6.1.11

o regresso.

Voltei.

Não sei o que escrever. Custa-me voltar. A sensação de nunca te encontrar queima-me a pele. A escrita já não é o que era, apodreceu, tornou-se pálida, encarquilhou com o tempo, despega-se de mim, gasta, seca, fragmentada.

O que me custa mais é não estares aqui. Mas isso já tu sabes. Sempre soubeste. Eu tento sempre convencer-me do contrário. De que não existes. De que não és nada para mim. Fazes-me falta, não te encontro em ninguém, percorro ilusões, umas atrás das outras, e farto-me.

Hoje estou cansado de te procurar. Quero descansar de ti. Estamos tão longe um do outro. Estaremos? Eu sei que amanhã continuarei a minha procura, mas hoje não. Sinto-me demasiado só para procurar, preciso de me distrair, de dispersar, recomeçar de novo, e amanhã é dia para voltar. Hoje não. Hoje estamos no limbo, na dúvida, na introspecção de todos os momentos não vividos. Restam apenas lágrimas de crocodilo de barriga cheia. O ventre está cheio de coisinhas inúteis, pré-fabricadas, que nos fazem consumir pelo natal. Não sei mais o que digo. Nunca estou satisfeito. Por vezes até fico insatisfeito antes de o estar. Antes de te conhecer, já sei que me vou separar de ti. Porquê? Talvez esteja apenas confuso, não sei o que digo. Tenho sempre uma razão para dizer não, mas nunca digo que não antes do sim, e isso confunde-me, apesar de me libertar. Só entendo quando estou dentro de ti. E depois vou-me embora. Vou-me embora de ti, de mim, e continuo a procura. Já não sei bem de quê. Talvez de nuvens no ar que sugerem formas e nomes e lugares e que se desvanecem num momento.

Tenho saudades disto. Um dia hei-de continuar por aqui. Quem sabe se amanhã?

*

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