22.1.09

me encanta quando hace frio II

A semana eterna. Que aí vem.

Conta-me um conto bonito. De amor. 

*









20.1.09

aos papéis


Vento circular, norte noroeste. 
Dentro de ti.
Vivo aos papéis, como se isso fosse vida.

Perpendicular ao norte, o vento quente vem. 
Atravessa uma linha de ouro, um mármore em ferida.
A cicatriz branca que ainda não sarou, 
traz memórias de outros, que também são as minhas.

O eco de improviso.
O descalabro de todas as palavras.
O som e o sono de uma vida mais que vida.
Mais do que um sorriso. O teu sorriso. 

A tua pele, flor madrugadora da esperança.
Renascida. 
Infinitas vezes nas costas escrevo o teu nome.

E não conto nada a ninguém. Nem a ti.
Não me deixas contar.  Nem tu sabes porquê.

Um dia saberás...

Nem eu. Mas um dia saberei. 

E nesse dia a esperança será claridade vertical no azul profundo do mar.

17.1.09

à espera da roupa que não chega

Quando não se tem roupa não se faz  nada.
Baralha-se o dominó e volta-se a dar. Embaralha-se. Enrola-se. Encrusta-se. Encarrapata-se.
Espero pela roupa do amanhã, hoje. Hoje, já agora. Sem roupa não posso sair, mesmo que não possa sair. Espero e espero e espero mais uma vez. A roupa não vem. Tenho fome. Mas como posso comer sem roupa. As janelas estão abertas e as paredes também. Não há mais intimidade, privacidade, propriedade. Caput. 



tu e a papelada


Demasiada papelada entre nós os dois.
Tudo diz que sim, tu dizes que não. Eu entendo que dizes que não, mesmo que não o digas.
Fico confuso. Por vezes. Aproximas-te e afastas-te. Eu fico aqui. Passivo. Por muitas e infinitas razões. Não tanto assim, talvez. Mas quando a papelada é muita e o tempo custa a passar, convém arranjar desculpas para dar um suspiro. Às vezes é preciso dar um suspiro. Por vezes é preciso esperar, mesmo que não se saiba esperar. 

Não gosto de incerteza. Não gosto de ser estrangeiro. Acima de tudo não gosto de dormir nesta cama demasiado grande para mim. Apesar de gostar de me abrir em cima dela. Não é a mesma coisa. Assim não posso cair. Tenho sempre algo que me segura. Como as abas das camas dos bebés. É tudo demasiado seguro e demasiado incerto.








8.1.09

o oito deitado

Podias dizer 'Um oito deitado'.
E adivinhavas a minha idade.
Mas não. Para ti é tudo igual a partir dos vinte.
Mas não me achavas imortal.
E assim fica o oito de pé, ao pé de um dois talvez.
Mas de que lado?
Um arremedo de infinito a tocar-te os pés.
Um momento breve num contínuo maior.
A discrição das rosas inflamadas de vermelho.
O tangível tão forte da luz de um dia de verão no hemisfério sul.
A tua roupa que cai sobre o meu rosto.
Quase infinito.

a passagem de ano sem mim

Hoje passei a passagem de ano sem mim.
Como assim?

Foi a dri que disse. Passei a passagem de ano sem mim.
E desapareceste?
Sim, agora sou eu sem eu, disse a dri.
E quem mais?
Não sei, talvez tu.
Assim.
Ela diz: Parece que não ouço, não vejo, não sinto, não me mexo.
E eu: Então não passate de ano. Quem passa o ano que não parece, desaparece.
Deve ter sido isso. Desapareceste a mais e agora és o que não és.
E ela: Sinto-me bem sem mim.
És um solilóquio. Só pode.
Talvez não, diz ela.
Mas dançaste?
Dançei. Sozinho. E tu?
Não sei. Desapareci.
Isso. Já me esquecia que não eras tu.
E tu? (mais uma vez).
Queria dançar acompanhado e dancei sozinho.
Não tive coragem no meio de tanta gente...de te convidar.
Mas como se não havia dança?
É...não havia dança para dançar. Só para agitar o corpo. Gestos somáticos perturbáveis.
E depois?
Depois nada. Conheci outra pessoa e separei-me dela quase ao mesmo tempo.
Espero agora outra madrugada, outro novo ano. Algo.