23.1.08

não sei o que dizer.

como não sei o q dizer há quem o diga por mim.

E hoje não digo mais nada...


Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
e a atenção começa a florir quando sucede a noite esplêndida e vasta
Não sei o que dizer quando longamente teus pulsos se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado
Quando iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado pelo pressentir um tempo distante
e na terra crescida os homens entoam a vindima.
eu não sei como dizer-te que, cem ideias, dentro de mim te procuram.
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia
tu arrebates os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite
e então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio
quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
não sei como dizer-te que a pureza, dentro de mim, te procura.
Durante a primavera inteira, aprendo os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto correr do espaço
e penso que vou dizer algo cheio de razão
mas quando a sombra cai da curva sôfrega dos meus lábios
Sinto que me faltam um girassol, uma pedra, uma ave, qualquer coisa extraordinária.
porque não sei como dizer-te, sem milagres, que dentro de mim
é o sol, o fruto, a criança, a água, o deus, o leite, a mãe, o amor,
que te procuram

Herberto Helder

Dedicado ao mundo de pessoas que lê Herberto Helder à espera do comboio...na paragem de autocarro...

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