6.6.09

manifesto da fome





A tua cela está imunda de escrementos. Dos teus escrementos.
Espalhados metodicamente em círculos concenticos. Pelas paredes,
espalhas a tua raiva. E a tua fome.

Quando chega a hora abaixas-te e urinas. A leve inclinação do chão
faz o resto. E inunda tudo num cheiro fétido. Cheio de raiva. E de fome.

Ergues murais com os restos de comida putrefacta. Para que as paredes imundas
não te surpreendam. Nem os diques rebentem. Nem os exércitos se aproximem.

Na janela tens um rombo. Por onde metes as mãos. Primeiro a esquerda. Sempre.
Com cuidado. Para sentires o vendo da liberdade a lamber-te os dedos.
E a atenuar as dores do corpo. E da solidão.

A tua namorada chega. Traz um presente na sua vagina. Retira-o devagar para ninguém
ver. Guardas com cuidado perto das virilhas. Para depois, mais tarde fumares. E cheirares intensamente. E te lembrares da primavera.

Enrolas com cuidado as páginas do levítico. Atento à guarda e ao sossego. Acendes um fósforo ainda impregnado do seu cheiro. Fumas o tabaco, inspiras a memória, acalmas e relaxas. Logo à noite olhas para o teu companheiro adormecido. Retiras a foto dela e excitas-te. E masturbas-te. E ninguém dá por nada. Nem ele. Nem ela. Nem tu. Apenas ficas com menos coisas a ecoarem pela tua cabeça.

Chegou o dia insuportável. A fome vem e tu vais com ela para onde ela te levar. Mais de dois meses é demais mas sabias que era assim. Já não há saida. Para a fome, ou para a raiva. Ecoam apenas duas coisas na tua mente. O cheiro da cevada, a sua ondulação, o barulho que faz ao ecoar no vento. O ventre da terra. E a causa. A tua causa. A tua pátria. O teu lar. A tua ilha. Unida enfim. Para sempre.

Adeus. E boa viagem.



Fome, Hunger, Anger -

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