11.12.11

o rio

Estamos à beira de um rio. Está escuro. Vemos as estrelas que brilham no alto do céu.
Não nos reflectimos nas águas, pois são outros os reflexos, os tempos, as vontades.
Um pouco mais abaixo o rio muda, fica incerto, inconstante, tempestuoso.
Depois separa-se, e transforma-se em dois quando antes era apenas um.
No entanto ele, o rio, continua a fluir e continua a ser ele próprio só que não sabe que o é.
Pensa que é dois. Pensa que está separado. Pensa que se afastou do que era.
Pressente então que algo está errado e procura o erro.
Procura por todo o lado, em riachos, infiltrações na terra, evaporações para o céu.
Expande-se e procura por todo o mundo, todo o céu, todo o universo.
E um dia finalmente entende e olha para dentro.
E encontra o que procurava.
Mais abaixo o rio volta a ser um só. Como sempre foi.

*

21.8.11

para ti

Queria escrever algo para ti, mas tenho medo de não estar à altura.

Chegaste de repente, sem te esperar. Vieste e afirmaste a tua luz.
Tudo o resto escureceu à tua volta, e desapareceu por uns instantes.
A luz, a lua, a bonança dourada de todos os momentos,
percorreram por um instante a tua pele.
Estava frio. O lago prateado ondulante,
cantava baixinho para nós.

Tudo o que resta é o caminho d'ouro,
e os liames apressados entre vós.
Apenas a escolha é ingrata e algo insana,
mas necessária.
Tudo o resto são insignificâncias, pequenas coisas, pormenores.

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As ruínas em fogo de outros tempos
Abrandavam a sua vinda entre nós
Estavam apenas ausentes uns momentos
Para depois ressurgirem transformadas
Do outro lado em flor, adormecidas,
quase acordadas,
lembrando o renascer de outro porvir,
que ecoa nas águas sublimadas,
e entretanto esquecidas, maltratadas.

Quando o ácer vem e a glória cresce
por entre as ruínas já passadas,
nasce o homem e um outro acontecer
espera pelas noites assombradas.

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Quando te apressas pela amurada fora
E tudo o que cresce em ti são sementes de ouro,
Trazes o teu coração em fogo,
e as crisálidas em ti ondulam esperança.
Tudo o que resta são auroras de bonança.
E todo o amor que tens para dar.

*


20.7.11

tu e eu, A. e V.

Dançamos. (Isto já chateia, é sempre a mesma coisa! :) )

Dançamos e dançamos e dançamos. Sobretudo mazurkas, algumas scotishes.

Abraçaste-te a mim e continuaste a dançar. Tão perto, tão dentro de mim. Voltaste a abraçar-me. Disseste que esta dança te fez tão bem. Olhamos um para o outro mesmo quando estamos a dançar com outros pares.

Cheguei perto de ti. Levantaste-te e olhaste para dentro e eu para dentro de ti, falámos sobre muitas coisas. Dançamos mais uma vez.

Quase no fim, falei contigo e foi tudo tão fácil e tão fluido e tão natural.

Convidei-te para sair e disseste-me que não o podia fazer sem saber o meu nome. Apressado, atrapalhado, perguntei como te chamavas. Tu perguntaste o meu nome. Eu disse o meu nome e tu disseste o teu.

E disseste: agora podes convidar-me para sair. E eu disse, queres sair comigo? E tu disseste, sim e sorriste, como fazes sempre quando olho para ti.

Estou tão feliz! Tão feliz que nem consigo descrever o meu estado de felicidade :)

E eu a pensar que nunca iria escrever aqui coisas tão boas como esta.

Claro, foi muito mais bonito que o que escrevo aqui mas enfim, fica esta impressão do momento. Talvez mais tarde escreva melhor.

Do baile mais fantástico de sempre...do sempre deste momento...

Se tudo correr bem, talvez não volte a escrever aqui. Deixo para sempre as coisas bonitas e tristes. Mas não se preocupem, porque é sinal que estou muito feliz :)

Ou talvez...talvez...passe a escrever coisas bonitas e alegres em vez de coisas bonitas e tristes...

Vamos ver. Tenho que ir agora.

P.S. - Ela mandou-me uma mensagem já! E eu a pensar que só ia mandar na sexta... :D Ai...o meu coração vai explodir! :D

Até breve!

*

17.7.11

miss Bowie

Ainda não escrevi nada para ti. Talvez ainda não tivesse tido o tempo para assentar tudo o que me deste.

Estás longe, tão longe. Estás aqui, dentro, tão dentro. Estás longe. Só aqui estás em memória, sonho, pedaços de nuvem. Onde estás mesmo?

Eu sei porque não escrevo. Porque não há nada para escrever, é tudo demasiado real, demasiado intenso, demasiado tudo. Lembro-me apenas do cais, das coincidências, das mãos nos teus ombros, de te inclinares para trás e de te abraçar. De todos os pequenos momentos, insignificantes, guardados no tempo, imutáveis, momentos de luz e de glória, de eternidade e de infinito, de pura felicidade.

Por momentos deixei de saber quem sou, não me sentia mais. Sentia-me algo mais, sentia-me nós. Assim. A nossa energia, o nosso caminho, a nossa vida. Tudo fazia sentido.

Foi pena que tudo fizesse sentido apenas para mim. Para ti, um beijo foi só simplesmente um beijo, um abraço, um abraço. As linhas que fluiam terminavam todas ali. No cais, nas águas, no relento. Não havia abrigo ali. Estávamos molhados, mas tu tinhas uma toalha para te secar. Faltavam raios de sol.

Nunca me vou esquecer de ti Selah. Abriste-me os olhos. Nunca mais os vou fechar. Apesar de querer tudo, agradeço o que me deste, e o que me deste é tão raro, precioso, único. Nunca o vou esquecer. Estarás sempre aqui. Por dentro estás do outro lado, deste lado, em mim.

Talvez um dia vá ao outro lado. O teu lado, em ti.

*

tu

Dançámos. Um momento inesperado. Não esperava encontrar-te assim. Não sabia de nada, esperava apenas nada.

Sorriste ao longe, sorri também e ficamos no olhar um do outro.

Estavas acompanhada. Num último momento estavas perto de mim quando tudo começou e não foi preciso dizer nada. Caiste nos meus braços e dançámos.

Porque és tão perto de mim? Apertas-me forte e sinto-te dentro de mim. Estás aqui, do outro lado. Mudas de posição, quase que te beijo a testa, mas esperei por um outro momento. Fechas os olhos e estás aqui novamente. Olhei para baixo, para ti, mas estavas em transe. Estavas do outro lado, dentro de mim. Continuas tão perto e a música continua, rodamos um pouco mais, enroscas-te em mim e dizes, sem eu ouvir, que me queres amar.

A música chegou ao fim e foste embora. Ficou tudo suspenso no ar. Ficou tudo em potência.

Até breve menina. Serão eternidades? Esperemos que não.

*

16.6.11

selah

É isso. Tempo de partir uma vez mais. Tempo de dizer adeus sem querer dizer adeus. Tempo de despedidas indesejadas.

Nunca te irei esquecer.

Adeus.

12.5.11

o regresso

O regresso está aí. Ao virar da esquina. Mais uns dias e vou-me, regresso ao ponto de partida, parto para regressar.

Não sei o que dizer. Não há retrospectiva a fazer. É cedo demais para sínteses. Ou para deglutições apressadas.

Correu bem, mas estou insatisfeito. Não sei se cada vez mais, se mais do mesmo. Foi uma experiência importante de qualquer forma.

Fazes-me falta e esse é o problema. A tua possibilidade viaja longe, a mais de 10.000 km de distância. Demoras mais de 10 horas a cá chegar. A lá chegar. Estás longe. Ainda mais longe te encontrei, numa fronteira esquecida nos confins do mundo, a mais de 5000 m de altitude.

Tenho saudades tuas. És uma desconhecida que eu conheço tão bem e que quero rever ontem.

Que impaciência. Não sirvo para esperar. Dói-me o coração quando penso em ti. É difícil ligar-me com este mar entre nós. Nem sei se há mar. Não sei se há nós. Há apenas brumas e possibilidades e esperança.

Este sem sentido mata-me. Detesto que sejas tão importante. Tornas tudo demasiado intenso, demasiado perto, demasiado...doloroso. A tua batina cai e eu estremeço. Não sirvo para padre. As cerejas são demasiado apetitosas para o inverno. A neve vem e cobre tudo de branco. As cerejas são boas geladas, no meio da neve.

Quando vens? Quando voltas ao lugar que nunca estiveste? Quando te verei? Qual é o prazo de validade para tudo isto?

Dança-se muito, demasiado. Não há retorno. A dança cansa-me, torna-se aborrecido. Por vezes quero desistir. Deixar tudo para trás e começar de novo. Regressar ao início. Voltar.

Voltar.

*

21.1.11

o outro lado espera-te

Enviei a carta. Espero pela resposta. Espero que saiba a mirtilos. Selvagens.

Terei de os colher, no alto das montanhas. Onde tu habitas.

Tenho saudades tuas.

*

20.1.11

o contacto perdido

Dançámos. Já tinhamos dançado antes assim. Tão juntos. Ela diz-me em francês, algo como: gosto mesmo muito de dançar contigo. Foi bonito. Fechei os olhos durante muito tempo. Ela ainda lá estava agarrada a mim. Continua a ser bonito. Muito. A música contínua, nós também, sempre tão juntos. A música acaba. Alguém se intromete e ela parte. Nesse momento guardei-te no meu coração.

Algum tempo passa. Aproximo-me. Abraço-a. Ela abraça-me também. Quase que a beijo. Quase que ela me beija. Ela olha-me atentamente. Eu olho para dentro dela. Sorrimos. Esperamos pela próxima dança e não é o que esperávamos. Dançamos na mesma, improvisamos. Pego-lhe com força e dançamos agarrados um ao outro. Aperto-a. Ela aperta-me. Continuamos mesmo que não seja a melhor posição para dançar. Não conseguimos dançar de outra maneira. Parece um momento eterno e ao mesmo tempo extremamente fugaz. O momento termina e ela foge. Diz: vou dizer olá, e parte.

Volto a vê-la na hora de partida. Vou ter com ela e falo-lhe da casa. Da casa dela. Ela vai partir, fazer woofing. Falo-lhe do woofing, e de tudo isso. Ela vai viver para longe. Diz que vai construir casas, falamos das casas a construir. Falo do Brasil, da bioconstrução. Temos coisas em comum, conversa. Tivemos que partir.

No derradeiro momento, lá fora. Ela aproxima-se outra vez de mim. Sorrimos. Abraçamo-nos com força e damos dois beijos quando queriamos dar um só. Dizemos adeus, até um próximo baile quando queriamos dizer: vamo-nos encontrar e fazer amor.

Não sei porque não lhe pedi o contacto. Ela também não mo pediu. Eu funciono ao retardador, só entendo quando é tarde. Agora estou chateado.

Mas foi bonito. Foi tão bonito! E quem sabe se não nos encontramos outra vez. E aí acho q não vou deixar que seja assim novamente. Sempre podia ir lá ter com ela, onde quer que ela vá, um fim de semana, o que seja!

E assim ficou o meu contacto perdido. Darn. Era demasiado bom. Tão bom. Fica em segredo nos sonhos e aqui.

O mais engraçado é que foi na mesma casa que conheci a amiga dela que também partiu. E com ela também aconteceu algo semelhante. Curioso. As mulheres partem, eu fico. Um dia uma delas também há-de ficar e partir comigo. Que isto de partir e chegar não tem fim, permanecer é uma miragem bem ao longe, no horizonte.

*

16.1.11

...mas o pior de tudo é esperar por alguém que nunca vai aparecer.

até podemos dar o que não temos, mas nunca poderemos dar o que não temos a quem não precisa.

apetece-me tarte de mirtilo. estou farto de iogurte. tanto faz q seja de morango ou framboesa.

O amor é dar aquilo que não se tem a alguém que não precisa dele

Hoje vi o filme que guardei para ti. Era mais que tempo de completar a saga Wong-Kar Wai. Nunca comi tarte de mirtilo, apenas iogurte. Será bom?

Tem piada como o amor pode ser assim. Partem-nos o coração e não conseguimos pensar noutra coisa. Encontramos a pessoa certa e partimos à procura dela.

A diferença é que no filme encontramo-la quando chegamos, na vida já ela partiu há muito tempo. Ninguém espera por ninguém, porque razão haveria de esperar por ti?

"How can you say goodbye to someone you can't imagine living without?"
"I didn't say goodbye"
"I didn't say anything"
"I just walked away"
"At the end of that night I decided to take the longest way across the street"

Na minha versão: How can you say goodbye to someone that you never knew but you're madly in love with?". Claro que não é assim, mas faz de conta, é mais bonito...e mais doentio.

"It took me nearly a year to get here"
"It wasn't so hard to cross that street after all"
"It all depends in who is waiting for you on the other side"

Sim, é tudo muito bonito. What if there's no one waiting for you on the other side? Pois é, fica tudo estragado, de que adianta fazer tartes de mirtilo para quem nunca chega? E no entanto, no entanto, continuamos a fazê-las............"It's just how it goes.......the story all have been told before..." ou melhor dito: O outro lado é mais bonito? Afinal sabe a framboesa ou a mirtilo? Se descobriste diz-me.

Adeus menina. Felicidades e bom ano.

6.1.11

o regresso.

Voltei.

Não sei o que escrever. Custa-me voltar. A sensação de nunca te encontrar queima-me a pele. A escrita já não é o que era, apodreceu, tornou-se pálida, encarquilhou com o tempo, despega-se de mim, gasta, seca, fragmentada.

O que me custa mais é não estares aqui. Mas isso já tu sabes. Sempre soubeste. Eu tento sempre convencer-me do contrário. De que não existes. De que não és nada para mim. Fazes-me falta, não te encontro em ninguém, percorro ilusões, umas atrás das outras, e farto-me.

Hoje estou cansado de te procurar. Quero descansar de ti. Estamos tão longe um do outro. Estaremos? Eu sei que amanhã continuarei a minha procura, mas hoje não. Sinto-me demasiado só para procurar, preciso de me distrair, de dispersar, recomeçar de novo, e amanhã é dia para voltar. Hoje não. Hoje estamos no limbo, na dúvida, na introspecção de todos os momentos não vividos. Restam apenas lágrimas de crocodilo de barriga cheia. O ventre está cheio de coisinhas inúteis, pré-fabricadas, que nos fazem consumir pelo natal. Não sei mais o que digo. Nunca estou satisfeito. Por vezes até fico insatisfeito antes de o estar. Antes de te conhecer, já sei que me vou separar de ti. Porquê? Talvez esteja apenas confuso, não sei o que digo. Tenho sempre uma razão para dizer não, mas nunca digo que não antes do sim, e isso confunde-me, apesar de me libertar. Só entendo quando estou dentro de ti. E depois vou-me embora. Vou-me embora de ti, de mim, e continuo a procura. Já não sei bem de quê. Talvez de nuvens no ar que sugerem formas e nomes e lugares e que se desvanecem num momento.

Tenho saudades disto. Um dia hei-de continuar por aqui. Quem sabe se amanhã?

*