23.8.08

a carta que não chega

Espero pela tua carta que não chega.
Antecipo os cheiros e o toque das palavras
e talvez algo mais...
Desço as escadas, abro o correio
E nada.

Nem uma ausência perfumada
contagia o ar que rodeia a carta
que não existe.

Espero, continuo a esperar.
Imagino desfechos inéditos
para as minhas cartas.
Para as tuas.

E o nada continua a ser nada.
Não se transforma mais
no que não é.

*

O amante

http://www.myspace.com/groupeestrad

J'ai fait une maîtresse - Estrad

J'ai fait une maîtresse
Trois jours y'a pas longtemps
Mais c'est quand je vais la voir
Qu'elle m'y invite à boire
Du meilleur de son vin
À ta santé, catin

À ta santé Lisette
À ta santé je bois
Si tu n'étais pas si jeunette
Je te parl'rais d'amourette
Attends encore un an
Je serai ton amant

Le bonhomme qu'est aux écoutes
Entend ce discours là
Ma fille en mariage
Elle a reçu tous les gages
D'un autre amant que vous
Galant, retirez-vous

S'il faut que je m'retire
Je me retirerai
Dans un couvent d'ermites
Pour l'amour d'une jolie fille
J'irai finir mes jours
Adieu donc, mes amours!

L’auteur de cette chanson
C'est un p'tit cordonnier
Assis dessus sa selle
En cousant sa semelle
Réparant son talon
Excusez la chanson

*

19.8.08

segunda

Estás em viagem. Continuo aqui.

Palestras de ouro. Ansiedades várias.

Ainda não chorei, um luto sem choro não serve.

Espero que sirva. Não interessa.

Tu interessas. Eu, tu, nós. Assim.

Pele insosa. Preciso de sal, de sol. Do teu.

O mar. Ecos de ti.

Tenho saudades de o percorrer. Navegar no desconhecido.

Conhecer novas paragens. Em cada pequeno gesto, em cada som quase imperceptível, no amanhecer dos teus olhos, o mar.

*

17.8.08

Nantes @ Paris




Well it's been a long time, long time now
since I've seen you smile
and I'll gamble away my fright
and I'll gamble away my time
and in a year, a year or so
this will slip into the sea
well it's been a long time, long time now
since I've seen you smile

nobody raise their voices
just another night to mourn to
nobody raise their voices
just another night to mourn to


Nantes - Beirut

amanhã é domingo

mas não é domingo no mundo
é apenas uma desculpa para uma despedida adiada.

tantos dias cá e eu à espera.

embora saiba que eram só mais uns dias,

sinto-me oprimido, mesmo assim.

não te sei explicar. só queria estar contigo mais um dia.

um abraço que tarde em partir, um momento mais de infinito.

custa a passar, os fátuos, evanescentes de memórias de ti.

Sento-me na areia e vejo-te passar, fechando os olhos, saltas pelos rochedos e vens até mim.

E uma tristeza invade-me quando não te vejo de joelhos na areia, os teus olhos.

O teu si, o teu braço que prende a minha mão, o teu portuguÊs em francês.

O teu tudo teu.

Viro-me para o outro lado e choro. Ou assim o faria se o conseguisse. Está demasiado salgado este mar para choradeiras. Tenho de beber mais água, com tanta correria fico desidratado de ti.

Contradições, eu sei. afinal sei porque corro e desidrato. Preciso de respirar enfim, antes do sufoco.

Está frio aqui. Porque não me vens visitar? Encontramo-nos a meio do caminho?

No meio do nada. As ervas crescidas. Sem música desta vez. O silêncio barulhento dos bichos da natureza. as estrelas. cadentes.

o teu riso. tu.

*

16.8.08

saudades. muitas.

Espero que passem. Corro e corro. E ela liberta-se, mas volta. Como um boomerang mal recebido. mal arremessado?

Às vezes sinto q devia ter feito as coisas de outra forma. Afinal tinhamos mais uns dias. É difícil assim. Tenho mesmo muitas saudades tuas. Se não fosse embora....grrr...

e cada um vai embora para o seu extremo...mas ainda é cedo. demasiado cedo.

espero que do outro lado seja mesmo mais bonito. não. tenho a certeza que é. pelo menos tenho essa esperança.

desabafo. suspiro às pedras, à areia, ao mar calmo que puxa por mim. hoje exagerei, o mar soube bem, faltavas tu. respiro fundo e fecho os olhos.

...e é apenas mais uma onda a beijar-me o corpo.

na segunda resigno-me. por agora suspiro.

queria-te tanto ver, tocar, sentir o teu calor dentro do meu, fazer-te vir baixinho como dantes, dormirmos juntos. acordarmos juntos. vivermos juntos, nem que fosse por mais uns dias. por mais umas horas. por mais uns momentos.

hoje fui correr demais e fiquei alto. tão alto. tão solto. mas depressa tudo regressa. regressam os suspiros, as saudades, o não-tu. o que não está aqui a ocupar um espaço oco ao meu lado e a fazer-me peso.

está na altura de me despedir de ti verdadeiramente. definitivamente. não adianta estar a adiar esta agonia. dizemos adeus e pronto, não pensamos mais nisso. é difícil.

amanhã vou correr se as pernas deixarem. faltam os alongamentos. talvez o mergulho tenha sido suficiente. a água estava viscosa ou estarei eu?

estavamos cansados. só tenho pena de não ter ficado mais uns dias. tiveste medo?

tenho milhões de coisas para dizer e sai tudo torto. encravado. estropiado. a tua tela rompeu-se um pouco. nada que não se repare, dá trabalho. não há-de ser nada.

estou cansado. no físico. doeu-me o peito hoje, um pouco. são as saudades a sair.

*

12.8.08

pour S.

Surgiste inesperadamente de dentro da noite.

A princípio confundi-te com alguém conhecido, depois atrapalhado afastei-me.

Mas tu não.

Ao despedires-te ias-me beijando. Não percebi. Logo.

Na noite seguinte abracei-te e prendeste-me a mão. De mansinho. Tive dúvidas.

Pouco depois deixou de as haver. Apenas te vi no meu regaço, por entre as árvores e as ervas frescas crescidas, ao longe luar e música e dançarinos de pés descalços.

E nós sem tempo nem espaço nem absolutamente nada. Ali apenas. Nós.

Assim te conheci numa noite de andanças várias.

Tudo tão simples que julgava impossível assim ser. Ou acontecer.

E agora, mesmo agora, ainda tenho saudades de te conhecer.

Ficaremos por aqui...?

*