1.5.10

continuo sem aprender nada.

Por aqui ninguém aprende. Nada.
Apenas pesamos como chumbo, em nós mesmos.
Somos vários, muitos. Não sabemos onde estamos nem quem somos.
Apenas existimos e sofremos.

Não há razão dizem-nos, mas nem sabemos o que isso é, o sofrimento.
Um mau estar, um tumulto inexplicável em nós, um nó na garganta, um vazio.
Talvez lembrar o porquê seja demasiado doloroso, sabemos demasiadamente bem
porque sofremos. Mas não nos lembramos. Apenas sentimos na pele, o eriçar dos pelos,
a insignificância dos dias que virão, a insustentável tristeza do ser.

Apenas existimos por existir. Por preguiça, relutância de morrer, apatia.
Não se transforma o nada em alguma coisa. Apenas se respira, a custo.
Fala-nos de amor pediu a turba ao velho. E ele disse, não tenho nada a dizer, e foi-se embora.
Deixando marcado no chão, na memória do povo, o que restava da sua compaixão.

Há dias em que a tua falta é insuportável, os espelhos quebram, o coração pára. Há dias em que nunca te irei encontrar, não existes, és apenas o vento a pregar-me partidas de mau gosto.

Estou de partida e tudo parece perdido. Tudo o q está para trás foi uma perda de tempo, perda de ânimo, perda de alegria e de esperança. Pela frente há um vazio, roubado a cada passo de tempo que passa. As transições dão nisto. Dão diabetes, dores de barriga, vontade de foder. Uma incrível e opressora vontade de foder.

Ontem dançei contigo. Mas não tive coragem. Nunca tenho coragem. Estou fodido.

Isto hoje está bonito. Não sei se consigo ir hoje. Não tenho vontade. Estou mesmo muito triste. A tristeza derrama-se, um banho nela, mais chuveiro que imersão. Deixo apenas o tempo passar, escoar, um tempo que não tem sentido nenhum. Como é que me podes fazer perder todo o sentido. Como podes fazer reduzir a nada tudo o resto. Porque me fazes tanta falta e crias um vazio tão grande. Porque não consigo mudar as coisas ou mudar a mim próprio para as coisas mudarem. Porque já não sei o q fazer mais. Porque já não sei como não fazer mais.

As tuas pálpebras sabem a anémonas fora do prazo. Estás rígida e és feita de pedra. Não te movimentas muito, nem transpareces ardor, nem alegria. Apenas estás imóvel e intemporal. Não te estragam as sedas fúnebres, apenas permaneces. Os teus lençóis são como pedras afiadas do tempo das cavernas. Não tens flores na tua mesinha de cabeçeira, apenas restos de comida em putrefacção. A tua cisterna está vazia, dantes tinha petróleo, agora nem isso. Estás apenas pálida e dizes que estás morta. Mas eu não sei porque não respiras. O teu hálito acre dá-me vómitos. Não tentes seduzir-me porque não vais conseguir. Desiste, torna-te pedra de uma vez por todas. Quem quiser que escolha chafurdar na tua cama e afogar-se no teu sangue. Trazes-me memórias de metal, prateadas. Sinto-me doente e a minha cabeça dá-me enjoos. Estás aqui tão perto e nem te posso tocar. És apenas vísceras. Os teus filhos são abutres que se alimentam delas. Estás consciente e no entanto és pedra. E até as pedras choram, por vezes. Trazem-te memórias de outros tempos, em que vivias debaixo da terra. A tua memória é terra. Antes que a terra te traga até mim diz, o amor não existe.

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