11.10.09

a laranja caiu ao poço

E tu não a foste buscar.

As luzes emudecem, entras no palco, fazes do teu instrumento
uma história de amor.

De repente só estás tu. E sinto algo indescritível.
Um amor mais que amor. Um amor abstracto, inexistente, incorpóreo.
Algo extraordinário. Que se propaga por mim e me aquece.
E no entanto, ao mesmo tempo, nada significa, não tem substância.
Faltas tu.

És apenas parte de um passado que podia ter sido um presente bonito.

És de um futuro que nunca aconteceu no meu presente.

E fazes parte do inverno no meu coração.

E naquele momento mágico, amo-te de uma forma,
que não consigo sequer pensar pois
vêm-me logo lágrimas aos olhos
e não quero chorar.

Agora não. É demasiado cedo. Faz arder os olhos e perder água.

Gostava que fosses como dantes, mas é tarde
Os caminhos divergem e eu estou incandescente.

É apenas água luminosa. Abstracta matéria de pensamento.
Transparente. Reflecta a tua imagem em mim,
e faz-me um pardal de ilhéus voadores.

Não penses que te quero absorver. Não sou amiba. Não tenho jeito
para canibal.

Só que estás diferente, e eu sinto essa diferença em forma de
uma indiferença disfarçada.

Queria apenas que fosse tudo como dantes, espontânea, o que gosto mais em ti,
são as flores em teu regaço. Sempre tão alegres.

Cansa-me esperar. As surpresas sucedem-se e em nenhuma delas,
vens tu embrulhada. Nem mesmo quando o carteiro se esquece,
e entrega alguma encomenda na morada errada.

Nunca nos habituamos às coisas erradas. Habituar seria perecer,
apagarmo-nos do nosso próprio mapa mental, deixariamos de ter
identidade.

Mas identidade é algo que não queremos ter. Queremos união.
Reunião, religação.
ruminação sobre a ordem natural das coisas. sobre quem somos
e para onde viemos, para onde fomos. Onde estamos nós agora.

Comemos e bebemos e alguém canta canções brejeiras. Espero
por ti e vais embora. Vão ambas.

Adianta? Adiante. Andor!

*






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