29.7.09

o lugar vazio

Há um lugar vazio entre nós.
Que nunca nos deixa aproximar.
Dá choque e é quente e lateja
viscosidades ondulantes.

O lugar da não pertença
pertence aqui mas não em ti,
por onde ondulam pássaros,
e fontes e framboesas maduras.

A luz da tua esfera,
ecoa murmúrios de esperança,
e transborda cor de mel
e de bolos açucarados.

E então fico enjoado e fujo
para longe
de ti.

*

rasgão

Quando a pele se rasga fica apenas dor.
Mas não é a pele mas sim a alma.
e a dor é outra.

Intangível, abstrata, insondável.

Como sair daqui?
Tudo parece fechado e irredutível.
Embora eu saiba que assim não o é.

E as paredes não existem e são sólidas
E o ar não existe e respira-se
E as estrelas são apenas reflexo
das suas primas no mar.

Há momentos que não acreditamos mais
no amor.

E no entanto sabemos que no dia seguinte,
tudo renasce, regressa, retoma.

Mas, neste momento, é a morte que
enche o palco, morte que não é mais que
transformação.

Em ar, em névoa, em carvão
que aqueça este frio e longo inverno
do meu coração.

*

22.7.09

farsa

Tudo o que sinto é uma farsa
Embalada em vácuo ultra alto.
Preservado para sempre em ambares
pós modernos que raiam o obscurantismo.

tudo treme, tudo move, tudo voa.
Nascido enfim vens à luz que ecoa
Um outro porvir.
Trazes contigo a vontade de milhões,
que ecoam a sua voz na eternidade
deste momentos fugidios.

O obelisco traça as chamas no teu cabelo
Trazes o ruivo do ultramar e vens-te melhor com ele.
Não sabes do meu amor por ti, porque não sabes.
devias suspeitar, não queres, não sei.
A farsa adensa-se por entre caminhos de dor,
e tudo se torna cinzneto e melancólico e demasiado sóbrio

Todas as ruas em que acontecer serão marcadas a ouro.

*

regresso

O dia aborda uma árvore sem flor.
E o sol liberta os primeiros raios,
por entre a dor dos tentáculos,
de frio.

A ribeira das auroras terminou por hoje.
Resta uma cinza escura incandescente
E uma névoa eterna e translúcida.

Confundem-se e confundo. A irrealidade
é um carinho inventado pelos que estão
sós.

Transparecem libélulas ao nascer do dia
Carregam conchas e larvas e mar,
trazem consigo esperança em pó,
Que à luz do dia sabem espalhar,
por entre os fogos e os poços e as camas,
trazem com elas um outro olhar,
do estado das coisas a que se sobrepõe
toda a espuma da vida.

Não será então dizer demais
Que a ria que transporta tradição,
não se dissolva por entre as margens
da vida e da morte.

Os andores percorrem pelo templo
Os seus andares firmes e serenos,
Os devotos e os silêncios e os abanos,
As rezas da minha infância.

*

confusão.

Os momentos sucedem-se embrigados.
Entre mares de palavras apareces
de braços cruzados. São matizes rosa e roxo.

Não sei se queres, não sei se dará,
nao sei se dei ou se fui ou se sou.
Apenas estou aqui para ti por quem não sei.
Escolho e afastas-te,e volto atrás.

Os teus joelhos não se dobram e tu não voltas.
A áfrica não é o teu sonho, o pesadelo é
de outras formas, outras árias, outros espaços.
Espaços abertos que ecoam saudade.

A confusão instala-se por fim.
Assim como o amanhã que amanhece aqui.
Estamos pendurados por dois graus de imensidão,
que transborda para aquela fresta, na ponta,
no ponto, no alto, na água que te refresca,
a face e o medo e a faca, os teus segredos
como que vêm de rompante.

Trazes um véu açucarado por entre as açucenas bravias,
tudo o resto são ervas selvagens, daninhas.
As que sabem a caos e rosmaninho.

Tudo o que é doce se desvanece por fim.
Ecoam canções de ontem num jardim de pétalas
de lava.

Trazes o teu coração para fora, e latejas.
Tudo lateja, e as grávidas distantes de ti.
Ecoam saudades. De amor.

*

21.7.09

o deserto do sahara

Por vezes sinto
que tudo é deserto em ti.
As mãos não se abrem, não há petalas nas tuas flores.
As açucenas bravias queimam-se no suor frio do teu rosto.

Talvez seja eu tão apressado,
que não veja o teu sorriso.

Não que eu sinta o deserto, pois ele não existe,
está apenas o vazio mais perto de mim quando vais para longe.

E esse vazio tem dunas que atravesso com dor.
Embora seja dor que não me doi, é apenas um vácuo.
Que subtrai a minha dor.

És meiga nos teus olhos e entrelaças as pernas
como uma enguia.

És forte e eu gosto. Não há mais ou menos contigo.
Só falta o mais importante, que tarda.

Talvez falte um abraço. Daqueles.
Em que não haja desenlace, apenas.
Espero talvez que me respondas de outra forma,
Sem te fazer qualquer pergunta.

As caminhadas no deserto são tranquilas.
Não me dão sede nem frio, apenas enguias,
que ecoam nas minhas pernas a lembrança,
do mundo que existe para lá, dentro de ti.

*

2.7.09

o tempo não espera

Não há muito tempo para esperar por ti.
Talvez seja já tarde de mais.
Tudo o que ecoa saudade se desvanece.

As tuas confusões dentro de ti.
As tuas traições virtuais.
O teu amor que reprime o amor.
A tua lua que chora num quarto fechado.

A repressão é tão brutal meu amor.
Porque não vens para ao pé de mim
e te sentas no meu colo
e me abraças. Assim. Tanto. Tudo.

E o tempo escasseia. Tanto. Tão depressa.
Eu não tenho pressa. Mas sou rápido.
Tão rápido que eu sou agora. Eficiente.
Na minha escolha, na minha iniciativa.
No meu gesto e na determinação.

Eu não queria avançar tanto, tão depressa.
Queria-te a ti, agora.
Mas que escolha tenho. Não me vou trair a mim próprio.
À espera do Romeu, não tenho vocação
para Julieta.

Boa sorte menina. E adeus.

*

traições

dizes, não quero trair três pessoas
e no entanto não trais ninguém
ou talvez te traias e te lançes
no vazio ou na solidão auto imposta.

dizes, sinto-me mal.
Eu também me sinto assim,
mas não pelas tuas razões,
pois tu estreitas o amor
e eu vejo-o bem largo, aberto, total,
transbordante.

Queres amar como nos filmes,
românticos e trágicos,
mas o amor não é assim,
não é como nos querem fazer crer,
o amor é o que é, e é total,
não se reduz a uma pessoa.

Dizes, sinto que traio,
e a única pessoa que trais
é a ti própria pois ao sentires que trais,
estás a trair-te. A atrair-te para o vazio.

A traição não existe. Apenas nos impõem tal conceito,
como se o o amor fosse apenas feito
para amar um só ser.
Podes amar quem quiseres, e quanto mais amares
mas vais poder amar.
Mas para isso terás de romper
com as teias
e as amarras
e as redes apertadas
e vais ter de puxar para a frente
e de as romper com os dentes,
e com as unhas
e com os gritos
que ecoam numa sala sem paredes
em que apenas o horizonte ecoa
a sua própria voz
em que os muros são finalmente derrubados
em que o amor não é mais mutilado
e traição é palavra obsoleta, do passado.

*