Eu não acredito no amor.
Todas as vezes que ele cai do céu
fura-me o chão. E dá muito trabalho
arranjar tudo de novo.
E chão é coisa que gosto de ter.
E cada vez que o chão acaba,
torna-se mais baixo.
E quanto mais baixo ele está,
mas estragos faz o amor quando cai.
Eu não acredito no amor.
Nem mesmo na ilusão do amor.
Provavelmente nunca acreditei.
Nem nunca vou acreditar.
O amor acontece, não se acredita nele.
Ou existe ou não existe, não é fantasia.
Estou farto de fantasias. Das pequenas ou
das grandes, tanto faz. Não sou esquisito
com os tamanhos.
Não sou esquisito e estou cansado.
E quanto mais cansado estou
mais rápido vem o amor
a estatelar-se
pelo chão.
*
26.10.09
21.10.09
it's yours
Gosto de conversar contigo,
e tudo é ainda tão virtual,
gostava que fosse aqui.
Na realidade ficamos nervosos,
apenas nos desprendemos quando estamos soltos,
imateriais. Somos projecções fugazes
das nossas próprias fantasias incomunicantes.
Por vezes temos esperança
que algum dia
aconteça, prefiro pensar,
que assim o pensamos. ambos.
A rua lá em baixo espreita
um outro final, um outro desfecho,
um outro despertar
das longas noites de inverno
sem dizer coisas más no teu nome,
como dizias, vais dizer coisas más em mim
pois não te deixo dormir.
Mas não. Não será assim.
Só tenho coisas boas a dizer de ti quando acordo,
especialmente quando sonho contigo, no abstracto.
Aí há rosas e não são de plástico, resta saber se
os espinhos serão comestíveis.
Pelo menos não há flores de plástico. Muito menos rosas
resistentes à passagem do tempo, para sempre no seu auge
artificial.
Dizes. Gostava de ser cozinheira. Nunca provei a tua massa
sem bechamel. Talvez estivesse longe quando a fizeste. Não
senti o seu cheiro.
Devemos continuar então pelos atalhos e pelos caminhos
e pelos trilhos e becos e ruas. em ti todos os lugares
são avenidas de ouro. E fazem as açucenas florescer.
No inverno.
*
e tudo é ainda tão virtual,
gostava que fosse aqui.
Na realidade ficamos nervosos,
apenas nos desprendemos quando estamos soltos,
imateriais. Somos projecções fugazes
das nossas próprias fantasias incomunicantes.
Por vezes temos esperança
que algum dia
aconteça, prefiro pensar,
que assim o pensamos. ambos.
A rua lá em baixo espreita
um outro final, um outro desfecho,
um outro despertar
das longas noites de inverno
sem dizer coisas más no teu nome,
como dizias, vais dizer coisas más em mim
pois não te deixo dormir.
Mas não. Não será assim.
Só tenho coisas boas a dizer de ti quando acordo,
especialmente quando sonho contigo, no abstracto.
Aí há rosas e não são de plástico, resta saber se
os espinhos serão comestíveis.
Pelo menos não há flores de plástico. Muito menos rosas
resistentes à passagem do tempo, para sempre no seu auge
artificial.
Dizes. Gostava de ser cozinheira. Nunca provei a tua massa
sem bechamel. Talvez estivesse longe quando a fizeste. Não
senti o seu cheiro.
Devemos continuar então pelos atalhos e pelos caminhos
e pelos trilhos e becos e ruas. em ti todos os lugares
são avenidas de ouro. E fazem as açucenas florescer.
No inverno.
*
15.10.09
le chanson d'amour
A noite vem e o perigo espanta
O amanhecer deitado, as raízes soltas,
Espalhas-te imensa pelo campo inteiro
E soletras as cantigas loucas
Por entre os plátanos e o vinho novo,
vens para mim e significas dor
Não há nada dentro deste canto
Que nos dê alento e alguma cor.
As folhas da melancolia
São apenas promessa
Do que não aconteceu.
Apenas nos resta correr
ou cantar. Ou renascer.
Ou cobrir o véu. Do amanhecer.
*
O amanhecer deitado, as raízes soltas,
Espalhas-te imensa pelo campo inteiro
E soletras as cantigas loucas
Por entre os plátanos e o vinho novo,
vens para mim e significas dor
Não há nada dentro deste canto
Que nos dê alento e alguma cor.
As folhas da melancolia
São apenas promessa
Do que não aconteceu.
Apenas nos resta correr
ou cantar. Ou renascer.
Ou cobrir o véu. Do amanhecer.
*
11.10.09
concerto tardio
O sono vem e com ele a esgrima.
As letras debatem-se com elas próprias,
gladiam-se. não se suportam mais porque os dedos
berram com elas e elas com elas.
A dri diz que não se podem comprar namoradas
nas lojas dos trezentos.
Porque teriam de estar embaladas. E ninguém pode
amar alguém embalado. Ou com data de validade.
Ou com orelhas de plástico.
gostava de sonhar contigo hoje. sonhei muitas vezes, antes.
tenho sono. gostei tanto do concerto. gostava de te dar os parabéns
como deve ser. mas não me deixas. andas estranha comigo. gostava
que fosse tudo como dantes.
*
a laranja caiu ao poço
E tu não a foste buscar.
As luzes emudecem, entras no palco, fazes do teu instrumento
uma história de amor.
De repente só estás tu. E sinto algo indescritível.
Um amor mais que amor. Um amor abstracto, inexistente, incorpóreo.
Algo extraordinário. Que se propaga por mim e me aquece.
E no entanto, ao mesmo tempo, nada significa, não tem substância.
Faltas tu.
És apenas parte de um passado que podia ter sido um presente bonito.
És de um futuro que nunca aconteceu no meu presente.
E fazes parte do inverno no meu coração.
E naquele momento mágico, amo-te de uma forma,
que não consigo sequer pensar pois
vêm-me logo lágrimas aos olhos
e não quero chorar.
Agora não. É demasiado cedo. Faz arder os olhos e perder água.
Gostava que fosses como dantes, mas é tarde
Os caminhos divergem e eu estou incandescente.
É apenas água luminosa. Abstracta matéria de pensamento.
Transparente. Reflecta a tua imagem em mim,
e faz-me um pardal de ilhéus voadores.
Não penses que te quero absorver. Não sou amiba. Não tenho jeito
para canibal.
Só que estás diferente, e eu sinto essa diferença em forma de
uma indiferença disfarçada.
Queria apenas que fosse tudo como dantes, espontânea, o que gosto mais em ti,
são as flores em teu regaço. Sempre tão alegres.
Cansa-me esperar. As surpresas sucedem-se e em nenhuma delas,
vens tu embrulhada. Nem mesmo quando o carteiro se esquece,
e entrega alguma encomenda na morada errada.
Nunca nos habituamos às coisas erradas. Habituar seria perecer,
apagarmo-nos do nosso próprio mapa mental, deixariamos de ter
identidade.
Mas identidade é algo que não queremos ter. Queremos união.
Reunião, religação.
ruminação sobre a ordem natural das coisas. sobre quem somos
e para onde viemos, para onde fomos. Onde estamos nós agora.
Comemos e bebemos e alguém canta canções brejeiras. Espero
por ti e vais embora. Vão ambas.
Adianta? Adiante. Andor!
*
4.10.09
sombras
Sinto sombras em mim.
Não estás cá para as mandar embora.
A tua ausência é uma sombra
cada vez maior.
Nasces em cada momento,
com bastante dor
mas sem lamento. Estás aqui.
Mas não existes, és apenas
uma leve brisa, uma luz que irrompe
num pequeno buraco de esferovite.
Um murmúrio no silêncio.
A angústia cresce e tu com ela renasces.
Paro por uns momentos e suspiro,
não me resta mais nada para fazer.
Esperar. E desesperar. E sonhar contigo.
Fazes-me tanta falta. E sinto que
sou capaz de tudo na vida,
menos disto. E sem isto,
não sou capaz de nada,
porque nada mais faz sentido.
E não te encontro, não sinto nada
por quem me rodeia. Onde estás afinal?
Não há brilho no teu olhar. Apenas lágrimas
de sangue.
Não compreendo como as coisas funcionam, e isso mexe comigo,
não acredito que a vida seja sofrimento pois, na verdade,
isto provoca-me um sofrimento dilacerante. E parece que,
quanto mais sofrimento provoca, mais tu te afastas.
O que fazer? Não sei. Sinceramente não sei. Estou tão cansado.
Resta-me o trabalho e a solidão. A solidão preenche se estivermos
realmente sós. E a solidão é horrível quando não estamos realmente sós.
Talvez seja um paradoxo. Talvez não faça sentido. Já não sei o que faz sentido.
Tu fazes sentido. Porque não apareces?
*
nomes
Tens um nome de uma flor, mas não sei quem és.
E disse: tens o nome de uma flor.
Olhaste, sorriste, e continuaste no teu caminho.
E eu fiquei ali para sempre.
*
desfasamentos
Tornas-te ilusiva novamente.
Dissolves-te nas paredes de mármore
e no chão inteiro.
As lágrimas que caem são apenas pétalas
arrancadas ao entardecer.
E nem sequer são lágrimas. São apenas,
a cristalização de uma memória inexistente.
Tornaste-te ar, neblina, nevoeiro, novamente.
A cada passo que dás dou eu dez numa outra direcção.
Apenas estamos destinados ao desencontro,
num desfasamento constante, crescente, incompreensível.
E no entanto caminhamos lado a lado,
ou na direcção um do outro, apesar da
entropia e da melancolia, e da apatia,
que se abate sobre o nosso não encontro.
Por vezes parece que
nunca nos iremos encontrar.
Há dias em que
parece não valer a pena continuar.
Por momentos talvez sinta
que não vale a pena procurar.
Deixo-me estar, à espera
até a espera deixar de esperar por mim.
Embora não espere nada apenas sinto-me
feito de marfim e mármore e
estou bem sem me mexer.
Habituamo-nos demasiado ao silêncio das colunas
e às tágides. Dizem sempre o que queremos ouvir,
ou então não dizem nada.
São estátuas imoveis em mim. E tudo acontece
à minha volta, mas não em mim. Porque estou imóvel
e deixo-me estar assim, pois a alternativa é insuportável.
Um dia disseram-me que a ia encontrar.
Mas eu não acreditei.
***
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