25.12.09

o horizonte dos mármores incandescentes

O portal das palavras incandescentes renega o seu sentido áureo, quando se translada lentamente para o zénite, para o chão. As tuas marcas permanecem no mármore, a sangue, nada as lava senão as lágrimas que cairam da tua face cor de mel naquele dia, no último dia do nosso reencontro. Estávamos os dois na falésia a ver o mar, em silêncio. As ondas murmuravam entre si e encontravam-se de cada vez com mais vigor. Tudo marulhava. As gaivotas tinha ido para longe e tu para perto de mim. A maresia transformava o mar em névoa e arco-iris tamanho micro. Andámos para longe, voltávamos do mar, e o mármore caiu em ti como uma tumba egípcia. O atoleiro dos últimos faróis. A grinalda no ar do vento e as tuas marcas no chão de mármore. Desapareceste enfim entre os últimos murmúrios do mar revolto. Ele veio e retornou contigo, e nunca mais te trouxe. Regresso muitas vezes ao mármore e lembro-me de ti nas tuas marcas e no teu sangue. Nasce em mim um rubor incandescente, aqueco-me por dentro, solto uma lágrima de esperança. Que o mar te traga em boas mãos.

Dizem que as sereias não regressam nunca. Eu acredito que um dia voltarás.

*

21.12.09

a passagem

não sei o que escrever. sinto apenas inquietação, desassossego, gavetas dessarumadas. O som da chuva ecoa pela casa e desmonta os parafusos um a um, ainda não chorou novamente, não tarda muito. a agua escorre pelas veias das paredes e acumula-se num canto perto da janela. lentamente inunda tudo sem escorrer.

vejo as tuas fotos e lembro-me de tempos felizes. tu, o sol, e eu ali, apenas ali, apenas existindo nos teus braços.

as saudades matam-me. aos poucos. devagar. não nos entregam de uma vez à morte. só tu sabes fazer isso, é um previlégio só teu. não tardas muito voltarás e dir-me-ás o segredo da vida e da morte, da existência.

os nenúfares são violeta no inverno. não há paragem de autocarro dentro do autoclismo. tudo se revira entre dois êmbolos de esferovite. tudo se desobora e se desfaz. jazes no chão, és plástico em borbulhas. não te trairás pela vida. tornas-te apenas alado, abençoado, ascenderás aos céus e dirás: eu sei o segredo da vida.

As ruas estendem-se pelo chão. Não há sinais de embolos, apenas estrada intermitente, alcatrão suado, nuvens reflectidas nele como ambrósias. daquelas que tu gostavas, azuis e amarelas. não trazes nada no teu ventre senão cobre. és feita de duas ligas de metal e estanho fundido. não te tornarás lava incandescente. tudo o que resta é o caminho da estrada da rua do local que vai dar a outro local um pouco mais além há sempre outro mais caminho.

não tardam as libélulas de luz. vêem-nos buscar antes do solestício de inverno. a rapina é apenas água e o borbulhar das ondas não existe. vem-nos buscar antes da solidão. O rio é tão translúcido e os peixes voam. Não tarda o anoitecer. Fica frio. Vem para perto de mim. Não há ruas que não acabem em vielas, ou até em becos sem saída. E depois? depois és parede. de betão. feita de argamassa sintética e de resíduos tóxicos industriais. não tardas na tua epopeia industrial. fazes de conta que és um cavalo de cordel e avanças, sabendo que não te espera senão o impacto inevitável de dois corpos em colisão. atravessas a rua e ficas esperto. entendes o que está do outro lado. não te tornas salmão, nem mesmo salmonela, apenas ficas diferente.

Os raios ecoam memórias de um outro passado. O que existe apenas do outro lado. A viagem continua por entre as lavas e as etiquetas de supermercado. Não há nada que nos espere do outro lado. Haverá? Gritas e ouves o teu eco. Ruminas baixinho para ti, esta vida não existe. Há algo de estranho nas formas, nos ecos, nos amores. Tudo parece demasiado ilusório, demasiado real. Não há descontinuidades no relevo aparente das coisas. Apenas sentes a prisão e gritas para dentro. E dizes: a prisão é gelatinosa. És uma fábrica de fermento. Não cuidas das auroras que passam em cada momento e dizem: o sofrimento é uma flor inventada.

As rabecas ecoam pelo chão da estrada. Ouvem-se como se fosse motores de carros de alta cilindrada. Não ouvem, não temem, não cheiram, não formam pesadelos de algodão doce. Existem apenas ali, planas, desconjuntadas, numa harmonia desafinada. A tua flor de liz já não se vê, do teu ombro surgem agora auroras perfumadas. E elas dizem: o que era deixou de ser. não mais o é, transformou-se em algo outro. Não há transformação sem a passagem. Ao outro lado.

*

16.12.09

l'amour



:)

aquilo ontem foi complicado....! :P fugiste...mau. que faço eu com tal intensidade??? *sigh*

Vem aí a passagem de ano...dans coimbra, bien sur... ;) Até lá ...

*

13.12.09

aquele momento

Escreveste,


"The waiting drove me mad... You're finally here and I'm a mess. (...)

Everything has chains, absolutely nothing's changed"


Eu não percebo nada de Pearl Jam, mas não vejo correntes nenhumas.

Por outro lado, tenho o hábito de ver coisas onde elas não existem...para minha infelicidade.

Mas hoje não me sinto infeliz. Gosto de dar. De me dar. Não me arrependo de nada. :)

Há momentos tão bonitos que não podem ser falsos. E é tão bom sentirmos que fizemos o que devíamos.

Apesar das sombras, e dos medos, e das ilusões.

Obrigado por aquele momento tão especial. Não o esquecerei.

*

12.12.09

o lado menos bonito

não esperava sentir dor quando te vi.
estava cansado, frágil. queria estar só.
acabei por sair, por alguém que já amei
intensamente.
batatas. trocar batatas por laranjas.
nada de mais. coisas bonitas,
framboesas. das vermelhas. e figos. maduros.
quando te vi, soube a razão
de nunca mais termos falado.
e é uma boa razão.
por isso não esperava esta dor.
ainda não entendi sequer o que estava
escondido aqui dentro.
ela chegou atrasada. muito. eu frágil, cansado.
tu chegaste logo depois. ela deixa-me sozinho,
já não é a primeira vez. muito cansado. triste.

não mo apresentaste. coisa estranha.
e é tão bonito, não podia vir na melhor altura.
e isso faz-me sofrer.
talvez seja uma mistura das duas coisas.
nem sabia que tinha isto aqui guardado
dentro de mim. e não entendo, não há razão,
nenhuma razão. talvez me faças lembrar
como as coisas mudam à minha volta.
um ponto de referência, um momento
de retrospectiva. não será em vão.
prometo-te que não será em vão.
nada será em vão.
e é tudo tão rápido. e é tudo tão distante.
e é tudo tão grande, o absoluto.
porque quero tanto o absoluto?

As condeixas planam no largo horizonte
Nos matízes ébrios do romper da noite
Ébonas sombrias correm pela praia
Dentro da amurada sombras fortes espiam
O doce lagunar das ondas, o murmúrio frio das pedras.
O farol irrompe dos destinos prévios
E ronda, rumina, rasga os previlégios
A lua lá no alto augura um recomeço
Entre passos fortes, entre névoas frias,
Tudo será desterrado, tudo será revelado.
Tudo será livre.
O que é um tudo?
É um tubo obrigado a viver ao contrário.
A viver o lado menos bonito.

*

5.12.09

no que e q eu me vou meter...

help!!! :)

na segunda vou a uma aula de lindy-hop! pray for me!!! :D




o teu segundo filme

E ela disse: 'I miss you.'
E tudo ficou negro.

Vi hoje o teu segundo filme. E lembrei-me de ti outra vez. E senti a tua falta.
Pensei em tantos filmes tão parecidos que já vi a este.
E os sonhos.
Sonhei muitas vezes contigo antes. Antes de sermos dois outra vez, eramos um só.
Mas tu não te lembras. Eu não me lembro mas sinto.
Faltam sinapses. Associações furtuitas. Lembranças perdidas.
Ao menos desta vez,
nenhum de nós está do lado de fora.
Ao menos desta vez,
ninguém abandona ninguém.
Ficamos todos do mesmo lado.
'Eu quero que voce me faça o amor'
diz a tradução literal, automática, de uma linguagem mesclada.
Make me make love to you
continua, agora no original, ainda mesclado, quase todo inglês.
Impossível de traduzir. Qualquer tentativa seria alvo de processo judicial criminal sumário.
Tudo seria transcrito em palavras simples e a areia que nos separa deixaria de existir.

Faz-me mal estar a viver tudo o que não vivi contigo. Desta maneira a pele solta-se demasiado, antes do tempo, antes da própria vida. São escamas em demasia.

Por vezes imagino que me queiras dizer algo, ali, assim. Que me digas 'amo-te', mesmo que não tenhas coragem de o dizer. Talvez tenham inventado um vírus, que impeça a invenção do amor. e eu não te quero amarrar a uma cama, para depois nos denunciares depois do amor. Não fazes por mal, apenas estás infectada. E teríamos de fugir. Antes que a doença se espalhasse e alguém mais dissesse, 'eu inventei o amor'. Doença contagiosa irreversível a ser contida a todo o custo!
Antes que olhos se ergam, antes que desertos desabrochem, antes que esfinges se derrubem.

tudo está escrito dentro de ti. só tens de te lembrar do sonho. passar por todas as estações e parar na última paragem.

Depois diz-me como foi.

Um dia hei-de amar assim alguém. Gostava que fosses tu.

**

4.12.09

as mensagens aleatórias

não sei para que me mandas mensagens.
as minhas respostas nunca devem chegar ao seu destino.
sim, perdem-se no caminho. só pode.

chego ao fim de três semanas de clausura,
de trabalho ininterrupto sem sentido, nem explicação.
estou diferente. não sei se melhor.
talvez não.

em vez de sentir vazio, senti a tua falta.
os amanhãs que não existem
ainda latejam no meu peito.
e descrevem lentamente indiferenças
que se transformam em tristeza refinada
à medida que o tempo passa e tu não vens.

não sei o que queres de mim.
se me queres ver porque não me procuras?
envias-me mensagens que sabes que à partida
irão ficar sem resposta, pois mesmo que
as recebas, se é que as recebeste,
nunca terás coragem para as ler.

que queres de mim?
dizes. quando nos vemos?
e eu digo-te quanto tu quiseres.
num mergulho na praia de uma noite de inverno,
com chuva ou trovoada, tanto faz.
ou talvez na varanda do sexto andar.
aí em qualquer lado, num jardim
a chapinhar, fazemos de salta-poçinhas,
rei das libelinhas.
perdemo-nos no areal.
tu dizes. afinal quando nos vemos?
e eu digo-te,
aqui. agora. em toda a parte.

*