21.9.09

fuga com linhas a mais

Venho para a cama e esqueço-me de escrever.
Ou da vontade de o fazer. Mas depois lembro-me.
Acendo a luz. A outra luz. E esta máquina de escrever.
Paro para ler, para ver o peach, plum pear.
Lembro-me de ti, aqui. Há tão pouco tempo que parecem anos.
Hoje respondeste, embora a resposta que esperasse não fosse a tua.
A tua resposta esperava eu, dissemos adeus, até nunca mais.
Ficamos inertes por fim. Cinzas apagadas, frias.
Tenho saudades, mas de quê?
Até o respirar se cansa. Talvez não consiga suspirar.

(por vezes há esta angústia que não é angústia,
talvez seja...medo?)

E se não sair nada? Afogo-me no ar que não respiro?
Porque não inspirar tudo de uma vez?
E o que resta?
Ainda não é desta? Mas o quê?
Que confusão, desilusão, abstracção!
É isso, o amor é uma abstracção.
Uma contradição sem sentido nem forma.
Abstrai-se a ele próprio e explode e implode
Ao mesmo tempo da mesma maneira,
de maneiras totalmente diferentes e opostas.
E renasce e morre e é e não é, nem deixa de o ser.
E agora, repete, reinicia, recomeça.
Tudo aponta nessa direcção.
Qual direcção? Todas.
Mas não. Que confusão!
Tens sono? Sim muio, demais.
Já não sei o que escrevo, é tudo demasiado sedoso,
sabe a vale de lençois.
Resta apenas uma lembrança que nunca existiu.
Daquilo que nunca foi. Ou será.
Ou será? Talvez. O que é é que não é de certeza.
Por vezes gostava que a casa inundasse.
Para poder dizer 'quando choramos podemos aliviar a nossa dor num lenço,
mas quando uma casa chora dá muito trabalho!'

*



20.9.09

bolhas

Quando as bolhas rebentam, o coração rebenta.
Não há grande história nem grande segredo.
Faz 'plop' e já está. Nada mais.
Mesmo quando não temos consciência delas.
Ardem no peito, não fazem cócegas, tiram o ar que resta.

E o que resta afinal?

Resta uma história por contar que não sai.

Ou talvez saia após uma pequena introdução, um imbróglio de palavras obscenas.
Eu gosto de coisas obscenas desde q sejam bonitas. bonitas bonitas. Batraqueais.

Embora me esteja a batraquear para o bonito, mas não para o bonito bonito.
É a insenstez da impaciência ou o insustentável peso das coisas que não existem?

Por vezes custa a desencravar, não sai nada durante um fim de tarde de domingo.

Estou impaciente porque ela não escreve. Resta saber quem. qual. onde. por onde andas?

Não há valsas nem mazurcas contigo. Não sei o que há.

Só vejo o mar e um fundo dourado em ti. E uma dor forte no peito.

Não sei que diga a respeito, apenas vejo lilases onde não devo.

Quem quer que tu sejas, sabe que me fazes falta e que tenho saudades tuas.

Os suspiros ajudam, no entanto, a afastar o pó, a fazer cair o pano. A esquecer,
aquecer os pés dos pulmões em dia de primavera.

Ou de outono, tanto faz.

Os dias arrastam-se e não vens. E as bolhas crescem e rebentam. E eu com elas.

São muitas, são nenhumas. São elas e eu. Sou eu.

Não é ninguém, afinal.

E agora?

*

10.9.09

o indefinível corroer da tristeza refinada

A tristeza escorre. As palavras fundem. Tudo se corrói.
Ao vento o ar. Desalento precoce. Turbilhões de um dia.
Melancolias verticais no vento. O soluçar de um momento,
que esperaria que fosse em ti. Que o perdesse. E o voltasse a encontrar.

Perco-me então numa almofada vazia e não te reencontro lá.
Talvez seja da posição ou da perspectiva ou simplemente da tua inexistência.
As tuas palavras são enigmas e eu não sou esfinge dourada.
Apenas alguns caminhos o são. E nunca sabemos onde vão dar.

Avanças lentamente por entre as pedras em lodo, mas não cais.
Está demasiado frio para cair e o gelo abunda, mesmo quando está calor.
E a angústia vem e fica apenas o plano infinito e o vazio. E o teu olhar.
E tudo se dissolve algum dia, quando as açucenas sopram e o ar é uma flor inventada.

Trocas as voltas ao meu coração. E é algo inesperado, que não contava. Porque não.
Aprendo a construir o amor, a não o deixar dominar-me. E no entanto, ele domina, por vezes.
As lágrimas ecoam memórias passadas e repetições inúteis. E a tristeza,
é um peso morto. E corrosivo. E inútil. E repulsivo. As entranhas gritam dentro de mim.

E a lua cheia, e os odores, e as voltas de danças. Tudo são formas em forma de véu.
Que nos transpira a vida e cobre o que está por vir e o que é. São apenas açucenas. Bravias.
E memórias que nos trazem algo mais que pão. A vida é pão?
Se assim é, prefiro pão de ló. E tu?

*

1.9.09

esquecimento

esqueceste-te de mim
e eu esqueci-me na sala escura
do presente que tinha para ti.
ainda assim invades-me.

sinto algo indefenido,
coisas sem forma.
alguma amargura,
o resto talvez tristeza,
mas não assim tanto quanto isso,
nada de mais pois estás aqui
permaneces, estás presente.

O teu gosto é ainda incompreensível,
não entendo como gostas.
Eu não sei se gosto.
Talvez não saiba gostar.

Ou então é a incerteza
e o esquecimento
que me fazem vacilar.

Há esquecimentos difíceis
em especial naqueles momentos
que esperas que tudo aconteça.

Mas ainda há dia
ainda há dança
ainda há lua
não se apagaram ainda os fogos
nos teus ombros,
nos teus olhos,
nos teus seios.
ainda está tudo em aberto.

E vem aí a viagem. A grande.
E os dias passados
a ver o rio a passar
e nós a passar o rio
que se atravessa em nós
e as danças e os foles e a comunhão
e tudo o que nós quisermos juntos,
que não fique nada do lado de fora
que venhas então para aqui,
onde te espero
do outro lado.

*