22.6.09

air folk

Na teu pulso está escrito a vermelho
air folk.
Que ondula lentamente no escuro da noite,
no reflexo das águas
o teu corpo brilha e reflecte
a lua e as estrelas em mim.

E eu flutuo e olho as estrelas e o firmamento
e as ondas que reflectem o teu corpo no meu
dizem-me que nadaste para longe.

E nado para perto de ti. E chocamos.
E dizes baixinho, chocámos. E ris-te.

E dizes que tens frio. E abraço-te por trás.
Para te aquecer. E afastas-me as mãos.
Antes de te abraçar.

*

19.6.09

insónia 5

Atravessas o tempo, como se de manteiga se tratasse,
e não és faca cortante, apenas por um instante.
Passeias divertida pela amurada que não existe.
Sorris e cais. Atravessas o rio, sem barqueiro.
És um submarino azul esverdeado. A viajar
em águas cada vez mais profundas.

Está escura, líquidos nauseabundos penetram-te.
Nem a lua cheia reflectida no rio opaco te salva.
De ti próprio.

Há mortes que são piores que a própria morte.
Vai-se morrendo aos poucos. Nesta sombra, ali
na outra, em todas.
Há algo de demente na estagnação da saudade.
Cristalização da puberdade. Dentro de um
marfim dourado. Chovem pétalas de verdade.

Mas são apenas pétalas, falta o cerne.
São reflexos refractados, distorcidos, calcinados.
Um vítreo óculo sobre o outro lado,
uma missão resplandecente, o ouro e a luz a nascente,
de quem fabrica almas e nós dá de mão beijada
um ascendente sobre os deuses.

O amanhecer sempre resguarda,
atrás de uma parede sem vícios,
o regresso resgatado
de alguns, aqueles, outros suplícios.

A solidão enfim alcança
o seu mais alto explendor
quem lê isto até se cansa
de aturar tamanha dor.

*

insónia 4

Diz-me 5 coisas. Que gostes e que não gostes.
Mostra-me os teus quadros.
Faz-me uma massagem aos pés. Embora preferisse
no pescoço.
Dá-me palmadas no rabo. Quero-te dar também.
Finge uma dor que realmente tens.
Apenas exprime-a de uma certa maneira
até ela se transformar em prazer.

Torna-te flor e luz e cor.
A desabrochar.
E um corpo de prazer.
Transbordante.
Ofuscante.
Total.

E a expressão de um tempo.
De amor puro.

*

insónia 3

Suspiro. Suspiro novamente.
Os pulmões não parecem encher-se de ar
Estão ressequidos, secos, inertes.
Prontos a marinar.

Queria tanto que estivesses aqui.
Beijar-te, abraçar-te, comer-te
de uma só vez, sem te engolir,
engolir-te e fazer-te regressar,
não te mastigar, não te moer,
não te ruminar.

Apenas fazer parte de ti e tu de eu
E desaparecer esta barreira que nos rompe
o destino.
E nos faz em desatino de uma lembrança infeliz.

É a alma que o diz.

E as lembranças de um tempo que ainda não passou
são o nosso fardo. E o fado que aí vem,
ainda não é facto sabes bem
que o torpor e a má lingua trazem fadado,
o fado que outros têm para nós.

e resta então apenas o sabor
de um sal que nunca ninguém alguma vez provou
aquele que sai da tua boca e encontra o meu sol
e a luz que não se vê volta a brilhar
com intensidade variável é certo
mas mesmo assim já dando para alumiar
alguns excertos deste verso.

As iluminuras ainda não estão gastas.
Apenas pressentem tempos distantes que aí vêm
Nas estátuas antigas estás presente
e chamas por mim ao longe.

A torre de marfim irá desboroar um dia,
e as pedras rolarão,
pelo vale de sombras.

E nesse dia regressarei à floresta
da minha infância
e te encontrarei por fim.

*

insónia 2

A Simone devolveu-me a tristeza
que lancei no ar.

Por vezes a solidão é muito chata.

Especialmente quando estás bonito.

Bonito bonito.

*

insónia

A insónia vem quando a excitação é grande.
Falta pouco tempo. Muito pouco.
Gostava que fosses. Não sei se irás.
Penso em ti. Muito.
Fico ainda mais excitado. A imaginar
coisas que não devia.
E a repeti-las entre variações infinitas,
dentro do mesmo tema.

*

14.6.09

o meu par

Danças há menos de um mês
E no entanto,
acompanhas tudo.
Há assim uma empatia natural
entre nós.

Adoro dançar contigo.

Ainda durante a tarde,
queria-te beijar mas tu não deixaste.
Fugiste logo. Afastei-me.

Ficaste mais fria. Mas na dança não.
Fiquei eu mais idiota. E não te convidei mais.
Queria dançar a mazurka que não veio. E foi tarde.

Sinto-me tão triste por te ver partir.
E não quero partir. Quero chegar.
Ver passar todas as paragens.
E terminar em ti.

*

sono tardio

A manhã desponta.
O sono esse torna-se cada vez mais presente.
Ao mesmo tempo não consigo dormir.

Talvez não me saia o que tenho cá dentro.
Da forma como quero.

Vou escrevendo asneiras. Ou nem isso.

Apenas descarregar apenas. Escarrar. Lançar impropérios.

Talvez eu não queira que saias ainda.
Ainda estás tão presente, presente.
Em fogo, em chama, em lava.
No meu jardim. Ardem cinzas do que era dantes.
Os rinocerontes fogem desordenados
Até à ria.

Esperas-me enfim para uma dança duas três.
Eu espero. Demasiado. Deixo-te ir. Alguém te leva. Talvez te veja ainda. Talvez não. Não sei. Vejo-te a ir de vez. Desta vez já não voltas. Hoje. Preferes os músicos franceses. Este.
E ficas a pensar no que é demais e no de menos. E não entendes nada.
Que burrice tão grande. Depois de um dia tão bonito, outro tão triste.
E fica tudo na mesma.

Deviamos ter um botão de reset para os corações partidos.

*
Por vezes as palavras fogem.
Apenas queres ir ali e a garganta aperta.
Ela vem-te convidar e diz esquece.

Todos os pequenos momentos se conjugam
para vos afastar.
Quando antes vos aproximavam.

Quando é cedo é cedo
quando é tarde é tarde
Desta vez foi tarde.

Não sei como posso ser tão burro
em certas coisas
especialmente nisto.

Quando te vi a sentar com ele
perdi quase toda a esperança,
quando saiste acompanhada
acabou-se.

Quis ir embora. Demorei.
Deixei-me estar a deprimir e a dançar.
A tentar não cair.

Afinal sempre vim para casa, tarde.
Sem ti.

Às vezes só queria que os pés desaparecessem,
para nunca mais poder dançar.

*

raiva II

Há certas coisas.
Outras são apenas coisas.
E ainda aquelas que não são nada.

Por vezes, nem a raiva existe.
Não que seja agora esse momento mas
é como se não aprendesses nada.

Perdes as oportunidades e tens raiva.

Olha merda.

6.6.09

coimbra

Hoje vamos dançar. A coimbra.




Vens? ;)

manifesto da fome





A tua cela está imunda de escrementos. Dos teus escrementos.
Espalhados metodicamente em círculos concenticos. Pelas paredes,
espalhas a tua raiva. E a tua fome.

Quando chega a hora abaixas-te e urinas. A leve inclinação do chão
faz o resto. E inunda tudo num cheiro fétido. Cheio de raiva. E de fome.

Ergues murais com os restos de comida putrefacta. Para que as paredes imundas
não te surpreendam. Nem os diques rebentem. Nem os exércitos se aproximem.

Na janela tens um rombo. Por onde metes as mãos. Primeiro a esquerda. Sempre.
Com cuidado. Para sentires o vendo da liberdade a lamber-te os dedos.
E a atenuar as dores do corpo. E da solidão.

A tua namorada chega. Traz um presente na sua vagina. Retira-o devagar para ninguém
ver. Guardas com cuidado perto das virilhas. Para depois, mais tarde fumares. E cheirares intensamente. E te lembrares da primavera.

Enrolas com cuidado as páginas do levítico. Atento à guarda e ao sossego. Acendes um fósforo ainda impregnado do seu cheiro. Fumas o tabaco, inspiras a memória, acalmas e relaxas. Logo à noite olhas para o teu companheiro adormecido. Retiras a foto dela e excitas-te. E masturbas-te. E ninguém dá por nada. Nem ele. Nem ela. Nem tu. Apenas ficas com menos coisas a ecoarem pela tua cabeça.

Chegou o dia insuportável. A fome vem e tu vais com ela para onde ela te levar. Mais de dois meses é demais mas sabias que era assim. Já não há saida. Para a fome, ou para a raiva. Ecoam apenas duas coisas na tua mente. O cheiro da cevada, a sua ondulação, o barulho que faz ao ecoar no vento. O ventre da terra. E a causa. A tua causa. A tua pátria. O teu lar. A tua ilha. Unida enfim. Para sempre.

Adeus. E boa viagem.



Fome, Hunger, Anger -

energia transbordante

Daqui.

*



hoje está assim. hiper-acelerado. estou bonito bonito. Para as danças.

Espero que se dance hoje. Muito. Demais. Em coimbra. E que haja cores. Muitas.

*

manifesto da raiva

A raiva é coisa feia. É o que dizem.
Eu não acho assim. Prefiro ser autêntico.

Dá-me raiva a hipocrisia, a falsidade,
o enjoo dos momentos falsos.
Dá-me raiva a superficialidade,
a educação moralista, a falta de sexo.
Dá-me raiva a baboquice encapuçada,
o bonito bonito e as conversas de tartaruga.
Dá-me raiva toda essa cambada de pseudo-artistas,
de cínicos frívolos e de assexuados.
Dá-me raiva o mais ou menos, o assim-assim,
os limites estabelecidos, e as repressões.
Dá-me raiva esta história toda de amor,
que não passa da maior mentira de todas,
mas que no entanto continuamos a acreditar,
que no entanto precisamos de acreditar,
para escapar da morte e da indiferença.

Passo sempre nos sentidos proibidos e não olhos para trás.
Faço de propósito, dá-me gozo. Se for o caso disso,
bato de frente, e depois?

Só quero que faça muito barulho, que seja ruidoso,
que ultrapasse os decibéis estabelecidos por lei.

E se poder continuo em frente, até ao fim, até ao fundo.
Até às últimas consequências.

Se me levarem para trás, voltarei ao ponto de partida,
para o repetir.
Se me aprisionarem, voltarei todos os momentos lá,
mesmo que de outras formas.
Se me matarem, voltarei só para passar por lá,
novamente.

O ódio não me dá raiva, passa-me ao lado.
O que me dá verdadeiramente raiva,
acima de tudo
é a indiferença.

*

sono

Sonho que não tenho sono
E não me vou deitar
Na minha cama.
Fico apenas a pairar
Por entre os lençois
e as açucenas que flutuam
pelas minhas mãos
de éter.

As madrugadas não deviam existir.

*

bróculos

Um bróculo é um vegetal verde.
Da família dos camarões alados.
Estende-se pela praia perguiçoso,
e para os astros distantes,
que apenas o vêm de longe
maltratado pela distância
e pela indiferença.

*

ocupações

A minha cadeira está sempre ocupada
Mesmo que esteja vazia.
Vão e vêm perguntam por ela
E eu digo que está vazia

E dizem então deixo-a ficar
Pois o vazio é demasiado grande
Para alguém o ter que suportar.

E assim deixam-me a mim e à cadeira
A conversar. Num silêncio no meio do barulho,
desta conversa. Que não é assim tão insuportável.

Talvez seja até agradável.
Pois é preferível falar com uma cadeira vazia,
do que ficar preso ao lodo e morrer afogado.

*

o encontro do desencontro

Espero por ti apressado.
Não sei se chegarás. Podes ter adormecido.
Neste café agitado.
Estás aqui sem estar aqui.
Já não te sinto. Não sinto nada.
Não existo, apenas escrevo
Palavras sem significado.

Restou apenas a sintaxe,
do que poderia ter sido,
o que nunca foi.

Estamos apenas à deriva,
em sentidos extremos,
amalgamas de significância
Que se torna aprenas uma
fragrância de sonho e
de pó e de nada.

Vens a caminho.
Mas não te sinto.
Apenas as conversas apresadas,
de um fim de semana que tarda
preenchem a atmosfera desta madrugada.

*

5.6.09

reencontro apressado

Apareceste de repente do silêncio da noite.
Estava escuro, a pretidão englobava a nossa barca,
que no entanto era serena e ecoava canções de embalar,
e baladas de assassinios inexistentes.

Lembrei-me de repente da ponte, da água, da calma,
do teu abraço.
E chorei por dentro. E fiquei estranho. E triste.
Por uns momentos.

E depois talvez tenha entendido que este será talvez,
um amor errado?

E quando mais errado melhor sabe. Pois não há nada de
errado no amor.

Apenas é errada a sua ausência. Ou devia ser. Deviam
publicar decretos lei a impossibilitar, a ilegalizar,
a criminalizar o não amor.

Que é a ausência de ti. Aqui. Assim. Sabes?

*