12.12.09

o lado menos bonito

não esperava sentir dor quando te vi.
estava cansado, frágil. queria estar só.
acabei por sair, por alguém que já amei
intensamente.
batatas. trocar batatas por laranjas.
nada de mais. coisas bonitas,
framboesas. das vermelhas. e figos. maduros.
quando te vi, soube a razão
de nunca mais termos falado.
e é uma boa razão.
por isso não esperava esta dor.
ainda não entendi sequer o que estava
escondido aqui dentro.
ela chegou atrasada. muito. eu frágil, cansado.
tu chegaste logo depois. ela deixa-me sozinho,
já não é a primeira vez. muito cansado. triste.

não mo apresentaste. coisa estranha.
e é tão bonito, não podia vir na melhor altura.
e isso faz-me sofrer.
talvez seja uma mistura das duas coisas.
nem sabia que tinha isto aqui guardado
dentro de mim. e não entendo, não há razão,
nenhuma razão. talvez me faças lembrar
como as coisas mudam à minha volta.
um ponto de referência, um momento
de retrospectiva. não será em vão.
prometo-te que não será em vão.
nada será em vão.
e é tudo tão rápido. e é tudo tão distante.
e é tudo tão grande, o absoluto.
porque quero tanto o absoluto?

As condeixas planam no largo horizonte
Nos matízes ébrios do romper da noite
Ébonas sombrias correm pela praia
Dentro da amurada sombras fortes espiam
O doce lagunar das ondas, o murmúrio frio das pedras.
O farol irrompe dos destinos prévios
E ronda, rumina, rasga os previlégios
A lua lá no alto augura um recomeço
Entre passos fortes, entre névoas frias,
Tudo será desterrado, tudo será revelado.
Tudo será livre.
O que é um tudo?
É um tubo obrigado a viver ao contrário.
A viver o lado menos bonito.

*

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