21.12.09

a passagem

não sei o que escrever. sinto apenas inquietação, desassossego, gavetas dessarumadas. O som da chuva ecoa pela casa e desmonta os parafusos um a um, ainda não chorou novamente, não tarda muito. a agua escorre pelas veias das paredes e acumula-se num canto perto da janela. lentamente inunda tudo sem escorrer.

vejo as tuas fotos e lembro-me de tempos felizes. tu, o sol, e eu ali, apenas ali, apenas existindo nos teus braços.

as saudades matam-me. aos poucos. devagar. não nos entregam de uma vez à morte. só tu sabes fazer isso, é um previlégio só teu. não tardas muito voltarás e dir-me-ás o segredo da vida e da morte, da existência.

os nenúfares são violeta no inverno. não há paragem de autocarro dentro do autoclismo. tudo se revira entre dois êmbolos de esferovite. tudo se desobora e se desfaz. jazes no chão, és plástico em borbulhas. não te trairás pela vida. tornas-te apenas alado, abençoado, ascenderás aos céus e dirás: eu sei o segredo da vida.

As ruas estendem-se pelo chão. Não há sinais de embolos, apenas estrada intermitente, alcatrão suado, nuvens reflectidas nele como ambrósias. daquelas que tu gostavas, azuis e amarelas. não trazes nada no teu ventre senão cobre. és feita de duas ligas de metal e estanho fundido. não te tornarás lava incandescente. tudo o que resta é o caminho da estrada da rua do local que vai dar a outro local um pouco mais além há sempre outro mais caminho.

não tardam as libélulas de luz. vêem-nos buscar antes do solestício de inverno. a rapina é apenas água e o borbulhar das ondas não existe. vem-nos buscar antes da solidão. O rio é tão translúcido e os peixes voam. Não tarda o anoitecer. Fica frio. Vem para perto de mim. Não há ruas que não acabem em vielas, ou até em becos sem saída. E depois? depois és parede. de betão. feita de argamassa sintética e de resíduos tóxicos industriais. não tardas na tua epopeia industrial. fazes de conta que és um cavalo de cordel e avanças, sabendo que não te espera senão o impacto inevitável de dois corpos em colisão. atravessas a rua e ficas esperto. entendes o que está do outro lado. não te tornas salmão, nem mesmo salmonela, apenas ficas diferente.

Os raios ecoam memórias de um outro passado. O que existe apenas do outro lado. A viagem continua por entre as lavas e as etiquetas de supermercado. Não há nada que nos espere do outro lado. Haverá? Gritas e ouves o teu eco. Ruminas baixinho para ti, esta vida não existe. Há algo de estranho nas formas, nos ecos, nos amores. Tudo parece demasiado ilusório, demasiado real. Não há descontinuidades no relevo aparente das coisas. Apenas sentes a prisão e gritas para dentro. E dizes: a prisão é gelatinosa. És uma fábrica de fermento. Não cuidas das auroras que passam em cada momento e dizem: o sofrimento é uma flor inventada.

As rabecas ecoam pelo chão da estrada. Ouvem-se como se fosse motores de carros de alta cilindrada. Não ouvem, não temem, não cheiram, não formam pesadelos de algodão doce. Existem apenas ali, planas, desconjuntadas, numa harmonia desafinada. A tua flor de liz já não se vê, do teu ombro surgem agora auroras perfumadas. E elas dizem: o que era deixou de ser. não mais o é, transformou-se em algo outro. Não há transformação sem a passagem. Ao outro lado.

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