinhar, fazemos de salta-poçinhas,
rei das libelinhas.
perdemo-nos no areal.
tu dizes. afinal quando nos vemos?
e eu digo-te,
aqui. agora. em toda a parte.

*

25.11.09

I believe in nothing

What I believe - J. G. Ballard

I believe in the power of the imagination to remake the world, to release the truth within us, to hold back the night, to transcend death, to charm motorways, to ingratiate ourselves with birds, to enlist the confidences of madmen.

I believe in my own obsessions, in the beauty of the car crash, in the peace of the submerged forest, in the excitements of the deserted holiday beach, in the elegance of automobile graveyards, in the mystery of multi-storey car parks, in the poetry of abandoned hotels.

I believe in the forgotten runways of Wake Island, pointing towards the Pacifics of our imaginations.

I believe in the mysterious beauty of Margaret Thatcher, in the arch of her nostrils and the sheen on her lower lip; in the melancholy of wounded Argentine conscripts; in the haunted smiles of filling station personnel; in my dream of Margaret Thatcher caressed by that young Argentine soldier in a forgotten motel watched by a tubercular filling station attendant.

I believe in the beauty of all women, in the treachery of their imaginations, so close to my heart; in the junction of their disenchanted bodies with the enchanted chromium rails of supermarket counters; in their warm tolerance of my perversions.

I believe in the death of tomorrow, in the exhaustion of time, in our search for a new time within the smiles of auto-route waitresses and the tired eyes of air-traffic controllers at out-of-season airports.

I believe in the genital organs of great men and women, in the body postures of Ronald Reagan, Margaret Thatcher and Princess Di, in the sweet odours emanating from their lips as they regard the cameras of the entire world.

I believe in madness, in the truth of the inexplicable, in the common sense of stones, in the lunacy of flowers, in the disease stored up for the human race by the Apollo astronauts.

I believe in nothing.

I believe in Max Ernst, Delvaux, Dali, Titian, Goya, Leonardo, Vermeer, Chirico, Magritte, Redon, Duerer, Tanguy, the Facteur Cheval, the Watts Towers, Boecklin, Francis Bacon, and all the invisible artists within the psychiatric institutions of the planet.

I believe in the impossibility of existence, in the humour of mountains, in the absurdity of electromagnetism, in the farce of geometry, in the cruelty of arithmetic, in the murderous intent of logic.

I believe in adolescent women, in their corruption by their own leg stances, in the purity of their dishevelled bodies, in the traces of their pudenda left in the bathrooms of shabby motels.

I believe in flight, in the beauty of the wing, and in the beauty of everything that has ever flown, in the stone thrown by a small child that carries with it the wisdom of statesmen and midwives.

I believe in the gentleness of the surgeon's knife, in the limitless geometry of the cinema screen, in the hidden universe within supermarkets, in the loneliness of the sun, in the garrulousness of planets, in the repetitiveness or ourselves, in the inexistence of the universe and the boredom of the atom.

I believe in the light cast by video-recorders in department store windows, in the messianic insights of the radiator grilles of showroom automobiles, in the elegance of the oil stains on the engine nacelles of 747s parked on airport tarmacs.

I believe in the non-existence of the past, in the death of the future, and the infinite possibilities of the present.

I believe in the derangement of the senses: in Rimbaud, William Burroughs, Huysmans, Genet, Celine, Swift, Defoe, Carroll, Coleridge, Kafka.

I believe in the designers of the Pyramids, the Empire State Building, the Berlin Fuehrerbunker, the Wake Island runways.

I believe in the body odours of Princess Di.

I believe in the next five minutes.

I believe in the history of my feet.

I believe in migraines, the boredom of afternoons, the fear of calendars, the treachery of clocks.

I believe in anxiety, psychosis and despair.

I believe in the perversions, in the infatuations with trees, princesses, prime ministers, derelict filling stations (more beautiful than the Taj Mahal), clouds and birds.

I believe in the death of the emotions and the triumph of the imagination.

I believe in Tokyo, Benidorm, La Grande Motte, Wake Island, Eniwetok, Dealey Plaza.

I believe in alcoholism, venereal disease, fever and exhaustion.

I believe in pain.

I believe in despair.

I believe in all children.

I believe in maps, diagrams, codes, chess-games, puzzles, airline timetables, airport indicator signs.

I believe all excuses.

I believe all reasons.

I believe all hallucinations.

I believe all anger.

I believe all mythologies, memories, lies, fantasies, evasions.

I believe in the mystery and melancholy of a hand, in the kindness of trees, in the wisdom of light.

23.11.09

o outro lado



Michael Nyman - 'The other side' - Gattaca OST

22.11.09

o teu filme

Vi o teu filme e chorei.
E em todos os momentos pensei em ti.
A dor demora a passar.
Há que recomeçar, voltar de novo, emergir da dor.
Há que amar intensamente, ser correspondido intensamente.
Totalmente, completamente, com tudo o que temos.
É assim que eu te amo, assim.
Sim, amo-te. E tenho tantas saudades tuas. E choro.
Percebi finalmente que estou apaixonado.
Não queria estar apaixonado. É uma dor demasiado grande,
ver as estrelas cadentes no escuro, deixar a noite passar,
e acordar na erva alta, e não te poder acordar, para onde foste?
Tenho medo de nunca mais te ver, mesmo que te veja ou fale contigo
Todos os dias.
Diz-me. Quanto tempo mais terei de esperar?
Eu espero eternidades. Mas diz-me.
Quantas eternidades?
Diz-me se vale a pena esperar. Mesmo que o tempo não exista.
Valendo a pena, o tempo é apenas ar.
Diz-me. Acreditas mais,
na primeira hipótese ou na segunda?
Eu acredito na segunda. E tu?
Eu sei a resposta. Mas quero que tu me digas.
Olhos nos olhos.
Abraça-me e diz-me.
Assim.
Eu espero por ti. Eternidades.
(Não muito longas, sim?)

---

A tua presença faz-me tão feliz. Nunca senti nada assim.
E sobretudo, nunca quis esperar.
Porquê esperar agora?
Porque sim. Porque é. Agora. Porque eu sei
que esperaria toda a minha vida por ti.

*

14.11.09

A cor do teu umbigo

A cor do teu umbigo é rosa ou roxo
Não há quaisquer imagens de outro ser
Assemelhados à paisagem doce
Da tua cor.

A cor do teu umbigo em mim
São pétalas a cair suavemente
Em cima do meu peito nu

Os ombros da tua lua
São êxtases adiados em mim
Apenas restam as lembranças
do que não foi.

Restam apenas fragmentos de ilusões
E uma outra fogueira rasga a minha pretensão
De saber porque existe o mundo.

A maré vem e o mar parte
Ao longe está a capitania
Flocos de neve florescem ao sol por entre as flores
e as ervas daninhas.

Tudo transparece, tudo se compõe de clorofila
Não há nenhuma névoa aqui no porto de onde
tudo chega, tudo parte, não há parte alguma assim.

Tudo é passageiro e impermanente,
tudo é passagem.

Até a rua em que vivemos passa
e nos deixa imóveis para todo o sempre.

O êxtase não é mais que uma semente inventada
Que nos transporta para a amurada
E nos faz cair. E nos sonhos dentro dos sonhos
somos apenas transportados
pela vertigem da queda
pelo zumbir dos corpos
pela antecipação do impacto
e ao acordar percebemos enfim
que não estamos assim tão vivos
como pensamos.

*

8.11.09

deambulações aleatórias

A cortina corre no seu rasto de ouro,
torna-se cinza em couro ou palha
quando se acendem os anéis da aurora
tudo o que resta são árias árabes
sentidos ondulantes, danças do ventre
sabores de cous cous exóticos.

O terraço de marraquexe enche-se de sombras
e o terreiro de vendedores de banha.
Tudo o que era árvore se apaga dentro do sol escaldante,
E as tamaras sabem a víboras encantadas.

Somos escaravelhos verdes e saboreamos a areia em fogo
Apertamos as patas entre os dentes e dizemos olá
uns aos outros.
Quando chega o inverno enterramo-nos na areia,
desaparecemos do mundo, transformamo-nos em
tranças de uma mulher índia, cavalgamos com ela
nas estepes infinitas do colorado durante a noite
dentro de um céu estrelado fazemos crepes
não queremos mais adormecer.

Andas triste. Eu não ando assim tão triste.
O que tenho para dar ainda aqui está,
guardado dentro de um saco de pão endurecido.
Esboroa-se com o tempo. Endurece.
Desfaz-se por ser tão rijo, rígido, duro.
Gostava de te dar tudo. Assim.
Talvez quando estiveres preparada para o aceitar, um dia.
Quando não for tarde demais e escaravelhos verdes voarem pelo céu estrelado.
Nos encontraremos enfim e seremos apenas um. Como anseio por esse dia.
Por vezes perco a esperança e caio. E logo a seguir me levanto. E caio novamente.
E é tudo tão rápido, ao mesmo tempo deixo de sentir na maior parte do tempo.
Por vezes não quero que apareça mais ninguém. E aí os continentes estalam e tudo estremece.
E a pele estala, e os pelos eriçam, e os chocolates são comidos. Os de limão. És limão?
Não, não és. Estás do outro lado mas ainda n te vejo lá, só aqui. Ainda estás aqui.
A rua contorce-se e eu com ela. Estamos enlameados nesta noite chuvosa. Não há planisférios em ferida neste lado do umbigo do mundo. A noite espera-te. O sono vem, e a lua é uma invenção dos amantes de queijo. Estamos a um passo um do outro e não avançamos por lado nenhum. Estamos cristalizados em âmbar, à espera que nos venham deslacrar. O acre é outro, sem dúvida e não sabe a limão, nem a doce de framboesa. Eu cá prefiro gelado. De morango. E tu?

Não sei se prefiro morango. Por vezes amarga e é demasiado grande, ou enjoativo. Café parece bem. Ou chocolate, ou menta. Queria estar na erva alta contigo. E os percevejos dizes? Eles não voam como nós. Estão presos à terra e às ervas de baixo. Ficam sem ar cá em cima, onde só nós chegamos.

As violas confundem-se com o por do sol. Reflectem os últimos raios de luz que ecoam no dia que se descai pelas últimas ondas do dia. O que resta enfim do último homem na terra é uma respiração em suspiro pressentindo o fim e o início de um tempo. E um retorno eterno. E um renascer amorfo e abstracto como escaravelho verde.

O sono vem novamente e não existem estores para conter o nascer do dia. Tudo o que existe dentro de um quarto de mofo é uma ilusão dourada. Cisnes verdes e azuis num lago de óleo de motor. Não há mais motores de lava. Tudo arde e não existe. A lava é apenas uma expressão de terra que voa e acumula e solidifica a sua existência. Vive a sua dinâmica e tudo o resto muda. Não há libélulas deste lado do mundo sem ti. Nem ópalas, nem estrugidos de morango, nem violetas azuis. O cansaço não demora, irei embora antes do nascimento da aurora. Mas antes, terei de regurgitar tudo o que sair de uma vez só. Da forma que for ou que sair. Em fluxo, jorro, jacto, turbilhão. Tudo turbilha em turbulência e eu sou um vórtice. Em claras de castelo me fundo em forma de núvem. As amarguras espalham-se pelo plano infinito e eu sou um cálice em forma de quadrado. A geometria é uma fonte inventade e jorra apenas sangue velho. Não sabe a nada, nem cheira a ferro, tudo oxida demasiado depressa.

Os raios de luz do novo dia ainda não despontam, o teu olhar triste e cansado denuncia um desgaste desumano. Não te consigo tocar. És demasiado doce. Fico suspenso num tempo distante e entro em parálise, tudo se move demasiado depressa e o estendal da roupa esvoaça pela tua janela. Sorris no meio dos panos e dizes, sabes, ainda é cedo. Mas não falta muito, paciência. Já aqui estás eu sei, preciso respirar. Viajar, andar pelos montes e montanhas e lençois. Não preciso de grilhetas e couros velhos. Prefiro andar nu pelas ruas e pelo deserto. Vem até mim e transforma-me em bola de fogo. Ou em coluna de água incandescente.

*

4.11.09

o regresso

Ainda resta no chão o sinal de um dia diferente
Como se uma outra pessoa aqui estivesse de passagem.
O teu perfume espera ainda pela extinção definitiva
ou pela aproximação de um vendaval, que tarda em surgir.

Surgem milhões de frases no infinito, inexprimíveis
num momento posterior silenciam. Apenas resta o silêncio
e pouco mais.

Hoje o cansaço não existe. Nas paredes escorrem melancolias
a custo e logo se desvanecem. Nos teus olhos vejo que nada
existe entre nós.

Não sinto nada. Existe apenas um vazio feito de nada.
Aqui, agora. Nada.

*

3.11.09

hope

Dás-me esperança e não é pouco,
hoje jantámos juntos e vimos juntos
mas um filme que não era para vermos.
Mas vimos. Num edredom dourado
em forma de tapete voador.
Voámos para longe mas não me deste a mão,
desta vez talvez tenha voado sozinho,
assim tivesse voado, se voei não sei.
E no entanto permaneces, persistes, prendes
a minha atenção no antes e no depois, continuo
a sonhar contigo, falas comigo mas não sei
o que queres.
Eu sei o que quero mas não quero forçar.
Estás demasiado perto. Tão perto que não
consigo respirar direito. Nem erguer a mão
para te tocar e quando o faço por uns momentos
esperava talvez que também o fizesses.
Mas continuas imóvel. Cansada, demasiado
passiva.
Eu espero, desta vez tenho paciência. Espero,
mesmo que me estatele no vazio, espero.
Não sei porque razão isto acontece.
Porque está a acontecer agora. Porque tenho
estes sonhos recorrentes que nunca tenho.
Porque estás aqui agora. Porque te amo assim tanto,
sem no entando ainda te amar. Porque, na verdade,
não te amo. Mas quero. É uma potência que se quer
transoformar em acção. Daí o não-amor que é amor
total, completo, tudo.

Desta vez não me importo de me estatelar no chão.
Não existe chão. Não existe cima nem baixo.
Provavelmente já me estatelei e nem
soube de nada. Afinal nem dói assim tanto.
Não dói? Não sei. Apenas tenho esperança.

*

26.10.09

desistir é feio

Eu não acredito no amor.
Todas as vezes que ele cai do céu
fura-me o chão. E dá muito trabalho
arranjar tudo de novo.

E chão é coisa que gosto de ter.
E cada vez que o chão acaba,
torna-se mais baixo.
E quanto mais baixo ele está,
mas estragos faz o amor quando cai.

Eu não acredito no amor.
Nem mesmo na ilusão do amor.
Provavelmente nunca acreditei.
Nem nunca vou acreditar.

O amor acontece, não se acredita nele.
Ou existe ou não existe, não é fantasia.
Estou farto de fantasias. Das pequenas ou
das grandes, tanto faz. Não sou esquisito
com os tamanhos.

Não sou esquisito e estou cansado.
E quanto mais cansado estou
mais rápido vem o amor
a estatelar-se
pelo chão.

*

21.10.09

it's yours

Gosto de conversar contigo,
e tudo é ainda tão virtual,
gostava que fosse aqui.

Na realidade ficamos nervosos,
apenas nos desprendemos quando estamos soltos,
imateriais. Somos projecções fugazes
das nossas próprias fantasias incomunicantes.

Por vezes temos esperança
que algum dia
aconteça, prefiro pensar,
que assim o pensamos. ambos.

A rua lá em baixo espreita
um outro final, um outro desfecho,
um outro despertar
das longas noites de inverno
sem dizer coisas más no teu nome,
como dizias, vais dizer coisas más em mim
pois não te deixo dormir.
Mas não. Não será assim.

Só tenho coisas boas a dizer de ti quando acordo,
especialmente quando sonho contigo, no abstracto.
Aí há rosas e não são de plástico, resta saber se
os espinhos serão comestíveis.

Pelo menos não há flores de plástico. Muito menos rosas
resistentes à passagem do tempo, para sempre no seu auge
artificial.

Dizes. Gostava de ser cozinheira. Nunca provei a tua massa
sem bechamel. Talvez estivesse longe quando a fizeste. Não
senti o seu cheiro.

Devemos continuar então pelos atalhos e pelos caminhos
e pelos trilhos e becos e ruas. em ti todos os lugares
são avenidas de ouro. E fazem as açucenas florescer.
No inverno.

*

15.10.09

the flying cup club

Este é para ti.



*

peach plum pear

Gosto deste vídeo. Assim.




*

le chanson d'amour

A noite vem e o perigo espanta
O amanhecer deitado, as raízes soltas,
Espalhas-te imensa pelo campo inteiro
E soletras as cantigas loucas

Por entre os plátanos e o vinho novo,
vens para mim e significas dor
Não há nada dentro deste canto
Que nos dê alento e alguma cor.

As folhas da melancolia
São apenas promessa
Do que não aconteceu.

Apenas nos resta correr
ou cantar. Ou renascer.
Ou cobrir o véu. Do amanhecer.

*

11.10.09

concerto tardio


O sono vem e com ele a esgrima.
As letras debatem-se com elas próprias,
gladiam-se. não se suportam mais porque os dedos
berram com elas e elas com elas.

A dri diz que não se podem comprar namoradas
nas lojas dos trezentos.
Porque teriam de estar embaladas. E ninguém pode
amar alguém embalado. Ou com data de validade.
Ou com orelhas de plástico.

gostava de sonhar contigo hoje. sonhei muitas vezes, antes.

tenho sono. gostei tanto do concerto. gostava de te dar os parabéns
como deve ser. mas não me deixas. andas estranha comigo. gostava
que fosse tudo como dantes.

*

a laranja caiu ao poço

E tu não a foste buscar.

As luzes emudecem, entras no palco, fazes do teu instrumento
uma história de amor.

De repente só estás tu. E sinto algo indescritível.
Um amor mais que amor. Um amor abstracto, inexistente, incorpóreo.
Algo extraordinário. Que se propaga por mim e me aquece.
E no entanto, ao mesmo tempo, nada significa, não tem substância.
Faltas tu.

És apenas parte de um passado que podia ter sido um presente bonito.

És de um futuro que nunca aconteceu no meu presente.

E fazes parte do inverno no meu coração.

E naquele momento mágico, amo-te de uma forma,
que não consigo sequer pensar pois
vêm-me logo lágrimas aos olhos
e não quero chorar.

Agora não. É demasiado cedo. Faz arder os olhos e perder água.

Gostava que fosses como dantes, mas é tarde
Os caminhos divergem e eu estou incandescente.

É apenas água luminosa. Abstracta matéria de pensamento.
Transparente. Reflecta a tua imagem em mim,
e faz-me um pardal de ilhéus voadores.

Não penses que te quero absorver. Não sou amiba. Não tenho jeito
para canibal.

Só que estás diferente, e eu sinto essa diferença em forma de
uma indiferença disfarçada.

Queria apenas que fosse tudo como dantes, espontânea, o que gosto mais em ti,
são as flores em teu regaço. Sempre tão alegres.

Cansa-me esperar. As surpresas sucedem-se e em nenhuma delas,
vens tu embrulhada. Nem mesmo quando o carteiro se esquece,
e entrega alguma encomenda na morada errada.

Nunca nos habituamos às coisas erradas. Habituar seria perecer,
apagarmo-nos do nosso próprio mapa mental, deixariamos de ter
identidade.

Mas identidade é algo que não queremos ter. Queremos união.
Reunião, religação.
ruminação sobre a ordem natural das coisas. sobre quem somos
e para onde viemos, para onde fomos. Onde estamos nós agora.

Comemos e bebemos e alguém canta canções brejeiras. Espero
por ti e vais embora. Vão ambas.

Adianta? Adiante. Andor!

*






4.10.09

sombras

Sinto sombras em mim.
Não estás cá para as mandar embora.
A tua ausência é uma sombra
cada vez maior.

Nasces em cada momento,
com bastante dor
mas sem lamento. Estás aqui.
Mas não existes, és apenas
uma leve brisa, uma luz que irrompe
num pequeno buraco de esferovite.
Um murmúrio no silêncio.

A angústia cresce e tu com ela renasces.
Paro por uns momentos e suspiro,
não me resta mais nada para fazer.
Esperar. E desesperar. E sonhar contigo.

Fazes-me tanta falta. E sinto que
sou capaz de tudo na vida,
menos disto. E sem isto,
não sou capaz de nada,
porque nada mais faz sentido.

E não te encontro, não sinto nada
por quem me rodeia. Onde estás afinal?
Não há brilho no teu olhar. Apenas lágrimas
de sangue.

Não compreendo como as coisas funcionam, e isso mexe comigo,
não acredito que a vida seja sofrimento pois, na verdade,
isto provoca-me um sofrimento dilacerante. E parece que,
quanto mais sofrimento provoca, mais tu te afastas.

O que fazer? Não sei. Sinceramente não sei. Estou tão cansado.

Resta-me o trabalho e a solidão. A solidão preenche se estivermos
realmente sós. E a solidão é horrível quando não estamos realmente sós.
Talvez seja um paradoxo. Talvez não faça sentido. Já não sei o que faz sentido.
Tu fazes sentido. Porque não apareces?

*

nomes

Tens um nome de uma flor, mas não sei quem és.
E disse: tens o nome de uma flor.
Olhaste, sorriste, e continuaste no teu caminho.
E eu fiquei ali para sempre.

*

desfasamentos

Tornas-te ilusiva novamente.
Dissolves-te nas paredes de mármore
e no chão inteiro.
As lágrimas que caem são apenas pétalas
arrancadas ao entardecer.
E nem sequer são lágrimas. São apenas,
a cristalização de uma memória inexistente.

Tornaste-te ar, neblina, nevoeiro, novamente.
A cada passo que dás dou eu dez numa outra direcção.
Apenas estamos destinados ao desencontro,
num desfasamento constante, crescente, incompreensível.

E no entanto caminhamos lado a lado,
ou na direcção um do outro, apesar da
entropia e da melancolia, e da apatia,
que se abate sobre o nosso não encontro.

Por vezes parece que
nunca nos iremos encontrar.
Há dias em que
parece não valer a pena continuar.
Por momentos talvez sinta
que não vale a pena procurar.

Deixo-me estar, à espera
até a espera deixar de esperar por mim.
Embora não espere nada apenas sinto-me
feito de marfim e mármore e
estou bem sem me mexer.

Habituamo-nos demasiado ao silêncio das colunas
e às tágides. Dizem sempre o que queremos ouvir,
ou então não dizem nada.
São estátuas imoveis em mim. E tudo acontece
à minha volta, mas não em mim. Porque estou imóvel
e deixo-me estar assim, pois a alternativa é insuportável.

Um dia disseram-me que a ia encontrar.
Mas eu não acreditei.

***

21.9.09

fuga com linhas a mais

Venho para a cama e esqueço-me de escrever.
Ou da vontade de o fazer. Mas depois lembro-me.
Acendo a luz. A outra luz. E esta máquina de escrever.
Paro para ler, para ver o peach, plum pear.
Lembro-me de ti, aqui. Há tão pouco tempo que parecem anos.
Hoje respondeste, embora a resposta que esperasse não fosse a tua.
A tua resposta esperava eu, dissemos adeus, até nunca mais.
Ficamos inertes por fim. Cinzas apagadas, frias.
Tenho saudades, mas de quê?
Até o respirar se cansa. Talvez não consiga suspirar.

(por vezes há esta angústia que não é angústia,
talvez seja...medo?)

E se não sair nada? Afogo-me no ar que não respiro?
Porque não inspirar tudo de uma vez?
E o que resta?
Ainda não é desta? Mas o quê?
Que confusão, desilusão, abstracção!
É isso, o amor é uma abstracção.
Uma contradição sem sentido nem forma.
Abstrai-se a ele próprio e explode e implode
Ao mesmo tempo da mesma maneira,
de maneiras totalmente diferentes e opostas.
E renasce e morre e é e não é, nem deixa de o ser.
E agora, repete, reinicia, recomeça.
Tudo aponta nessa direcção.
Qual direcção? Todas.
Mas não. Que confusão!
Tens sono? Sim muio, demais.
Já não sei o que escrevo, é tudo demasiado sedoso,
sabe a vale de lençois.
Resta apenas uma lembrança que nunca existiu.
Daquilo que nunca foi. Ou será.
Ou será? Talvez. O que é é que não é de certeza.
Por vezes gostava que a casa inundasse.
Para poder dizer 'quando choramos podemos aliviar a nossa dor num lenço,
mas quando uma casa chora dá muito trabalho!'

*



20.9.09

bolhas

Quando as bolhas rebentam, o coração rebenta.
Não há grande história nem grande segredo.
Faz 'plop' e já está. Nada mais.
Mesmo quando não temos consciência delas.
Ardem no peito, não fazem cócegas, tiram o ar que resta.

E o que resta afinal?

Resta uma história por contar que não sai.

Ou talvez saia após uma pequena introdução, um imbróglio de palavras obscenas.
Eu gosto de coisas obscenas desde q sejam bonitas. bonitas bonitas. Batraqueais.

Embora me esteja a batraquear para o bonito, mas não para o bonito bonito.
É a insenstez da impaciência ou o insustentável peso das coisas que não existem?

Por vezes custa a desencravar, não sai nada durante um fim de tarde de domingo.

Estou impaciente porque ela não escreve. Resta saber quem. qual. onde. por onde andas?

Não há valsas nem mazurcas contigo. Não sei o que há.

Só vejo o mar e um fundo dourado em ti. E uma dor forte no peito.

Não sei que diga a respeito, apenas vejo lilases onde não devo.

Quem quer que tu sejas, sabe que me fazes falta e que tenho saudades tuas.

Os suspiros ajudam, no entanto, a afastar o pó, a fazer cair o pano. A esquecer,
aquecer os pés dos pulmões em dia de primavera.

Ou de outono, tanto faz.

Os dias arrastam-se e não vens. E as bolhas crescem e rebentam. E eu com elas.

São muitas, são nenhumas. São elas e eu. Sou eu.

Não é ninguém, afinal.

E agora?

*

10.9.09

o indefinível corroer da tristeza refinada

A tristeza escorre. As palavras fundem. Tudo se corrói.
Ao vento o ar. Desalento precoce. Turbilhões de um dia.
Melancolias verticais no vento. O soluçar de um momento,
que esperaria que fosse em ti. Que o perdesse. E o voltasse a encontrar.

Perco-me então numa almofada vazia e não te reencontro lá.
Talvez seja da posição ou da perspectiva ou simplemente da tua inexistência.
As tuas palavras são enigmas e eu não sou esfinge dourada.
Apenas alguns caminhos o são. E nunca sabemos onde vão dar.

Avanças lentamente por entre as pedras em lodo, mas não cais.
Está demasiado frio para cair e o gelo abunda, mesmo quando está calor.
E a angústia vem e fica apenas o plano infinito e o vazio. E o teu olhar.
E tudo se dissolve algum dia, quando as açucenas sopram e o ar é uma flor inventada.

Trocas as voltas ao meu coração. E é algo inesperado, que não contava. Porque não.
Aprendo a construir o amor, a não o deixar dominar-me. E no entanto, ele domina, por vezes.
As lágrimas ecoam memórias passadas e repetições inúteis. E a tristeza,
é um peso morto. E corrosivo. E inútil. E repulsivo. As entranhas gritam dentro de mim.

E a lua cheia, e os odores, e as voltas de danças. Tudo são formas em forma de véu.
Que nos transpira a vida e cobre o que está por vir e o que é. São apenas açucenas. Bravias.
E memórias que nos trazem algo mais que pão. A vida é pão?
Se assim é, prefiro pão de ló. E tu?

*

1.9.09

esquecimento

esqueceste-te de mim
e eu esqueci-me na sala escura
do presente que tinha para ti.
ainda assim invades-me.

sinto algo indefenido,
coisas sem forma.
alguma amargura,
o resto talvez tristeza,
mas não assim tanto quanto isso,
nada de mais pois estás aqui
permaneces, estás presente.

O teu gosto é ainda incompreensível,
não entendo como gostas.
Eu não sei se gosto.
Talvez não saiba gostar.

Ou então é a incerteza
e o esquecimento
que me fazem vacilar.

Há esquecimentos difíceis
em especial naqueles momentos
que esperas que tudo aconteça.

Mas ainda há dia
ainda há dança
ainda há lua
não se apagaram ainda os fogos
nos teus ombros,
nos teus olhos,
nos teus seios.
ainda está tudo em aberto.

E vem aí a viagem. A grande.
E os dias passados
a ver o rio a passar
e nós a passar o rio
que se atravessa em nós
e as danças e os foles e a comunhão
e tudo o que nós quisermos juntos,
que não fique nada do lado de fora
que venhas então para aqui,
onde te espero
do outro lado.

*

29.8.09

uma tarde com dri

Hoje estive com a dri.
Damo-nos tão bem.
É tudo tão natural.
Eu gosto dela. Ela gosta de mim.
Mas não dá.
Não dá?
Não
Porquê?
Não sei.
Eu gosto mesmo muito da dri.
E ela?
Ela gosta e não gosta.
Porquê?
Porque sim. É da espécie. É feitio não é defeito.
É complicado.
É.
Porquê?
Não sei. Só é complicado o que é simples, parece.
Complicado o que é simples?
Sim.
Como assim?
É uma forma de se ser infeliz. Nós gostamos disso.
Porquê?
Não sei. Somos todos um pouco SM. Gostamos de tau tau sem ninguém nos dar. Nem nós próprios?
Então quem dá?
Ninguém. Todos querem receber e ninguém dá.
Porquê?
Porque sim. É no não dar que está a infelicidade. Porque têm medo.
Medo?
Sim.
Não entendo nada!
Nem eu!

*

inquietação

Tudo está inquieto hoje.
Não há sombra que nos proteja
deste sol-de-noite.

As amuradas crescem de ideias
e morrem com o vento.

Sinto a tua falta,
mas não sei quem és.
És fragmentos.

Estou inquieto.
Não te encontro, não me encontras.
E tudo o resto é demasiado fugaz,
impermanente, célere, invisível.

Demasiado invisível para ser sentido,
tocado, apertado.

As tuas asas cheiram a enxofre.
E ameaçam queimar.

Tenho saudades do que não conheço.
E fico inquieto.

*

ausência

A tua ausência impregna estas paredes
que não existem.
Volta a vontade de escrever,
e com ela a ausência.
Ou será ao contrário, talvez.

E é tudo tão disperso ainda.
Nada sossega, aquieta, medra.
Está tudo no ar, em suspensão.

É preciso que caia, que assente, que encaixe.
Aqui nada encaixa. Por ora.

Espero assim outra aurora.
Que a tragas tu, portanto.
Embora tragar de manhã é violento,
e faz mal à barriga.

29.7.09

o lugar vazio

Há um lugar vazio entre nós.
Que nunca nos deixa aproximar.
Dá choque e é quente e lateja
viscosidades ondulantes.

O lugar da não pertença
pertence aqui mas não em ti,
por onde ondulam pássaros,
e fontes e framboesas maduras.

A luz da tua esfera,
ecoa murmúrios de esperança,
e transborda cor de mel
e de bolos açucarados.

E então fico enjoado e fujo
para longe
de ti.

*

rasgão

Quando a pele se rasga fica apenas dor.
Mas não é a pele mas sim a alma.
e a dor é outra.

Intangível, abstrata, insondável.

Como sair daqui?
Tudo parece fechado e irredutível.
Embora eu saiba que assim não o é.

E as paredes não existem e são sólidas
E o ar não existe e respira-se
E as estrelas são apenas reflexo
das suas primas no mar.

Há momentos que não acreditamos mais
no amor.

E no entanto sabemos que no dia seguinte,
tudo renasce, regressa, retoma.

Mas, neste momento, é a morte que
enche o palco, morte que não é mais que
transformação.

Em ar, em névoa, em carvão
que aqueça este frio e longo inverno
do meu coração.

*

22.7.09

farsa

Tudo o que sinto é uma farsa
Embalada em vácuo ultra alto.
Preservado para sempre em ambares
pós modernos que raiam o obscurantismo.

tudo treme, tudo move, tudo voa.
Nascido enfim vens à luz que ecoa
Um outro porvir.
Trazes contigo a vontade de milhões,
que ecoam a sua voz na eternidade
deste momentos fugidios.

O obelisco traça as chamas no teu cabelo
Trazes o ruivo do ultramar e vens-te melhor com ele.
Não sabes do meu amor por ti, porque não sabes.
devias suspeitar, não queres, não sei.
A farsa adensa-se por entre caminhos de dor,
e tudo se torna cinzneto e melancólico e demasiado sóbrio

Todas as ruas em que acontecer serão marcadas a ouro.

*

regresso

O dia aborda uma árvore sem flor.
E o sol liberta os primeiros raios,
por entre a dor dos tentáculos,
de frio.

A ribeira das auroras terminou por hoje.
Resta uma cinza escura incandescente
E uma névoa eterna e translúcida.

Confundem-se e confundo. A irrealidade
é um carinho inventado pelos que estão
sós.

Transparecem libélulas ao nascer do dia
Carregam conchas e larvas e mar,
trazem consigo esperança em pó,
Que à luz do dia sabem espalhar,
por entre os fogos e os poços e as camas,
trazem com elas um outro olhar,
do estado das coisas a que se sobrepõe
toda a espuma da vida.

Não será então dizer demais
Que a ria que transporta tradição,
não se dissolva por entre as margens
da vida e da morte.

Os andores percorrem pelo templo
Os seus andares firmes e serenos,
Os devotos e os silêncios e os abanos,
As rezas da minha infância.

*

confusão.

Os momentos sucedem-se embrigados.
Entre mares de palavras apareces
de braços cruzados. São matizes rosa e roxo.

Não sei se queres, não sei se dará,
nao sei se dei ou se fui ou se sou.
Apenas estou aqui para ti por quem não sei.
Escolho e afastas-te,e volto atrás.

Os teus joelhos não se dobram e tu não voltas.
A áfrica não é o teu sonho, o pesadelo é
de outras formas, outras árias, outros espaços.
Espaços abertos que ecoam saudade.

A confusão instala-se por fim.
Assim como o amanhã que amanhece aqui.
Estamos pendurados por dois graus de imensidão,
que transborda para aquela fresta, na ponta,
no ponto, no alto, na água que te refresca,
a face e o medo e a faca, os teus segredos
como que vêm de rompante.

Trazes um véu açucarado por entre as açucenas bravias,
tudo o resto são ervas selvagens, daninhas.
As que sabem a caos e rosmaninho.

Tudo o que é doce se desvanece por fim.
Ecoam canções de ontem num jardim de pétalas
de lava.

Trazes o teu coração para fora, e latejas.
Tudo lateja, e as grávidas distantes de ti.
Ecoam saudades. De amor.

*

21.7.09

o deserto do sahara

Por vezes sinto
que tudo é deserto em ti.
As mãos não se abrem, não há petalas nas tuas flores.
As açucenas bravias queimam-se no suor frio do teu rosto.

Talvez seja eu tão apressado,
que não veja o teu sorriso.

Não que eu sinta o deserto, pois ele não existe,
está apenas o vazio mais perto de mim quando vais para longe.

E esse vazio tem dunas que atravesso com dor.
Embora seja dor que não me doi, é apenas um vácuo.
Que subtrai a minha dor.

És meiga nos teus olhos e entrelaças as pernas
como uma enguia.

És forte e eu gosto. Não há mais ou menos contigo.
Só falta o mais importante, que tarda.

Talvez falte um abraço. Daqueles.
Em que não haja desenlace, apenas.
Espero talvez que me respondas de outra forma,
Sem te fazer qualquer pergunta.

As caminhadas no deserto são tranquilas.
Não me dão sede nem frio, apenas enguias,
que ecoam nas minhas pernas a lembrança,
do mundo que existe para lá, dentro de ti.

*

2.7.09

o tempo não espera

Não há muito tempo para esperar por ti.
Talvez seja já tarde de mais.
Tudo o que ecoa saudade se desvanece.

As tuas confusões dentro de ti.
As tuas traições virtuais.
O teu amor que reprime o amor.
A tua lua que chora num quarto fechado.

A repressão é tão brutal meu amor.
Porque não vens para ao pé de mim
e te sentas no meu colo
e me abraças. Assim. Tanto. Tudo.

E o tempo escasseia. Tanto. Tão depressa.
Eu não tenho pressa. Mas sou rápido.
Tão rápido que eu sou agora. Eficiente.
Na minha escolha, na minha iniciativa.
No meu gesto e na determinação.

Eu não queria avançar tanto, tão depressa.
Queria-te a ti, agora.
Mas que escolha tenho. Não me vou trair a mim próprio.
À espera do Romeu, não tenho vocação
para Julieta.

Boa sorte menina. E adeus.

*

traições

dizes, não quero trair três pessoas
e no entanto não trais ninguém
ou talvez te traias e te lançes
no vazio ou na solidão auto imposta.

dizes, sinto-me mal.
Eu também me sinto assim,
mas não pelas tuas razões,
pois tu estreitas o amor
e eu vejo-o bem largo, aberto, total,
transbordante.

Queres amar como nos filmes,
românticos e trágicos,
mas o amor não é assim,
não é como nos querem fazer crer,
o amor é o que é, e é total,
não se reduz a uma pessoa.

Dizes, sinto que traio,
e a única pessoa que trais
é a ti própria pois ao sentires que trais,
estás a trair-te. A atrair-te para o vazio.

A traição não existe. Apenas nos impõem tal conceito,
como se o o amor fosse apenas feito
para amar um só ser.
Podes amar quem quiseres, e quanto mais amares
mas vais poder amar.
Mas para isso terás de romper
com as teias
e as amarras
e as redes apertadas
e vais ter de puxar para a frente
e de as romper com os dentes,
e com as unhas
e com os gritos
que ecoam numa sala sem paredes
em que apenas o horizonte ecoa
a sua própria voz
em que os muros são finalmente derrubados
em que o amor não é mais mutilado
e traição é palavra obsoleta, do passado.

*

22.6.09

air folk

Na teu pulso está escrito a vermelho
air folk.
Que ondula lentamente no escuro da noite,
no reflexo das águas
o teu corpo brilha e reflecte
a lua e as estrelas em mim.

E eu flutuo e olho as estrelas e o firmamento
e as ondas que reflectem o teu corpo no meu
dizem-me que nadaste para longe.

E nado para perto de ti. E chocamos.
E dizes baixinho, chocámos. E ris-te.

E dizes que tens frio. E abraço-te por trás.
Para te aquecer. E afastas-me as mãos.
Antes de te abraçar.

*

19.6.09

insónia 5

Atravessas o tempo, como se de manteiga se tratasse,
e não és faca cortante, apenas por um instante.
Passeias divertida pela amurada que não existe.
Sorris e cais. Atravessas o rio, sem barqueiro.
És um submarino azul esverdeado. A viajar
em águas cada vez mais profundas.

Está escura, líquidos nauseabundos penetram-te.
Nem a lua cheia reflectida no rio opaco te salva.
De ti próprio.

Há mortes que são piores que a própria morte.
Vai-se morrendo aos poucos. Nesta sombra, ali
na outra, em todas.
Há algo de demente na estagnação da saudade.
Cristalização da puberdade. Dentro de um
marfim dourado. Chovem pétalas de verdade.

Mas são apenas pétalas, falta o cerne.
São reflexos refractados, distorcidos, calcinados.
Um vítreo óculo sobre o outro lado,
uma missão resplandecente, o ouro e a luz a nascente,
de quem fabrica almas e nós dá de mão beijada
um ascendente sobre os deuses.

O amanhecer sempre resguarda,
atrás de uma parede sem vícios,
o regresso resgatado
de alguns, aqueles, outros suplícios.

A solidão enfim alcança
o seu mais alto explendor
quem lê isto até se cansa
de aturar tamanha dor.

*

insónia 4

Diz-me 5 coisas. Que gostes e que não gostes.
Mostra-me os teus quadros.
Faz-me uma massagem aos pés. Embora preferisse
no pescoço.
Dá-me palmadas no rabo. Quero-te dar também.
Finge uma dor que realmente tens.
Apenas exprime-a de uma certa maneira
até ela se transformar em prazer.

Torna-te flor e luz e cor.
A desabrochar.
E um corpo de prazer.
Transbordante.
Ofuscante.
Total.

E a expressão de um tempo.
De amor puro.

*

insónia 3

Suspiro. Suspiro novamente.
Os pulmões não parecem encher-se de ar
Estão ressequidos, secos, inertes.
Prontos a marinar.

Queria tanto que estivesses aqui.
Beijar-te, abraçar-te, comer-te
de uma só vez, sem te engolir,
engolir-te e fazer-te regressar,
não te mastigar, não te moer,
não te ruminar.

Apenas fazer parte de ti e tu de eu
E desaparecer esta barreira que nos rompe
o destino.
E nos faz em desatino de uma lembrança infeliz.

É a alma que o diz.

E as lembranças de um tempo que ainda não passou
são o nosso fardo. E o fado que aí vem,
ainda não é facto sabes bem
que o torpor e a má lingua trazem fadado,
o fado que outros têm para nós.

e resta então apenas o sabor
de um sal que nunca ninguém alguma vez provou
aquele que sai da tua boca e encontra o meu sol
e a luz que não se vê volta a brilhar
com intensidade variável é certo
mas mesmo assim já dando para alumiar
alguns excertos deste verso.

As iluminuras ainda não estão gastas.
Apenas pressentem tempos distantes que aí vêm
Nas estátuas antigas estás presente
e chamas por mim ao longe.

A torre de marfim irá desboroar um dia,
e as pedras rolarão,
pelo vale de sombras.

E nesse dia regressarei à floresta
da minha infância
e te encontrarei por fim.

*

insónia 2

A Simone devolveu-me a tristeza
que lancei no ar.

Por vezes a solidão é muito chata.

Especialmente quando estás bonito.

Bonito bonito.

*

insónia

A insónia vem quando a excitação é grande.
Falta pouco tempo. Muito pouco.
Gostava que fosses. Não sei se irás.
Penso em ti. Muito.
Fico ainda mais excitado. A imaginar
coisas que não devia.
E a repeti-las entre variações infinitas,
dentro do mesmo tema.

*

14.6.09

o meu par

Danças há menos de um mês
E no entanto,
acompanhas tudo.
Há assim uma empatia natural
entre nós.

Adoro dançar contigo.

Ainda durante a tarde,
queria-te beijar mas tu não deixaste.
Fugiste logo. Afastei-me.

Ficaste mais fria. Mas na dança não.
Fiquei eu mais idiota. E não te convidei mais.
Queria dançar a mazurka que não veio. E foi tarde.

Sinto-me tão triste por te ver partir.
E não quero partir. Quero chegar.
Ver passar todas as paragens.
E terminar em ti.

*

sono tardio

A manhã desponta.
O sono esse torna-se cada vez mais presente.
Ao mesmo tempo não consigo dormir.

Talvez não me saia o que tenho cá dentro.
Da forma como quero.

Vou escrevendo asneiras. Ou nem isso.

Apenas descarregar apenas. Escarrar. Lançar impropérios.

Talvez eu não queira que saias ainda.
Ainda estás tão presente, presente.
Em fogo, em chama, em lava.
No meu jardim. Ardem cinzas do que era dantes.
Os rinocerontes fogem desordenados
Até à ria.

Esperas-me enfim para uma dança duas três.
Eu espero. Demasiado. Deixo-te ir. Alguém te leva. Talvez te veja ainda. Talvez não. Não sei. Vejo-te a ir de vez. Desta vez já não voltas. Hoje. Preferes os músicos franceses. Este.
E ficas a pensar no que é demais e no de menos. E não entendes nada.
Que burrice tão grande. Depois de um dia tão bonito, outro tão triste.
E fica tudo na mesma.

Deviamos ter um botão de reset para os corações partidos.

*
Por vezes as palavras fogem.
Apenas queres ir ali e a garganta aperta.
Ela vem-te convidar e diz esquece.

Todos os pequenos momentos se conjugam
para vos afastar.
Quando antes vos aproximavam.

Quando é cedo é cedo
quando é tarde é tarde
Desta vez foi tarde.

Não sei como posso ser tão burro
em certas coisas
especialmente nisto.

Quando te vi a sentar com ele
perdi quase toda a esperança,
quando saiste acompanhada
acabou-se.

Quis ir embora. Demorei.
Deixei-me estar a deprimir e a dançar.
A tentar não cair.

Afinal sempre vim para casa, tarde.
Sem ti.

Às vezes só queria que os pés desaparecessem,
para nunca mais poder dançar.

*

raiva II

Há certas coisas.
Outras são apenas coisas.
E ainda aquelas que não são nada.

Por vezes, nem a raiva existe.
Não que seja agora esse momento mas
é como se não aprendesses nada.

Perdes as oportunidades e tens raiva.

Olha merda.

6.6.09

coimbra

Hoje vamos dançar. A coimbra.




Vens? ;)

manifesto da fome





A tua cela está imunda de escrementos. Dos teus escrementos.
Espalhados metodicamente em círculos concenticos. Pelas paredes,
espalhas a tua raiva. E a tua fome.

Quando chega a hora abaixas-te e urinas. A leve inclinação do chão
faz o resto. E inunda tudo num cheiro fétido. Cheio de raiva. E de fome.

Ergues murais com os restos de comida putrefacta. Para que as paredes imundas
não te surpreendam. Nem os diques rebentem. Nem os exércitos se aproximem.

Na janela tens um rombo. Por onde metes as mãos. Primeiro a esquerda. Sempre.
Com cuidado. Para sentires o vendo da liberdade a lamber-te os dedos.
E a atenuar as dores do corpo. E da solidão.

A tua namorada chega. Traz um presente na sua vagina. Retira-o devagar para ninguém
ver. Guardas com cuidado perto das virilhas. Para depois, mais tarde fumares. E cheirares intensamente. E te lembrares da primavera.

Enrolas com cuidado as páginas do levítico. Atento à guarda e ao sossego. Acendes um fósforo ainda impregnado do seu cheiro. Fumas o tabaco, inspiras a memória, acalmas e relaxas. Logo à noite olhas para o teu companheiro adormecido. Retiras a foto dela e excitas-te. E masturbas-te. E ninguém dá por nada. Nem ele. Nem ela. Nem tu. Apenas ficas com menos coisas a ecoarem pela tua cabeça.

Chegou o dia insuportável. A fome vem e tu vais com ela para onde ela te levar. Mais de dois meses é demais mas sabias que era assim. Já não há saida. Para a fome, ou para a raiva. Ecoam apenas duas coisas na tua mente. O cheiro da cevada, a sua ondulação, o barulho que faz ao ecoar no vento. O ventre da terra. E a causa. A tua causa. A tua pátria. O teu lar. A tua ilha. Unida enfim. Para sempre.

Adeus. E boa viagem.



Fome, Hunger, Anger -

energia transbordante

Daqui.

*



hoje está assim. hiper-acelerado. estou bonito bonito. Para as danças.

Espero que se dance hoje. Muito. Demais. Em coimbra. E que haja cores. Muitas.

*

manifesto da raiva

A raiva é coisa feia. É o que dizem.
Eu não acho assim. Prefiro ser autêntico.

Dá-me raiva a hipocrisia, a falsidade,
o enjoo dos momentos falsos.
Dá-me raiva a superficialidade,
a educação moralista, a falta de sexo.
Dá-me raiva a baboquice encapuçada,
o bonito bonito e as conversas de tartaruga.
Dá-me raiva toda essa cambada de pseudo-artistas,
de cínicos frívolos e de assexuados.
Dá-me raiva o mais ou menos, o assim-assim,
os limites estabelecidos, e as repressões.
Dá-me raiva esta história toda de amor,
que não passa da maior mentira de todas,
mas que no entanto continuamos a acreditar,
que no entanto precisamos de acreditar,
para escapar da morte e da indiferença.

Passo sempre nos sentidos proibidos e não olhos para trás.
Faço de propósito, dá-me gozo. Se for o caso disso,
bato de frente, e depois?

Só quero que faça muito barulho, que seja ruidoso,
que ultrapasse os decibéis estabelecidos por lei.

E se poder continuo em frente, até ao fim, até ao fundo.
Até às últimas consequências.

Se me levarem para trás, voltarei ao ponto de partida,
para o repetir.
Se me aprisionarem, voltarei todos os momentos lá,
mesmo que de outras formas.
Se me matarem, voltarei só para passar por lá,
novamente.

O ódio não me dá raiva, passa-me ao lado.
O que me dá verdadeiramente raiva,
acima de tudo
é a indiferença.

*

sono

Sonho que não tenho sono
E não me vou deitar
Na minha cama.
Fico apenas a pairar
Por entre os lençois
e as açucenas que flutuam
pelas minhas mãos
de éter.

As madrugadas não deviam existir.

*

bróculos

Um bróculo é um vegetal verde.
Da família dos camarões alados.
Estende-se pela praia perguiçoso,
e para os astros distantes,
que apenas o vêm de longe
maltratado pela distância
e pela indiferença.

*

ocupações

A minha cadeira está sempre ocupada
Mesmo que esteja vazia.
Vão e vêm perguntam por ela
E eu digo que está vazia

E dizem então deixo-a ficar
Pois o vazio é demasiado grande
Para alguém o ter que suportar.

E assim deixam-me a mim e à cadeira
A conversar. Num silêncio no meio do barulho,
desta conversa. Que não é assim tão insuportável.

Talvez seja até agradável.
Pois é preferível falar com uma cadeira vazia,
do que ficar preso ao lodo e morrer afogado.

*

o encontro do desencontro

Espero por ti apressado.
Não sei se chegarás. Podes ter adormecido.
Neste café agitado.
Estás aqui sem estar aqui.
Já não te sinto. Não sinto nada.
Não existo, apenas escrevo
Palavras sem significado.

Restou apenas a sintaxe,
do que poderia ter sido,
o que nunca foi.

Estamos apenas à deriva,
em sentidos extremos,
amalgamas de significância
Que se torna aprenas uma
fragrância de sonho e
de pó e de nada.

Vens a caminho.
Mas não te sinto.
Apenas as conversas apresadas,
de um fim de semana que tarda
preenchem a atmosfera desta madrugada.

*

5.6.09

reencontro apressado

Apareceste de repente do silêncio da noite.
Estava escuro, a pretidão englobava a nossa barca,
que no entanto era serena e ecoava canções de embalar,
e baladas de assassinios inexistentes.

Lembrei-me de repente da ponte, da água, da calma,
do teu abraço.
E chorei por dentro. E fiquei estranho. E triste.
Por uns momentos.

E depois talvez tenha entendido que este será talvez,
um amor errado?

E quando mais errado melhor sabe. Pois não há nada de
errado no amor.

Apenas é errada a sua ausência. Ou devia ser. Deviam
publicar decretos lei a impossibilitar, a ilegalizar,
a criminalizar o não amor.

Que é a ausência de ti. Aqui. Assim. Sabes?

*

30.5.09

fura fura

Fura sem parar, no meio de gente estranha.
Os monólitos movem-se arrebanhando a massa
para o centro ou para os lados,
conforme se lhes desmande.

As estrelas de primavera explodem uma uma
entre as massas e as multidões e devassa
a nossa primavera.

Estrondos ecoam pela sala.

Estranhos barulhos ritmados, rápidos
hipnotizam, arrebanham, acarrapatam.

Tudo o que resta é a concentração
do gado.

A ausência de toda a identidade
A ausência de todo o amor,
apenas há o consumo de restos
e o trabalho de zombies,
e o poder que não existe,
para os verdadeiros cegos da conquista,
como se tudo fosse soprado no vento
e assistem apenas quando pensam que mandam,
ao seu desmando e declínio e queda final.

E a uns sucedem-se outros.
Quando o mais ausente és tu e o amor.
E quando o óbvio é apenas o mais incerto.
Tudo se desvanece num torpor de anjo.
E o pó dá lugar ao desmando.

O que resto no fim, quando
a autodestruição é assegurada?
Daremos nós um novo inicio
ou apenas faremos nova escalada
para que tudo volte ao nada?

*

imaginarius

São as açucenas bravias. De ti.
A implorarem pelo campo.
A cevada cresce madura
No teu peito.

As saudades imploram presença
Do teu espírito em mim.
Esta ausência perfumada
embriaga-me.

O que está neste quarto,
eu não compreendo.
Apenas sinto o vazio de ti.

E entram guardas de rompante
E levam o imcompreensível
Para longe.

Nem as paredes se erguem mais.
Fica tudo nu mas sem ser nu.
Apenas transborda para a indiferença,
deste lugar frio.

*

esperar não chega

estou tão apaixonado que até mete nojo.

E quanto menos me ligas mais apaixonado fico.

É muito tempo à espera de ti. E tu não vens.

Mas aqui estás. Mas é diferente. Há muita gente.

À nossa volta.

E a minha impaciência à solta. Nos dias arredios de verão.

Queria-te ver todos os dias. E abraçar-te. E sentir a tua

pele na minha pele. E sofro. Uma semana é muito tempo.

Demasiado.

Para te ver, e não poder estar contigo, vendo-te, contrariado.

E está tudo bem, quando a tensão existe. Depois, fico triste.

E frustrado.

E quando é só para a outra semana, não sei o que fazer.

Pois já estás em mim demasiado dentro para me libertar

de ti mesmo sem te ver.

*

22.5.09

esperar IV

respondeste. e eu respondi-te logo. tu não respondeste logo.

somos cada vez mais iguais. fico nervoso e tenho dúvidas.

tenho medo. que me digas que não me amas quando sei que me amas.

o engano só é tolerado até um ponto do qual não se regressa.

ou se demora a regressar.

Sinto-me impaciente, nervoso. Aínda há pouco estava tão calmo.

Quero estar contigo. Muito. Penso em ti. Deixo de pensar. Apenas sinto.

A tua não presença. Aqui.

É tudo tão intenso comigo. Porquê? É quase irreal.

Como isto pode ser tão forte, tão do avesso, tão poderoso.

Ao ponto de não existir mais nada. Mesmo que por uns momentos.

Tenho medo mas tenho esperança. E espero q esta prevaleça.

Aparece. Logo.

**

21.5.09

esperar III

Continuamos nos momentos de uma espera eterna.
Após muita insistencia respondeste,
e fizemos planos e propostas e sonhos,
e passei para ti o meu momento,
e tu nada disseste.

Espero novamente. Continuo a esperar.
Desta vez mais respirado.
Desta vez menos interessado.
Desta vez quase insensível.
À tua pele, ao teu olhar, ao teu abraço,
que sinto cada vez mais longe, quase inexistente.

Que permanece quase extinto, relembrado apenas,
num esboço de lençois e de açucenas. Bravias.

A vida continua ao longe. Bem perto sussuram,
outras tágides, outros caminhos, outras ilusões.

És um subterrâneo e eu perco-me em ti.
Nunca te encontro. Estás sempre cada vez mais,
labiríntica.

Esvais-te no teu sorriso. E no meu.
E nunca mais choras pedra. Nem verão.

A verdade nunca acaba por cair em mármore.
Restam apenas as açucenas bravias e o chão em ferida.

A luz que ilumina esta fresta é fria. E doente.
Não tarda vem a sombra do crepúsculo de ti.
E quando fores, nada restará.
Ficaremos no negrume. Eterno. Pois não sabemos,
quando será a próxima madrugada.

*

18.5.09

esperar II

Sonhei com subterrâneos e opressões violentas á superfície.
Sonhei com a total desolação de um planeta arrasado e mutante.

Apenas nos restava os subterrâneos e os refúgios de um mundo agonizante.

E fiquei estranho, mexido, incomodado por tal cenário,
E os dias passaram a ser séculos,
E fiquei à espera q aparecesses e me disssesses olá.
E fartei-me de esperar. E suspirei.

E de repente fiquei calmo e tranquilo.
Assim como de repente tinha ficado nervoso.

E continuo à tua espera.

Aparece sim?

Sinto tanto a tua falta. O teu sorriso.
A tua presença, o teu regaço, a tua respiração,
no meu pescoço. Vejo-te tão feliz.
Eu contigo, e tu comigo, um só.

*

esperar

Devia estar feliz. Mas estou triste.

Detesto esperar. Esperar, esperar esperar.

Desconfio quando tudo corre bem demais.

Não sei. Começo a suspirar. Não tenho paciência.

Ou então o tempo passa muito mais devagar.

Desde q te conheci. E não posso estar contigo.

Agora.

E foi tão bonito. Tão especial. Tão único.

Tenho medo que se desvaneça, que desapareca,

que nunca tenha acontecido.

Quero estar contigo. Sinto a tua falta. Tanto.

*

15.5.09

Cztery noce z Anna




Admito. Não estava à espera da surpresa deste 'Quatro Noites com Anna'.

É incrível como o amor pode tender tanto para o infinito quando não sai de nós. Fica preso, cresce para dentro, só nosso. E por isso torna-se tão impossível quanto perfeito e infinito. Tudo em absolutos obcessivos. Tudo em absolutos sacríficos inomináveis. Tudo demasiado excessivo. Tudo que se transforma em nada num bater do coração. Amor diz ele. Ela sai e vai embora. E volta e diz, não venho mais.


Vale a pena. Melhor só mesmo os filmes das outras 'Anas', desta vez espanholas (por sinal do mesmo realizador, Julio Medem, talvez o meu preferido) nos filmes 'Os amantes do círculo polar' e 'Caótica Ana', sendo este último a maior supresa dos últimos tempos. A crítica que se lixe e vá apanhar batatas! :)

*

V.

13.5.09

toma lá dá cá

A minha segunda música portuguesa preferida.



Se o mar tivesse varandas
Mesmo que fossem de pau
Ia ver o meu amor
Ao banco do bacalhau

Toma lá dá cá, dá cá toma lá
O meu coração arrecada-o lá
Arrecada-o lá dentro da caixinha
E o que está lá dentro ninguém adivinha

Andas a falar aí
Minha boca de goraz
Não me tiram uma costela
Se me roubam o rapaz

Toma lá dá cá, dá cá toma lá
Que meu coração arrecada-o lá
Arrecada-o lá dentro da caixinha
E o que está lá dentro ninguém
Ninguém adivinha, não adivinha não
O que está lá dentro do meu coração...


*

depois da acalmia II

Ficamos insensívens nos braços da noite,
Nada sentimos, nada somos, nada queremos.
Adormecemos apenas e esquecemos.
O sangue, e a rosa, e a cor,
dos teus desejos.

Nunca nada foi tão mais ou menos,
como aquilo que não dei hoje.
E vêem-me lágrimas aos olhos,
não pela realidade das coisas,
mas pela sensaboria insuportável,
dos actos medíocres e do esquecimento
forçado dos amores impossíveis.

E não adianta querer partilhar tudo,
porque nada se pode dar ao vazio
onde queriamos que existisse
o outro lado.

*

12.5.09

o dia antes, hoje, agora

Agora é o dia,
embora ainda não tenha sido,
é depois, embora seja hoje,
o que te vi, embora esteja,
perdido.

Encontraste-me na noite enfim,
Agachado a uma beirada,
e disseste-me apenas o vento,
sabe de toda a verdade,
e um lamento caiu sobre mim,
e caiste e ficaste ao meu lado,
e vimos as estrelas e as constelações,
que não te soube explicar.
E estava frio, mas não tinhamos frio.
Tinhamos apenas sede, mas ficamos,
um ao lado do outro. em silencio.
a ver as estrelas e as constelações,
do nosso passado.

*

4 dias contigo

Estás para breve junto de mim,
não sei se serão 4 dias pois,
ainda não o vi, não te vi então,
na janela abeirada, do 4 andar do hotel,
delineada nas beiradas, nas janelas, nas entradas,
nas mesas da recepção.

4 dias talvez seja demais,
para quem está há anos com febre.
Quem diz quatro dias diz uma hora, hoje.
Ou talvez menos.

Não adianta esperar muito,
pois ao destino cabe a maior parte,
que por vezes não reparte,
entre nós de forma igual.

Ficamos então dispersos,
Algo entreabertos,
Nesta mistura indisponível,
por vezes quase intangível,
de te ver ao despertar.

*

talvez para marraquexe

Ainda não sei onde vou.
Para onde é totalmente irrelevante.
Talvez para marraquexe.

Onde existem escravas e escraveiros magrebinos,
à espera de serem aprisionados, pois,
todos o desejam secretamente ser,
embora nunca o confessem, viver,
em clausura onde tudo é mais simples,
do que tomar decisões banais,
com significado aparente.

*

10.5.09

estranha esperança

A minha esperança sabe a amargura,
como se soubesse a tua resposta antes do tempo,
como se o que combinamos fosse apenas o fim,
e nada mais.

Não quero falar de longe, nem sequer suspirar,
quero estar contigo na pele, abraçar-te,
nem que seja pela última vez.

Estás tão longe. Sinto uma falta,
que ainda nem sequer existe.

E provavelmente nunca existirá.

*

---

Não entendo como não consegues
ver os liames que nos unem,
só os que nos desune.
Fico tão triste que parece que,
vou morrer.
E cada vez entendo menos,
disto.

*

--

7.5.09

o silêncio

És cruel. Deixas-me angustiado.
Não respondes a nenhuma das minhas mensagens
Fico desorientado, enjoado, triste.
Tão triste.

Porque não respondes, não falas comigo,
tanto faz que digas o que for, desde
que não seja este vazio.

Não me dás outra hipótese a não ser
a dispersão total e completa.
É pena. Assim nunca vais saber,
azar o teu.

*

medo

Tens medo de mim. O que medra o teu medo, assim?
tanto, tudo, total, talvez seja apenas impressão
do passado que trespassa este presente
tão pesado, que por vezes até nem sai assim,
tão envenenado.

O medo é coisa estranha, que se entranha
e desenfeita e espalha toda a maleita
que suga a cor e a vida, o sentido
e até a dor.

*

embora fui

Acabei por ir embora,
embora lá estivesses e não fiquei
deixei saí abri-me ao relento da
noite e esperei por ti no vermelho
fumado, onde tudo é esperado,
acontecer.
Não que esperasse que viesses,
apenas saí, ias para casa,
de qualquer forma, sempre ocupada,
não interessada, talvez, mais que isso,
independente e tão ausente por vezes,
que tantas vezes esperaria não ter que esperar
tanto por ti.

Fui embora, embora não estivesse lá,
realmente, estava em ti, assim, aqui, ali.
Aproximei-me e foste embora e fui também,
andor, cada um no seu caminho.
Gosto de ficar solto assim. Dentro do cor
de rosa e do lilás, ou violeta, ou roxo,
tanto faz.

*

tu outra vez

De violeta rosa não te esperava,
Em triângulos roxos ou lilases estavas
E estás e desapareceste por detrás,
dos panos vermelhos da antesala,
do novo avô cantigas, ou será
variações, invariavelmente será,
o que quiseres que seja,
o que será o que eu não queira,
por alguma razão não o é,
o que não quer dizer que assim sempre o seja,
apenas não o vejo nos teus olhos,
quando a minha aura expande e te envolve,
e fico assim, sem bloqueios para ti,
só e totalmente,
só...

*

6.5.09

baile II

Repousaste a tua cabeça enfim,
no meu ombro direito
E repousamos um no outro,
a nossa dor.

Só faltou um beijo e um desfecho,
diferente.

Irei eu lentamente, ou
lançar-me-ei no percipicio
dourado de ti?

*

baile

Dançámos no mundo. E em especial contigo.
Deste-me o que ele não te quis dar.
Nesta dança. Quase te beijei,
se assim soubesse beijar. Não sei.
Como libertar isto de mim.

O amor devia ser livre.
Pelo menos parece assim,
para quem está só.
Pelo menos dentro da minha
cabeça.

Gostei muito de dançar contigo.
Dei-te o que ele nunca te daria.
Mas não consigo dizer isto,
de outro modo, por enquanto.

Não sei como dizer-te que,
te posso dar o que tu dás,
e podemos dar um ao outro ainda mais,
do que isso.

26.4.09

a terceira vez.

É a terceira vez que vens aqui. Assim.
Sinto o teu respirar no meu pescoço e não te vejo.
Está escuro aqui.

Hoje ouvi Sérgio Godinho. Ao vivo. No 25 do quatro.
Lembrei-me de ti quando chegou a vez de espalhar a notícia
aos quatro ventos.
Nós queriamos convidar-te mas ninguém acabou por o fazer, e o tempo
esvaziou a tua presença entre nós.
Estamos ainda no ajuste das horas e dos tempos,
e das solidões.

Queria ir à praia contigo, mas não te quero convidar.
Tomar banho no mar. Ficar sal e água e sol em ti.
Apesar do frio. Apesar da sede. Apesar da noite.
Diz-me. Como as rosas desabrocham à noite sem ninguém lhes mandar.
E porque as colhem e as calam de madrugada,
só para as dar a alguém a quem fingem amar.

*

23.4.09

tu, hoje, outra vez.

Jogas à apanhada e às mãos vão parar-te outras mãos.
Cruzam-se os dedos e empurram-se corpos.
Que descem em confronto com a terra de madeira.
E a gravidade revela um sentido escondido,
dentro de ti, as anémonas brilham em silêncio.

Através dos tempos, o movimento é constante,
corta as camisas e os desenlaces do antes,
tornando tudo ainda mais confuso.
Para os pedantes dos templos modernos.

A luz que te inunda é feita de frio.
E o arrepio é apenas uma invenção,
feita de ar e de razão,
que te traz a flutuar ate mim.

A arena perde os seus leões,
e as luzes apagam lentamente,
todos os traços de sangue,
Dos dentes afiados teus.

A sala escura em que te encontras,
Não é mais do que uma inundação de luz,
escondida. Dentro de ti. Afastada dos pilares,
da sabedoria antiga.

Depois do sangue e das quedas,
resta ainda o teu não-eu,
postiço por uns momentos,
de escuridão.

Espero na praia e escrevo.
PArvoíces ao fim do dia, ou será início.
CIclos interminaveis de enredos variáveis
No fim do mais importante.

*

tu, hoje.

Vi-te no escuro da noite. Adormecida.
Saudavas-me do fundo, olhos preto, escuros, maquilhados de negro.
Dançavas um ciclo sádico e masoquista. Contigo própria.
E com a arena o círculo de toda a gente que ninguém vias.

Atacavas quem querias e eras vítima de um opressor desconhecido, simultâneo,
demasiado perto da tua pele, explodiam suores frios.

É tudo tão demasiado sério. Até mesmo com a língua de fora, ninguém segura,
as tuas anémonas.

Está frio e o arrepio que desce é uma lembrança de um tempo,
que nunca existiu.

E a praia espera, um outro pescador, que se ausenta, do mar.

*

18.4.09

the greatest

é desta que eu vou ver o blueberry nights sozinho. é triste.

não sei fazer gemadas sem ovos. nem omeletes. nem quero aprender de outra maneira. não faz sentido. perde o sentido. todo.

*

11.4.09

saudades III

tenho saudades tuas. desapareceste.
Como o Sahid do filme. Foste para longe,
sem dizeres mais nada.
Assim. Com medo.

Tens medo do que gostas mais.
Talvez porque te traga memórias e coisas que não sabes,
de onde vêm, nem porquê.

Tenho saudades tuas.

*

2.4.09

silêncio

Nem uma resposta, nem uma voz ao fundo, ao longe, no ar.
rasgada em mil milhões de pedaços de todas as cores.
Nem uma carta perfumada de odor de javali ou cachalote
apodrecido no sol.
Nem um suspiro, um lamento, uma respiração profunda,
ou prolongada.
Nem meia duzia de caracteres lançados ao ar,
polarizando o ar rapidamente chegando até lado nenhum.
Nem um olá virtualizado através de centenas de fios de cobre,
que circulam o mundo e o asfixiam lentamente.

Apenas silêncio. Nem sim, nem não, nem olá, nem adeus, nem nada.

Apenas silêncio. Asfixiante, permanente, eterno.

Silêncio. Violento, agressivo, opressivo.

Silêncio.

planisfério de fogo

A lua ergue-se cedo,
Reflectindo o teu olhar
de mancebo.

A guerra aproxima-se,
os sons agudos, os silvos, os estrondos,
que te percorrem naturalmente.

A estranheza do tempo que passa,
É apenas uma ilusão perene.

Tudo o resto é apenas ar e agua
E pó e nada.

*

depois da acalmia

Após uma acalmia estranha, sem razão.
Um quase esquecimento de ti.
Vieste tu pôr em questão
A tua própria ausência sem sentido.

Por vezes a falta deste é ele próprio,
quando as minhas mãos já não existem
para te sentir e os pés são uma
invenção triste dos homens.

O vento tornou a soprar para sul,
E tudo o que espero, nada concretiza.
E fico triste no teu regaço que não existe,
aqui, ao pé de mim. Assim.

O desabrochar lento das rochas,
e das rosas que brotam por dentro,
daquelas que nunca nascem,
e que nunca poderei ver.

Pois todas são vaporosas,
quebram-se com um olhar,
e vão sempre atrás do vento.

*